Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

RESENHA: “MULHERES DESTINADAS AO ÊXITO: TRAJETÓRIAS ESCOLARES E PROFISSIONAIS DE EX-ALUNAS DO CURSO CIENTÍFICO DO COLÉGIO CORAÇÃO DE JESUS DE FLORIANÓPOLIS (1949- 1960)

Bianka Maria Delagracia1

 

     Como uma pesquisa realizada a partir do programa de Pós-graduação em História e Historiografia da Educação, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) no ano de 2013, o livro “Destinadas ao Êxito: Trajetórias de ex-alunas do Colégio Coração de Jesus de Florianópolis (1949 - 1960), conta com colaboração das ex- alunas e de documento prescritivos como fontes de composição. Estela Maris Sartori Martini autora do livro possui experiência na área de História e na área de Educação, com ênfase em História da Educação, atuando principalmente no tema referente ao Ensino Secundário no Brasil no século XX.

     O objeto de pesquisa da autora consiste no Colégio Coração de Jesus (CCJ), uma importante instituição educacional da cidade de Florianópolis que volta sua educação para o público feminino. No ano de 1895 é fundado pelas Irmãs da Divina Providência, dedica-se até o ano de 1912 à educação primária e pré-primária. A partir do ano 1947 as Irmãs inauguram uma seção ginásio com ensino científico estabelecido como demanda da Lei Orgânica do ensino Secundário de 1942, a qual estabelece o ingresso nas faculdades e nas universidades às estudantes que completassem o segundo ciclo do ensino secundário (MARTINI, 2013) .

     Visto essas informações, o recorte temporal escolhido para a constituição da obra segundo a historiadora, justifica-se, sendo 1949 o ano de formatura da primeira turma do curso científico, e 1960 a fundação da Universidade Federal de Santa Catarina. O problema que 2 direciona a pesquisa confere-se a como se deram as trajetórias sociais das alunas egressas que concluíram o curso científico no CCJ de Florianópolis, entre os anos de 1949 e 1960.

     Leva-se em consideração para a sustentação da obra o diálogo com pensadores e estudiosos da história e educação como Pierre Faguer (1960) , as considerações de Pierre Bourdieu e Jean- Claude Passeron. Para identificar especificidades de cada instituição de ensino a autora utiliza- se de : Almeida (1999), Brandão ( 2003) e Dallabrida ( 2011) , além da incorporação de conceitos como apropriação Chartier (1990) e de cultura escolar de Julia 1 (2011) , para compreender como se deu o processo de inserção da nova legislação no campo escolar do CCJ, e quais foram suas modificações no campo escolar tratado.

     Para trabalhar sua pesquisa, Martini divide a obra em 3 capítulos. No primeiro analisa-se como foi apropriado o curso científico e seus principais traços em uma cultura escolar caracterizada pelo catolicismo e pela formação de meninas. Foca-se principalmente na transmissão dos saberes e nas condutas vigentes no colégio, mais especificamente no curso científico.

     De acordo com Martini, a cultura escolar do CCJ durante os anos foi-se remodelando, na medida em que as transformações da sociedade iam exigindo mudanças na imagem feminina. Os cursos começam a ser ampliados exercendo a função de educar mulheres que exercessem não somente o papel de esposa e formadora de uma família, mas também uma mulher que alcança postos antes designados ao papel masculino, marca registrada da imagem feminina do período pós-guerra.

     No ambiente escolar as estudantes aprendiam a conviver em conjunto, a se reconhecerem como iguais, em um tipo de aprendizagem cultural baseada em práticas coletivas. A boa educação no colégio se baseia não somente em uma formação unicamente cristã, mas também no vínculo à “boas companhias”, uma união que favorecia a ampliação do capital social das famílias, o que correspondia na construção dos possíveis “entre amigos”. ( PEROSA, 2004)

     Um grande desafio foi implantar dentro de um colégio com uma cultura escolar católica o ensino das ciência científica. Práticas como pintura e costura foram aliadas com a reprodução , repetição e o ato de decorar conteúdos de disciplinas de Química, Física e Biologia. A pesquisadora por fim nomeia essa transformação do método de ensino do CCJ, de uma cultura escolar híbrida, na qual alia-se práticas assistencialistas às prendas domésticas e a representação de um novo modelo de mulher que se caracterizava por ser moderna, independente e que lutaria por um diploma e por um cargo no mercado de trabalho. De acordo com os documentos do 3 colégio o curso funcionou com regularidade, realizando aulas práticas, provas parciais e orais, assim como ministrando todos os conteúdos conforme os dispositivos regulamentares.

     De acordo com os documentos oficiais, as dirigentes do CCJ cumpriram todas as prescrições exigidas na Lei nº 4.244/1942,” (MARTINI, 2013, p. 66) 2 No segundo capítulo são apresentados através de questionários, as informações fornecida pelas ex- alunas, sobre a posição social de suas famílias de uma maneira na qual são consideradas essas informações como pontos fundamentais para formação da trajetória dessas alunas ao êxito. O meio familiar é visto como muito influente no sucesso escolar dos filhos, a constituição familiar pode prover a criança, o acesso desde pequeno a um acervo de conhecimento e de possibilidades de se obter êxito. Para Bourdieu o sucesso não se refere à dom, mas consiste em uma interferência direta de hábitos culturais e familiares. “O sentido das trajetórias, das alunas está atrelado às histórias de suas famílias, ao nível cultural, econômico e social dos ascendentes, à transmissão de capital cultural famílias e a apropriação deste pelas filhas”. (MARTINI, p. 88, 2013).

     Com base na análise dos dados obtidos por Martini, constata-se que o patrimônio das famílias na maioria dos casos, estava ligado ao comércio, seguido de indivíduos ligados às indústrias, e os proprietários de terra, seguindo de profissões mais especializadas como engenheiros, médicos, professores e jornalista, advogado, artista plástico, e militar. No que refere-se à localização geográfica dessas famílias, a maioria são advindas de cidades como Florianópolis e outras que compõem o estado de Santa Catarina, porém de acordo com os dados há um número de famílias vindas de outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro e até mesmo de outros países como a Itália e a Alemanha.

     As mães das alunas, portavam diploma de normalista, algumas ingressar em colégios femininos confessionais, evidenciando uma elitização escolar dessa geração. No que refere-se às profissões a maioria das mães eram donas de casa, estabelecendo o papel que lhes fora estabelecido desde sua formação (de donas de casa, mães e esposas devotadas ao seus maridos, envolvidas na educação de seus filhos, muitas vezes algumas se abdicando de sua carreira profissional para auxiliá-los).

     No que se refere às trajetórias das alunas, após concluir o curso, diferente de suas mães, procuraram as faculdades locais, e a minoria foi para universidades públicas existentes fora do Estado de Santa Catarina. Os cursos mais procurados foram ligados às licenciaturas curso que na época era designado totalmente feminino, seguidos de Direito, odontologia e Farmácia. Muitos após terminarem a graduação, seguiram à pós-graduação em países da Europa, ou nos 4 Estados Unidos da América, o que pode-se dizer que reconverteu o capital econômico, social e cultura às suas famílias. Dessa forma as trajetórias das alunas segundo a 3 autora, caracteriza por um processo de “fluência, linearidade e continuidade”, um processo escolar sem ruptura.

     Dentro desse cenário de uma educação homogeneizadora que atendia um público que em grande parte pertencia a famílias de classe altas, e que tiveram como trajetórias uma continuidade de estudos, houveram exceções, considerado por Martini como casos das trânsfugas. Casos particulares abordados no terceiro capítulo como o de Zélia e Marlene, alunas que vieram de famílias de classes econômica desfavorecidas e desprovidas de um capital cultural provido pela mesma, e que adentraram no colégio com auxílio de bolsas de estudo.

     Zélia vem de uma família pobre e numerosa com pai e mãe alfabetizado, porém não frequentaram a escola, mas ambos estavam incumbidos de uma profissão, dessa forma existia segundo Lahire (2008) “condições e disposições econômicas” gerando uma tranquilidade financeira e suporte emocional para formação escolar dos filhos. Possuía um irmão mais velho que havia frequentado um colégio religioso franciscano e esse oportuniza a irmã a ingressar no CCJ, tendo em vista que era um colégio de qualidade. Dessa forma, o irmão possuía o termo designado por Nogueira (1998) de capital informacional sobre a escola. Em sua casa circulavam mesmo que fossem velhos livros trazidos pela mãe no trabalho, e Zélia possuía incentivos nos estudos de matemática através da intervenção de seu pai. Esses foram um dos motivos que influenciaram a permanência da aluna no colégio e na trajetória que levou até chegar a formação de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

     O caso de Marlene, aluna por quatro anos do Colégio Coração de Jesus, órfã de pais adotada pelos tios, sendo o tio guardião de livros e a tia vendedora de doces alfabetizada com grandes dificuldades, trabalhou desde cedo para ajudar os tios, e foi incentivada pela tia a inserir nas melhores escolas e obter as melhores companhias. A situação da protagonista se aplica a explicação de Bourdieu na qual todos os atores sociais estão lutando para melhorar ou conservar suas posições na hierarquia social e a posse de contratos estratégicos serve de vantagem nessa competição. Mas Marlene teve sua trajetória muito distinta do que se costumava a ver como normal às alunas do colégio, a aluna após concluir os estudos no CCJ entra na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Florianópolis, mas logo é presa pe presa pela ditadura e inicia um processo de participação de muitos movimentos da juventude.

     A partir do início de uma vida de militância, essa acumula capital social chegando ao papel de ativista dos partidos de extrema esquerda, após um processo de prisão ocasionado pela 5 ditadura militar e de um acúmulo de conhecimentos construídos a partir de suas experiências. “Sua trajetória social, escolar e profissional se deu a partir do acúmulo de capital cultural, plasmada desde sua infância, sua autonomia escolar e pelo investimento que sua tia desempenhou para que ela adquirisse uma educação burguesa “(MARTINI, p. 168, 2013)

     Zélia e Marlene são exemplos de protagonistas, que quebram com os padrões produzidos e estabelecidos pela sociedade educacional na qual foram inseridas. Diferenciam-se tanto na constituição familiar das demais, pois vieram de famílias de condições econômicas desfavoráveis, no caso de Marlene não contava nem com a presença do pai e da mãe, mas dos tios. Outro fato a se considerar é a trânsfuga dessas mulheres nas trajetórias traçadas pelas demais, ainda que seguiram uma continuidade nos estudos, obtiveram contato ou com outros fatores sociais externos como militância no caso de Marlene, ou no caso das duas a uma limitação no campo profissional ocasionado pelo contato tardio ao capital cultural.

     Por fim, a obra de Martini, traz a compreensão de como um colégio confessional feminino em meados da metade do século XX, contou com uma educação moralizante homogeneizadora, com moldes de criação de um modelo único feminino, se apropria de um modelo de curso científico a sua cultura escolar. Acompanha-se ao mesmo tempo as modificações que se referem à sociedade daquele momento principalmente ao papel da mulher, que após segunda guerra mundial confere junto ao papel de boa esposa e provedora, a independência e autonomia. A partir das considerações da autora, percebe-se como o papel da família e das condições tanto econômica como culturais dadas as alunas, influenciam na criação da trajetória e no alcance do sucesso dessas protagonistas. Além disso mesmo trazendo estatísticas que comprovam que a maioria das alunas obtiveram uma trajetória parecida de uma continuidade e sucesso em sua trajetória de estudos, duas mulheres como Zélia e Marlene trazem para a refle o fato de que a educação condicionada pelo colégio não era restrita somente às filhas da elite, e que o sucesso e o êxito não fora alcançado de forma homogeneizadora.

 

REFERÊNCIA

MARTINI, Estela Maris Sartori. Mulheres destinadas ao êxito: Trajetórias Escolares e Profissionais de Ex-alunas do Curso Científico do Colégio Coração de Jesus de Florianópolis (1949- 1960). Florianópolis: UDESC, 2013.

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1- Acadêmica do Curso de História - Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

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