Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

RELATO DE EXPERIÊNCIA: A LITERATURA DE CORDEL COMO POSSIBILIDADE DE AMPLIAÇÃO DE HABILIDADES NOS PROCESSOS DE AUTORIA

THE LITERATURE OF TWINE AS A POSSIBILITY OF EXPANSION OF SKILLS IN THE PROCESSES OF AUTHORSHIP

 

Kétarine de Matos Gomes¹

Jordelina Beatriz Anacleto Voos ²

 

RESUMO - O presente artigo é resultado do processo de estágio curricular supervisionado obrigatório que faz parte da matriz do curso de licenciatura em pedagogia, desenvolvido em etapas, entre elas a pesquisa e a intervenção que fundamentaram esta produção, tendo como fio condutor o seguinte problema: verificar se a Literatura de Cordel poderia ser introduzida nos anos iniciais do ensino fundamental mediando processos de autoria. Com o objetivo de promover o desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita das crianças, a metodologia utilizada na pesquisa foi do tipo etnográfico de cunho qualitativo. Participaram deste processo professoras dos anos iniciais do ensino fundamental e crianças do 4º ano. Como resultado do projeto foram produzidos pelas crianças folhetos de cordel, evidenciando a importância das crianças se reconhecerem nos processos de autoria, efetivando e ampliando as habilidades de leitura e escrita.

PALAVRAS CHAVE: Estágio Curricular; Literatura de Cordel, Processos de Autoria.

 

 

ABSTRACT -This article is a result of the compulsory supervised curricular internship process that is part of the matrix of the degree course in pedagogy, developed in stages, among them the research and intervention that founded this production, having As a conductor wire The following problem: Verifying that the string literature could be introduced in the early years of elementary school mediating authoring processes. In order to promote the development of the reading and writing skills of children, the methodology used in the research was of the ethnographic type of qualitative nature. They participated in this process teachers of the early years of elementary school and children of the 4th year. As a result of the project were produced by the children leaflets of twine, showing the importance of the children recognize themselves in the processes of authorship, effective and expanding the skills of reading and writing.

KEY WORDS: Curricular Internship; String Literature, Authoring Processes.

 

                                                                                                                                              Aqueles que aí estão

                                                                                                                                                Atravancando meu caminho

                                       Eles passarão

                                                  Eu Passarinho.

                                                                                                                                                                                       Mario Quintana

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

      O estágio curricular supervisionado obrigatório é um dos momentos mais esperados pelos acadêmicos dos cursos de formação de professores, pois para muitos este será o primeiro contato efetivo com sua futura área de atuação. Neste contexto, o estágio curricular supervisionado obrigatório apresenta caráter decisivo tanto no objetivo profissional do graduando como na formação de sua identidade docente.

      O estágio, nas citações de Pimenta e Lima (2012, p. 24), tem a finalidade de “integrar o processo de formação do aluno, futuro profissional, de modo a considerar o campo de atuação como objeto de análise, investigação e interpretação crítica”, proporcionando, durante este período, aos acadêmicos a oportunidade de relacionar o conhecimento teórico desenvolvido nas diversas disciplinas já cursadas com o conhecimento da realidade vivenciada no campo de atuação, aprimorando seu conhecimento, na formação, enquanto práxis pedagógica.

Conclui que o estágio, ao contrário do que se propugnava, não é atividade prática, mas teórica, instrumentalizadora da práxis docente, entendida esta como atividade de transformação da realidade. Nesse sentido, o estágio curricular é atividade teórica de conhecimento, fundamentação, diálogo e intervenção na realidade, esta, sim, objeto da práxis. Ou seja, é no contexto da sala de aula, da escola, do sistema de ensino e da sociedade que a práxis se dá (PIMENTA; LIMA, 2012, p. 24).

 

      O estágio curricular supervisionado foi desenvolvido em três etapas distintas: observação, inserção e participação que deram origem a temática da pesquisa e do projeto de intervenção que fizeram parte da última etapa e que compreendeu o processo de intervenção.

A pesquisa no estágio, como método de formação de futuros professores, se traduz, de um lado na mobilização de pesquisas que permitam a ampliação e a análise dos contextos onde os estágios se realizam; por outro e em especial, se traduz na possibilidade de os estagiários desenvolverem posturas e habilidades de pesquisador a partir das situações de estágio, elaborando projetos que lhes permitam ao mesmo tempo compreender e problematizara situações que observam (PIMENTA; LIMA, 2012, p. 46).

 

      A temática da pesquisa surgiu durante a participação em uma feira multicultural, realizada, na escola campo de estágio, sobre a cultura africana nos estados brasileiros. Entre os conteúdos abordados, encontrava-se a Literatura de Cordel. A temática explorada de forma superficial, naquele momento, causou expectativas nas crianças e nos professores também. O tempo escasso não permitiu o devido aprofundamento.

      Visando, então, atender o interesse inicial demonstrado pelas crianças, a pesquisa, o projeto de intervenção e o planejamento foram norteados pela Literatura de Cordel com o objetivo de promover o desenvolvimento de habilidades de leitura e de escrita de crianças, de uma escola da rede pública, mediado pela literatura de cordel, como prática pedagógica interdisciplinar. A metodologia utilizada na pesquisa foi do tipo etnográfico de cunho qualitativo. Participaram deste processo professores dos anos iniciais do ensino fundamental e crianças do 4º ano.

      Considerando que literatura faz parte do currículo em todas as etapas da educação básica e deve ser abordada de forma interdisciplinar inferiu-se, então, que a literatura de cordel, no período dedicado à docência durante o estágio, assumiu papel de destaque no desenvolvimento da leitura e da escrita, das crianças, dialogando com diferentes conteúdos curriculares.

      Como resultado do projeto foram produzidos, pelas crianças, folhetos de cordel evidenciando a importância das crianças se reconhecerem nos processos de autoria, efetivando e ampliando o hábito de leitura e as habilidades de leitura e escrita.

      Na estruturação do artigo, descreve-se as etapas do estágio curricular supervisionado, a pesquisa e a devida fundamentação teórica, bem como os dados coletados e a respectiva análise e, por fim o relato da experiência da intervenção.

 

PRIMEIRAS CONSTATAÇÕES

 

      O estágio curricular obrigatório na modalidade anos iniciais foi realizado em uma escola de educação básica mantida pelo Governo do Estado de Santa Catarina, localizada na cidade de Joinville, em um bairro de classe média baixa.

      Os educandos pertencentes à escola estão inclusos na faixa etária entre 6 e 18 anos, salvo exceções acima desta faixa para estudantes do ensino médio noturno, na grande maioria moradores deste mesmo bairro e imediações.

       Para dar início ao estágio curricular a acadêmica fundamentou-se teoricamente a respeito da importância e significado do estágio para a formação acadêmica e para a construção da identidade do docente.

      Na etapa de observação a acadêmica teve a oportunidade de contemplar a instituição em sua totalidade, visualizando, na prática, o que havia sido exposto na universidade na teoria. “A observação do campo de estágio permite que o educador em formação relacione a teoria com a prática, uma vez que a teoria deverá ser formulada e utilizada nas necessidades concretas da realidade educacional” conforme afirma Soares et al, (2009, p.182).

      Durante esta etapa, efetuou a leitura do Projeto Político Pedagógico, observou as salas de atividades e as relações entre educadores e educandos, bem como a prática pedagógica institucional. Foi possível perceber que a concepção pedagógica vivenciada pela escola não tem uma matriz única, pois no cotidiano são observadas práticas pedagógicas distintas.

      A etapa de inserção e participação ocorreram concomitantemente, cada qual dentro de suas especificidades. A participação efetivou-se em diferentes momentos. Entre eles, auxílio aos professores e às crianças, conselho de classe e reunião pedagógica e o momento em que a acadêmica percebeu a oportunidade de se engajar como forma de inserção na realidade daquele espaço educativo, em um evento cultural promovido pela instituição, tendo a cultura africana como temática, atendendo a determinação da Lei n. 9.394/96.

      Inserida no cotidiano da instituição, a estagiária auxiliou a professora do 4º ano do ensino fundamental na organização das atividades e de materiais a serem expostos na feira. O 4º ano apresentou a cultura do estado da Paraíba, que tratou superficialmente da literatura de cordel, surgindo, durante aquela atividade. o tema que norteou o projeto de intervenção.

      Na etapa de intervenção a acadêmica, já inserida na escola, desenvolveu uma pesquisa bibliográfica a respeito da Literatura de Cordel, exímia representante da cultura popular brasileira. Este referencial fundamentou a proposta de docência que deu origem a um planejamento interdisciplinar, no diálogo, com os diferentes conteúdos curriculares.

 

O PROJETO DE INTERVENÇÃO

 

      Partindo do processo de observação e da inserção, a acadêmica no papel de agente investigador, coletou dados no campo de estudo adotando a abordagem qualitativa, e os princípios da etnografia, para fundamentar o projeto de intervenção.

      A pesquisa, do tipo etnográfico consiste na inserção do pesquisador no ambiente a ser pesquisado, quando este irá interagir com os membros e situações do grupo de estudo permitindo ao investigador observar as significações atribuídas pelos sujeitos da própria pesquisa dentro do contexto cultural em que estão inseridos, sendo estes fortes indicativos para os resultados que serão alcançados.

a etnografia tem como característica enfocar o comportamento social no cenário, confiando em dados qualitativos, em que as observações e interpretações são feitas no contexto da totalidade das interações humanas. Os resultados da pesquisa são interpretados com referência ao grupo ou cenário, conforme as interações no contexto social e cultural e a partir do olhar dos sujeitos participantes da pesquisa (SILVA et al, 2010, p.4).

 

      Neste sentido, a pesquisa foi essencial ao processo de estágio curricular supervisionado, pois norteou o projeto de intervenção e consequentemente o planejamento de docência conforme as constatações de Pimenta; Lima (2012, p. 221) que apresenta “o projeto como um caminho teórico metodológico de mão dupla para a formação dos estagiários e para a criação de possibilidades de melhorias na escola”.

      Para a coleta de dados foi aplicado um questionário com 5 questões abertas com os docentes que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental e as crianças que frequentam o quarto ano. A amostra foi composta por 5 professoras (4 responderam os questionários) e as crianças do quarto ano que responderam as mesmas questões. Porém para atender a realidade das crianças, foi realizada uma roda de conversa sobre as respostas das questões. Os resultados da pesquisa realizada com as crianças estão disponibilizados no quadro 1.

       Quadro 1 – Entrevista com as crianças

Questões

Respondentes – crianças

1. O que é literatura?

É como você lê.

Literatura é imaginação

Literatura é criatividade

2. Que tipo de literatura vocês leem na escola?

Livros, revistas, gibis, histórias, Diário de Um Banana, Diário Otário e textos.

3. Que tipo de literatura vocês leem em casa?

Gibis, livros da biblioteca, comentários de vídeos do You tube, redes sociais, bíblia, Diário Otário,

4. Que tipos de literatura você tem acesso na biblioteca da escola?

Gibis, Diário de Um Banana, Monica Jovem, livros de pesquisas, livros de atividades.

5. Vocês conhecem a literatura de cordel?

Sim, conhecemos na feira multicultural.

Fonte: Acervo da Estagiária

 

      Na roda de conversa, realizada com as crianças, foi possível perceber que elas, ainda, não tinham clareza do conceito de literatura, porém conheciam e tinham contato com vários tipos diferentes de literatura, evidenciando que as atividades na biblioteca escolar tinham resultados positivos, expressando também que havia relação entre o que liam na biblioteca e a leitura em casa. Este dado indicava, também, que a turma tinha o hábito de ler e a escola incentivava este processo, emprestando os livros.

      Ao serem questionadas se conheciam a literatura de cordel a resposta positiva, das crianças, foi unânime, pois este gênero havia sido apresentado na feira multicultural e todas haviam tido o primeiro contato com versos cantados no estilo de cordel, como também, a escrita de uma quadra (estrofe de quatro versos) que haviam apresentado na feira (que ocorreu na escola no mês anterior a pesquisa). Respondendo à questão 5, durante a roda de conversa, as crianças complementaram as respostas enfatizando o quão interessante era a literatura de cordel, confirmando a expectativa da estagiária sobre o tema do projeto de intervenção.

      No quadro 2, como segue, foram apresentadas as respostas das professoras dos anos iniciais do Ensino Fundamental a respeito dos conhecimentos e práticas mediadas pela literatura de cordel.

      Quadro 2 – Entrevista com as professoras do ensino fundamental – anos iniciais.

Perguntas

Respostas

1. O que vocês entendem por literatura?

Prof.ª 1. É a manifestação escrita nos diferentes gêneros literários, de uma determinada cultura e época.

Prof.ª 2. É a arte de criar, emocionar através de uma história.

Prof.ª 3. É um meio de você manifestar as expressões culturais e artísticas de uma determinada época.

Prof.ª 4. São escritos artísticos de diversos gêneros e funções.

2. Que tipo de literatura está disponibilizado na biblioteca para as crianças?

Prof.ª 1. Contos; crônicas; romances; literatura de cordel; literatura infantil e infanto juvenil; história em quadrinhos.

Prof.ª 2. Contos, poesias, poemas, revistas, jornais, romances.

Prof.ª 3. Literatura de cordel, infanto juvenil, crônicas, poesias, infantil, clássicos, prosa, romance.

Prof.ª 4. Diversos contos, romances, literatura infanto juvenil, poesias, dicionários, entre outros....

3. Dentre as literaturas disponibilizadas encontra-se a literatura de cordel?

Prof.ª 1. Sim, mas o acervo é pouco.

Prof.ª 2. Sim

Prof.ª 3. Sim, um pequeno acervo.

Prof.ª 4. Sim, pouco, mas tem.

4. Dentre as literaturas tratadas com as crianças é abordada a literatura de cordel?

Prof.ª 1. Sim. Pois faz parte da cultura do país e é uma forma em que as crianças interagem com a cultura social, expressão oral e a função social da escrita.

Prof.ª 2. Sim

Prof.ª 3. Nunca abordei esta literatura com os primeiros anos.

Prof.ª 4. Sim. Mas eu com os meus segundos anos ainda não abordei.

5. Se não tem na biblioteca a literatura de cordel, como vocês proporcionam o contato das crianças com esse tipo de literatura?

Prof.ª 1. Com os livros didáticos e pesquisas na informática.

Prof.ª 2. Levamos na biblioteca e em sala fazemos leitura e interpretação de texto.

Prof.ª 3. Muita literatura que desejo trabalhar e não encontro na biblioteca busco e retiro da internet.

Prof.ª 4. Nós temos na biblioteca, mas também podemos pesquisar mais na internet.

      Fonte: Acervo da Estagiária

 

      Analisando as respostas fornecidas pelas professoras, inferiu-se que a literatura de cordel, apesar de conhecida, era pouco enfatizada no currículo talvez pelo fato das poucas obras no acervo de biblioteca. Outra inferência, diz respeito a preferência dos professores pelos contos infantis clássicos apropriados à faixa etária das crianças dos anos iniciais do ensino fundamental.

      A partir destes resultados, ficou evidente a necessidade de integrar, no planejamento da docência, os conteúdos curriculares de forma interdisciplinar empregando o gênero literário Literatura de Cordel, como suporte e os processos de autoria, como fio condutor.

 

O CORDEL COMO POSSIBILIDADE DE PROCESSOS DE AUTORIA

 

      É nos anos iniciais que as crianças começam a se integrar aos processos de leitura e escrita de forma mais complexa. Nesta fase da vida, os pequenos começam a ter a consciência crítica da importância de sua participação ativa na sociedade.

      Sabe-se que o ser humano está em constante formação e convive com os processos de letramento desde muito cedo, e é durante a infância que diversos conceitos e valores são formados e estabelecidos, sendo assim, é neste momento que as crianças sentem-se pertencentes ou não à sociedade e se reconhecem como membros ativos do processo de construção do conhecimento.

      Em meio a esse desenvolvimento constante, observa-se no meio educacional os processos de autoria, quando a criança se reconhece como produtor de registros orais e escritos que expressam seus pensamentos e reflexões acerca de determinado tema, e quando se posiciona perante a sociedade como um produtor ativo e crítico do conhecimento.

Com o domínio dos textos orais e escritos o homem inscreve-se participante do seu grupo social, através dos textos constroem-se as práticas sociais e se torna possível participar significativamente do movimento de construção do conhecimento, ainda que o processo de distribuição do conhecimento e participação social não seja homogêneo. Através da linguagem, expressa de forma oral ou escrita. O individual especifica-se no todo social, podendo-se reconhecer cada unidade como parte de uma diversidade maior (CLEMENTE, 2002, p. 5-6).

 

      A partir das ações presentes em ambientes de escolarização, as crianças desenvolvem seu vocabulário e em consequência seu conhecimento em face do processo de textualização, pois é através da prática que a escrita é aprimorada e o poder de argumentação e significação das crianças é desenvolvido.

      Na Proposta Curricular de Santa Catarina (1998, p.86) consta que “este trabalho fundamental de criar autoria é papel da escola, é papel do professor”, que é um dos principais incentivadores no desenvolvimento e apropriação das crianças pela autoria de sua produção escrita.

      Cabe ao docente elaborar propostas pedagógicas inovadoras que proporcionem sentido e prazer à criança na elaboração dos seus textos, conduzindo a prática pedagógica de forma a enaltecer os pontos fortes, adotando medidas para que as fragilidades sejam superadas ou então minimizadas, ainda, durante o período escolar.

      Neste sentido, tendo os processos de autoria como fio condutor, a Literatura de Cordel como suporte e a interdisciplinaridade como abordagem curricular, vislumbrava-se proporcionar às crianças o contato com a prática da leitura e da escrita, porém não somente como consumidoras de conteúdos ou assimiladoras de conhecimento, mas como autores da sua escrita e produtores de conhecimento.

      A Literatura de Cordel tem origem Europeia e faz parte da literatura popular, chegou ao Brasil no período da colonização junto com os imigrantes europeus e recebeu a influência dos povos indígenas que aqui viviam e dos negros que chegaram ao nosso país no período da escravidão. Cada etnia com as suas especificidades contribuiu para nossa formação cultural, em especial citando a literatura, a prática da oralidade é determinante nesta formação, pois é o fundamento da escrita.

Os indícios da literatura de cordel estão ligados à divulgação de histórias tradicionais, narrativas de velhas épocas, que a memória popular foi conservando e transmitindo; são os chamados romances ou novelas de cavalaria, de amor, de narrativas de guerras ou viagens ou conquistas marítimas. Mas ao mesmo tempo, ou quase ao mesmo tempo, também começaram a aparecer, no mesmo tipo de poesia e de apresentação, a descrição de fatos recentes, de acontecimentos sociais que prendiam a atenção de populares. Antes que o jornal se espalhasse, a literatura de cordel era a fonte de informação (PROENÇA, 1982, p.28).

 

      Segundo Silva (2010, p. 303) “é através da linguagem, em suas inúmeras formas, que os indivíduos interagem entre si”, ou seja, as histórias e saberes de diversas etnias eram transmitidos entre as gerações na forma oral, respeitando e valorizando as pessoas de mais idade como principais detentores do conhecimento. Diante da necessidade de registrar esse aspecto tão importante da cultura popular, surgiu a prática da escrita, aplicada em diversos gêneros textuais diferentes ao longo dos tempos.

      Os Folhetos de Cordel, uma das denominações dessa literatura, que surgiu na península ibérica, na maioria das vezes eram escritos em versos ou eventualmente em prosa e impressos em papéis de baixo custo, em geral papel jornal e receberam este nome em função da forma como eram expostos ao público, em feiras ou locais de grande circulação de pessoas, pendurados em cordões, espalhados no chão ou em cima de caixotes, enquanto o folheteiro ou cordelista declamava, ou ainda, cantava a história aos possíveis compradores instigando-os a levar a diante a história impressa e comercializada a valores populares.

      Evaristo (2000, p.122), afirma que o Cordel é,

Caracterizado pela oralidade e integrante da cultura popular em verso, esse gênero apresenta algumas peculiaridades. Situado entre a oralidade e a escrita, o cordel é uma modalidade com duas vias de chegada ao leitor. Num primeiro momento o poeta “canta” seus versos para um público específico para, num outro momento, atingir seu objetivo maior: vender seus folhetos impressos, onde figuram propriamente seus poemas. Os livretes de cordel são mercadorias e o texto escrito é o produto a ser comercializado.

 

      A Literatura de Cordel é marcada por alguns aspectos comuns. A escrita mais popular é composta por sextilhas, estrofes com seis versos, que apresentam rima no segundo, quarto e sexto verso, bem como também podem ser escritas em sete sílabas ou quadras e raramente poemas de dez versos. Segundo Maxado (1980), os cordéis também podem se apresentar em forma de canções e orações, alguns tipos de poesia mnemônica que utilizam a sátira em sua produção e também o ABC que inicia as estrofes em ordem alfabética, ou ainda as parlendas ou rodas infantis.

      Os folhetos de cordel ainda podem ser classificados em históricos, didáticos e educativos, biográficos, de louvor ou homenagem, de propaganda, de promoção, cômicos ou maliciosos, religiosos ou infantis, de filosofia, de romance e bravura, entre outros, cada qual transmitindo seu recado. Outra característica marcante dos folhetos de cordel refere-se a impressão em xilogravura.

      Articulando esse referencial, à prática pedagógica, a literatura de cordel configurou-se como possibilidade para abordagem interdisciplinar. Nas lições de Bender (2007, apud SILVA et al, p.309),

A literatura, em uma acepção mais ampla, consiste numa forma de reflexão acerca do mundo, expressando uma realidade. Ela não é trabalho individual. Pelo contrário, é produto da sociedade humana, pois reflete e revela de forma não explicita os valores, os costumes e as realizações de uma determinada época. [...] a literatura é percebida como um produto cultural, que por meio de seu instrumento, a palavra, propicia possibilidades de expressão de ideias e sentimentos.

 

      Os textos e linguagens alternativas se apresentam as instituições de ensino e aos docentes como novos recursos de disseminação dos conteúdos curriculares, como por exemplo a literatura popular brasileira, como representação cultural do país e que tem sua produção concretizada pelo povo que a produz e consome como forma de comunicação.

      Como representação cultural, de caráter interdisciplinar, a literatura de cordel desde o seu surgimento em nosso país, já dispunha de caráter didático e educativo, pois estes eram utilizados na alfabetização daqueles que só tinham o folheto como suporte, para conhecer as letras, de acordo com Maxado (1980).

      Nos ensinamentos de Silva et al (2010, p.312), “a interdisciplinaridade consiste na junção de componentes curriculares ou áreas de conhecimento diferentes, tendo como objetivo a construção do conhecimento conjunto”, neste sentido, é possível disseminar os conteúdos escolares integrando-os por intermédio dos folhetos de cordel, desconstruindo assim a ideia de fragmentação do conhecimento facilitando os processos de autoria.

      Considerando o contexto escolar da educação básica, há vários motivos para se explorar o gênero Literatura de Cordel. Entre eles, a produção textual, os temas transversais, a formação do leitor, a leitura de imagens, o desenvolvimento do raciocínio e de atitudes críticas e reflexivas, a inserção da criança em contextos culturais, entre outros.

Abordar a Literatura de Cordel em sala de aula implica refletir entre outras coisas, sobre as concepções e leitura, literatura e ensino postos em prática no cotidiano das escolas. Seria propor uma forma de estimular os alunos a enxergarem o que há por trás dessas produções textuais, não só no que diz respeito ao texto em si, mas com relação às vozes que ele traz consigo (ALVES, 2008, p. 108).

 

 

A DOCÊNCIA COM EXPERIÊNCIA DA ARTICULAÇÃO

 

      A prática pedagógica fundamentada, a partir do projeto de intervenção, atendeu aos princípios da interdisciplinaridade, promovendo a articulação entre os temas do currículo escolar com a prática da leitura e o desenvolvimento dos processos de escrita e autoria das crianças, mediada pela Literatura de Cordel.

Enquanto prática pedagógica, entendemos que agíamos de forma interdisciplinar ao construir coletivamente o saber, ao buscar, juntos, o novo, o risco, a descoberta, o diálogo, a troca, o conhecer, deixando que cada um assumisse a sua própria prática dentro dos próprios limites (FAZENDA, 1999, p. 92).

      Durante o período de docência, espaço da sala de referência da turma, foi alterado conforme as necessidades de executar o planejamento. As crianças decidiram como organizar o ambiente (formação de grupos, disposição do mobiliário e de materiais) para cumprir as atividades que lhes foram propostas.

      Inicialmente, foi apresentada uma sessão de vídeos tratando da Literatura de Cordel, para inspirar e motivar as crianças. Após esta introdução, elas organizaram-se em duplas e iniciaram a autoria de um folheto de cordel que teria continuidade durante a semana. A socialização da produção seria feita ao final do processo de intervenção.

É preciso que estudantes tenham vivenciado interações como autores por meio de tais gêneros antes de realizar as produções. Ninguém escreve [...] sem ter vivenciado esse tipo de interação com os autores, que já os escreveram, ter compreendido o que é esse gênero [...] (PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA, 2014, P.127).

 

      A temática da intervenção foi articulada aos conceitos e aos conteúdos das demais disciplinas da matriz curricular, conforme a solicitação da professora regente. Por exemplo, leitura e escrita, problemas, resolvidos pelas crianças, envolvendo as quatro operações fundamentais nasceram de narrativas em folhetos de cordel, bem como a elaboração de tabelas, montagem e interpretações de gráficos, pesquisas e a socialização de resultados sobre a reciclagem de resíduos sólidos e a sustentabilidade. As crianças, também, experimentaram a técnica da isopogravura, semelhante à xilogravura, utilizando-a na confecção das capas dos folhetos de cordel.

      Com os folhetos finalizados, foi organizada a socialização das atividades projeto. No que diz respeito à forma de exposição, veio à tona o tema das feiras livres. As crianças citaram a Feira do Príncipe, que ocorre em Joinville, como uma possibilidade de exposição dos folhetos escritos por elas. Então, foi montada, pelas crianças e estagiária, na sala de atividades da turma, uma banca de feira utilizando os materiais produzidos durante a aplicação do projeto.

Na escola, a socialização de todos os conhecimentos científicos (saberes formais) e o reconhecimento das experiências cotidianas dos sujeitos e de seus saberes populares e culturais possibilita não apenas a democratização do ensino, mas também um espaço aberto ao debate, à experimentação e à inovação pedagógica (PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA, 2014, p. 88).

 

      As crianças e professores das demais turmas e os colaboradores da área administrativa da instituição apreciaram a exposição e as cantorias de cordel produzidas e socializadas pelos próprios autores, as crianças. As audições foram realizadas de forma intercalada, em função do espaço limitado.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

      O processo de estágio curricular supervisionado é fundamental ao profissional da educação, em formação, pois o insere no campo de atuação oportunizando a vivência da profissão professor de forma efetiva.

      Vivenciar à docência permitiu a reflexão a respeito da educação nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Esta modalidade vai além do ensinar, sua grande atuação é dentro do educar para a vida, para a convivência em sociedade, respeitando as particularidades de cada criança, bem como, o seu tempo, em tempos que não se tem tempo para nada.

      Proporcionar às crianças à possibilidade de se reconhecerem como autores da sua própria obra, foi um processo desafiador, visto que foi durante a intervenção que este sentimento foi consolidado e ocorreu em função da pesquisa, projeto de intervenção e planejamento elaborados e adaptados à realidade dos envolvidas no processo, demonstrando que a prática pedagógica com embasamento teórico é a chave do sucesso no processo educacional, tanto para o docente que apresenta conteúdos com procedência, como para os educandos que conseguem perceber que o ato da construção do conhecimento pode ser uma atividade produzida por eles e não somente transmitida por outra pessoa em momentos pré-estabelecidos para esse fim, em disciplinas fragmentadas, por exemplo.

      Foi essencial ao processo de formação inicial da acadêmica os projetos desenvolvidos durante o estágio curricular supervisionado e a convivência com os colegas de profissão, entre estes os professores da graduação, os docentes do campo de estágio e as colegas de classe, constatando que é no dia-a-dia, em uma escola, que o profissional da educação constitui a sua identidade pessoal e profissional.

      Nas lições de Nóvoa (1995, apud Kimura et al., 2012, p.10),

Esta profissão precisa de se contar: é uma maneira de compreender em toda a sua complexidade humana e científica. É que ser professor obriga a opções constantes, que cruzam a nossa maneira de ser com a nossa maneira de ensinar, e que desvendam na nossa maneira de ser.

 

      O processo de formação muitas vezes é doloroso, mas é também transformador da personalidade humana, que se molda a partir dos exemplos e vivências que a docência e a vida em sociedade proporcionam, diariamente.

 

REFERÊNCIAS

 

ALVES, Roberta Monteiro. Literatura de Cordel: Por que e para que trabalhar em sala de aula. Revista Fórum Identidades, Sergipe, v. 4, p. 103-109, jul.-dez. 2008. Disponível em: <http://200.17.141.110/periodicos/revista_forum_identidades/revistas/ARQ_FORUM_IND_4/SESSAO_L_FORUM_Pg_103_109.pdf>. Acesso em: 22 out. 2015.

 

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio Ambiente e Saúde, temas transversais. Brasília: A Secretária, 2001.

 ______. Senado Federal. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: Lei n. 9.394/96. Brasília: 1996. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb. Acesso em: 25 set. 2015.

 

CLEMENTE, Raquel S. Produção de texto: Autoria na Escola. NET, Blumenau, 2002. Didática, currículo e processos de escolarização. Disponível em: <http://www.portalanpedsul.com.br/admin/uploads/2002/Didatica,_curriculos_e_processos_de_escolarizacao/Trabalho/04_47_35_t429.pdf>. Acesso em: 25 out. 2015.

EVARISTO, Marcela Cristina. O Cordel em sala de aula. In:________. Gênero do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político, divulgação científica. São Paulo: Cortez, 2000. cap.4, p. 119-140.

 FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Praticas interdisciplinares na escola. 6. ed Sao Paulo: Cortez, 1999.

KIMURA, Patrícia R. de Oliveira et al. Caminhos da formação e profissionalização docente no Brasil: desafios e perspectivas na contemporaneidade. Revista Reflexão e Ação. Santa Cruz do Sul, v. 20, n. 1, p. 09-23, jan./jun. 2012.

 MAXADO, Franklin. O que e literatura de cordel?. Rio de Janeiro: Codecri, 1980.

PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e docência. 7. Ed. São Paulo: Cortez, 2012.

 PROENÇA, Ivan Cavalcanti. A ideologia de cordel. 3. ed. Rio de Janeiro: Plurante, 1982.

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      ¹ Universidade da Região de Joinville – UNIVILLE. Acadêmica do Curso de Licenciatura em Pedagogia. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

      ² Universidade da Região de Joinville – UNIVILLE. Professor(a) Orientadora da disciplina de Estágio Curricular Obrigatório Supervisionado. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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