CONHECER PARA INTERVIR: A IMPORTÂNCIA DE OLHAR PARA AS FAMÍLIAS NA PRÁTICA DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL

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CONHECER PARA INTERVIR: A IMPORTÂNCIA DE OLHAR PARA AS FAMÍLIAS NA PRÁTICA DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL1

 

Juliana Topanotti dos Santos de Mello2

 

RESUMO: Este artigo trata de uma pesquisa realizada por estagiárias do curso de Pedagogia – Habilitação Orientação Educacional (UDESC) no Colégio de Aplicação (UFSC), com estudantes do terceiro ano do Ensino Fundamental, educadoras responsáveis por essas turmas e famílias destes/as estudantes. O objetivo principal foi levantar informações sobre as famílias dos/as estudantes e a participação destas no cotidiano escolar, bem como a função destas informações para o trabalho do/a orientador/a educacional. As fontes de pesquisa utilizadas para fundamentar esse trabalho foram: as fichas de matrícula, questionários e entrevistas coletivas e individuais. Os resultados mostraram a importância de conhecer os/as educandos/as e suas famílias para o trabalho da/o orientador/a educacional e para fomentar a participação das famílias no contexto escolar. É fundamental compreender que há níveis de participação das famílias e que mesmo as situações onde a participação é mais escassa ou mais distante são importantes na construção da relação escola-família.

PALAVRAS-CHAVE: Ensino Fundamental I; Orientação Educacional; Relação Escola – Família

 

ABSTRACT: This article consists of a research made by interns from the Pedagogy – Educational Orientation Habilitation - Major at UDESC on Colegio de Aplicacao (UFSC), with students from the third grade of the elementary school, educators responsible for these students and their families. The main goal was to gather information about the student’s families and their participation on their day to day school affairs, as well as the role of these informations on the Educator’s work. The sources used to fundament this research were: Student Registration Documents, questionnaires and collective and individual interviews. The results showed the importance of knowing the students and their families to the Educators mission of creating family participation on school affairs and that. It´s detrimental to comprehend that are different levels of family participation and even where this participation is scarce or distant, it is still important for the construction of the school-family relation.

KEY WORDS: Educational Orientation, Elementary School, School-Family Relation.

 

       Este artigo trata de uma pesquisa realizada por estagiárias do curso de Pedagogia no primeiro semestre de 2015 no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina, com estudantes que cursavam o terceiro ano do Ensino Fundamental, as professoras e a orientadora educacional responsáveis por essas turmas e as famílias destes/as estudantes. Esta pesquisa teve como objetivo principal levantar informações sobre as famílias dos/as estudantes e a participação destas no cotidiano escolar, bem como a função destas informações para o trabalho do/a orientador/a educacional. O primeiro passo para a construção desta pesquisa consistiu em observações sistemáticas, realizadas no decorrer do semestre anterior, a saber o segundo semestre de 2014. Observações estas focadas no cotidiano escolar, principalmente nas atividades da orientadora educacional responsável por estas turmas.

       Foi por meio destas observações, juntamente com as orientações de estágio e discussões entre o grupo de estagiárias, que ganhou relevância o trabalho da orientadora educacional próximo ao cotidiano da sala de aula para: conhecer os/as estudantes, observar os comportamentos individuais e as dinâmicas grupais. Esta proximidade entre a orientadora educacional e o dia-a-dia das turmas mostrou-se fundamental para que a profissional pudesse intervir de forma a contribuir com o processo de superação das dificuldades, sejam elas de ordem pedagógica, social, emocional, dentre outras. Além disso, como esta educadora está junto às turmas ao longo dos anos pode ser uma importante mediação entre as famílias e as professoras/es que mudam a cada ano letivo.

       As leituras realizadas sobre a Orientação Educacional no Brasil, de certa forma, também mostraram a relevância do trabalho do setor de orientação educacional estar próximo e atuante nas demandas da sala de aula. Outro ponto que estava presente na literatura e que auxiliou na composição do projeto de pesquisa foi a relação da participação das famílias no cotidiano escolar. Nos estudos referentes ao histórico da orientação educacional, percebemos que esta, gradualmente, foi deixando de ser um trabalho realizado com os/as estudantes isoladamente (baseado principalmente em diagnósticos psicológicos) para transformar-se em ações mais coletivas, buscando integrar-se ao trabalho pedagógico da escola, envolvendo equipe pedagógica, professoras/es, estudantes e suas famílias (GRINSPUN, 2008).

       A atividade de Orientação Educacional iniciou-se nos Estados Unidos no começo do século XX e no Brasil as primeiras experiências datam a partir da década de 1920 (GRINSPUN, 2006). Era um momento no qual as ciências humanas estavam muito envolvidas com a métrica e as quantificações, almejando consolidarem-se no campo científico. A Orientação Educacional nasce no bojo da Orientação Vocacional e sua maior preocupação era adequar os/as estudantes/as para as funções do mercado de trabalho. Nessa época percebe-se que

(...) A regulamentação da OE a partir de 1942 está significativamente ligada a sua origem na área de Orientação Profissional. O orientador poderia ser considerado como “ajustador”, isto é, cabia a ele ajustar o aluno à escola, à família, e à sociedade, a partir de parâmetros eleitos por essas instituições como sendo os de desempenhos satisfatórios (GRINSPUN, 2006, p. 24-25).

 

       Na década de 1980 a Orientação Educacional brasileira passa por profundas reflexões sobre sua prática e passa a valorizar os conhecimentos sociais e históricos. Cada vez mais faz-se necessário que o/a orientador/a educacional tenha uma posição demarcada acerca de sua prática e as relações estabelecidas com os demais educadores, com as famílias dos/as estudantes e a comunidade onde a escola está situada. Grinspun (2006, p. 20-21) destaca que

A educação é uma prática social, e a Orientação deve ser vista como uma prática que ocorre dentro da escola, mas cujas atividades podem e devem ultrapassar seus muros; uma prática que caminha no sentido da objetividade, da subjetividade e da totalidade da Educação.

 

       As décadas posteriores foram de assimilação dessas modificações das funções da Orientação Educacional, pois a mudança leva tempo para sedimentar. Para Grinspun (2008, p. 26) no final do século XX e início do século XXI o/a orientador educacional passa a ser cada vez mais um/a profissional comprometido/a em relacionar a sua prática “com o novo contexto educacional, social, político e histórico” que estamos presenciando. A função de mediação entre os diversos agentes educacionais, bem como as famílias envolvidas com a escolarização e até mesmo a comunidade na qual a escola está inserida, passa ganhar relevância na prática do/a orientador/a educacional.

       Um ponto é pacífico, para que a Orientação Educacional passe a focar na compreensão dos contextos sociais e históricos dos/as estudantes é crucial, como salienta Milet (1986) que se busque compreender o aluno “de verdade”, ou seja, a criança e o adolescente em sua concretude, com suas possibilidades e dificuldades. Milet (1986, p.46) ainda reforça que para tal é preciso um esforço conjunto de uma “equipe, em que a participação do professor, orientador educacional, supervisor, diretor, merendeira, pais e comunidade em geral” são importantes e necessárias. Cada educador/a constrói diferentes vínculos com as crianças e adolescentes e com isso possuem diferentes conhecimentos sobre esses/as estudantes. Cada integrante da equipe pode contribuir para a compreensão da situação desses/as educandos/as.

       Ao nos aproximarmos da realidade concreta de cada criança, cada adolescente, poderemos compreender com mais facilidade as suas ações e reações dentro da escola, pois “os padrões de comportamento de cada criança são determinados pelo seu modo de vida, e não pela sua vontade” (MILET, 1986, p. 48). Também ficará mais clara a forma de abordar os conteúdos pedagógicos, bem como os diferentes modos de trabalhá-los em sala de aula para que possam abarcar a diversidade existente no grupo de estudantes, tornando-os significativos.

       Neste trabalho a ênfase recaiu na relação entre escola e família, por meio da compreensão das características sociais das famílias e as formas de participação no contexto escolar. Quando as famílias e os/as professores e demais profissionais da escola convergem em suas ações, pensamentos, valores, saberes, etc. há uma repercussão direta na criança/adolescente que o leva a superar as dificuldades em menos tempo e com menos entraves.

       Quando família e escola divergem, em muitas situações criam uma tensão na criança/adolescente, tensão essa que pode dificultar ou mesmo inviabilizar os aprendizados e os entraves existentes não são facilmente ultrapassados. Para que aja essa convergência entre dois grupos não basta que a família esteja fisicamente presente na escola, recebendo orientações e correções, como ressalta Farias Filho (2000, p. 44)

Os professores e os gestores das unidades escolares alimentam, ainda, a ilusão de uma maior participação dos pais na escola, que seria resultado de uma ação formativa da escola em relação à família. Centrados em uma visão escolarizada do problema, eles não põem em dúvida o lugar construído para e pela escola, em relação às demais instituições sociais, dentre elas a família.

       No esforço de refletir sobre como a Orientação Educacional pode aproximar-se da realidade dos/as estudantes/as e suas famílias, este artigo focaliza, a seguir, o perfil dos estudantes 3º. Anos do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação da UFSC, bem como o perfil de suas famílias.

       Além de dados sociais das famílias será destacado de que formas esses familiares participam do contexto escolar. Essas informações também visam embasar o planejamento de estratégias para ampliar a participação das famílias na escola.

       As fontes de pesquisa utilizadas para fundamentar esse trabalho foram: as fichas de matrícula, os questionários que foram encaminhados para as famílias, as informações de uma entrevista coletiva realizada com as crianças do 3º. ano C e entrevistas realizadas com as educadoras responsáveis pelas turmas.

       Primeiramente serão descritas e analisadas algumas características sociais das crianças e de suas famílias e posteriormente a descrição e análise das formas de participação dessas famílias, suas possibilidades e entraves. Por último, serão apresentadas algumas considerações e possíveis alternativas para ampliar o vínculo entre escola e família.

 

PERFIL SÓCIOECONÔMICO DOS/AS ESTUDANTES/AS E DAS FAMÍLIAS DOS TERCEIROS ANOS DO COLÉGIO DE APLICAÇÃO – UFSC

 

       No estágio em Orientação Educacional uma das primeiras ações realizadas foi a busca de informações sobre os estudantes e suas famílias, pois entende-se que o Serviço de Orientação Educacional deve estar constantemente informando-se sobre as características das turmas atendidas, bem como sobre suas famílias.

       Nesse movimento, pesquisamos as fichas de matrículas, que são obrigatoriamente preenchidas e assinadas por um responsável no momento que em se efetua a matrícula da criança ou adolescente em cada ano. Nessas fichas foram encontrados dados referentes ao sexo, idade e residência do/as estudantes dos terceiros anos do Ensino Fundamental.

       No quesito sexo, observa-se que nas turmas A e B há um número maior de meninos, enquanto na turma C há o mesmo número de meninos e meninas. No conjunto de 73 estudantes, das três turmas, prevalece o sexo masculino, como pode ser visto no Quadro 01 abaixo.

 

QUADRO 01 – Sexo dos/as estudantes Turmas 3º Anos do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação – UFSC - 2015.

Sexo

Turma A

Turma B

Turma C

Total

Masculino

15

15

12

42

Feminino

9

10

12

31

Total

24

25

24

73

Fonte: Secretaria Colégio de Aplicação – UFSC

       Em relação à idade o Colégio Aplicação segue a Resolução do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2010) que prescreve como exigência para a matrícula no primeiro ano do Ensino Fundamental que a criança tenha seis anos completos até o dia 31 de março de cada ano. Em cada turma todos tinham oito anos completos em tal data. As exceções são três alunos que estão repetindo o terceiro ano e, portanto, tinham nove anos na data de corte. Uma outra exceção diz respeito a um estudante que entrou com seis anos no 2º. Ano do Ensino Fundamental e que em 31 de março contava com sete anos.

       Ao fazer a pesquisa observamos que o momento da matrícula se configura como uma possibilidade de contato com todas as famílias. Considerando que é um ou uma responsável pela criança que se dirige à escola para garantir a sua vaga no respectivo ano letivo, essa pessoa poderia fornecer importantes informações sobre a família do/a estudante, caso a ficha fosse pensada para recolher dados baseando-se nas diferentes configurações que hoje se apresentam os contextos familiares, e, não apenas tendo como referência aquelas famílias compostas por pai, mãe e filhos/as.

       Esse momento também poderia ser acompanhado pelo profissional da Orientação Educacional que conversando com as famílias poderia ter acesso a dados sobre o cotidiano família, o melhor horário para a família comparecer à escola, entre outras informações. Este momento também poderia ser utilizado para informar às famílias sobre as possibilidades de participação no colégio.

       Nos dados do Quadro 02, referentes à residência das crianças das turmas selecionadas para esse estudo, ficou constatado que elas advêm de diferentes regiões da cidade de Florianópolis e de cidades próximas.

 

       QUADRO 02 – Procedência dos/as estudantes das Turmas 3º Anos do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação – UFSC - 2015.

Região

Turma A

Turma B

Turma C

Região Próxima à UFSC

10

2

3

Região Continental

5

3

2

Região Central de Florianópolis

4

2

5

Região Sul de Florianópolis

3

7

8

Região Norte de Florianópolis

1

6

4

Região Lagoa da Conceição

1

5

2

       Fonte: Secretaria do Colégio de Aplicação – UFSC

       Como podemos visualizar no quadro acima, os/as estudantes que residem perto do Colégio situam-se, em maior número, na Turma A. Nas demais turmas acontece o contrário, as crianças procedem de locais distanciados da escola, razão pela qual, a grande maioria chega para estudar de transporte escolar. Atribui-se que a distância entre a residência e a escola concorre para a baixa presença das famílias na escola. As frequentes faltas de alguns estudantes que precisam realizar atividades fora do seu horário de aula, também, preocupam as professoras e a Orientadora Educacional, ligadas ao fato de que muitas crianças residem longe da escola e usam o transporte escolar.

       Como algumas atividades são realizadas no contra turno (Recuperação de Estudos, Projetos da Psicologia3, etc.), pode-se inferir que algumas famílias não conseguem organizar-se para que os estudantes frequentem essas atividades. Geralmente são aqueles estudantes que necessitam de atenção especializada ou reforço no ensino dos conteúdos que por motivos financeiros ou profissionais das famílias não conseguem estar na escola durante os dois turnos. Sobre esse assunto uma educadora da escola reflete

E até muitas dificuldades que a gente enfrenta hoje como uma escola de período semi-integral está relacionado a esse problema da distância da escola e esse aluno que vem de longe. Os alunos chegam atrasados ou tem dificuldade de vir em outro período porque moram no Rio Vermelho, em São José e aí fica difícil. E nós não temos ainda nesse colégio um ambiente para esse aluno vir e ficar. Por exemplo, nós não temos um refeitório que forneça almoço. Temos os lanches. E não temos um ambiente para o aluno ficar e estudar, fazer suas tarefas, tem apenas uma biblioteca. Não daria para atender todos os alunos que viriam no período contrário. Então muitos alunos ficam por aqui, mas sem um local adequado (Educadora C).

 

       Além de trabalhar para que o Colégio de Aplicação amplie a capacidade de receber os alunos em turno integral, visto que há atividades nos dois turnos e muitos residem longe da escola, faz-se necessário pensar formas de integrar a escola com as comunidades de origem dos/as estudantes. Na perspectiva de agregar esses conhecimentos advindos da comunidade local, conhecimento histórico acerca das localidades da cidade de Florianópolis e das cidades vizinhas, conhecimentos geográficos e outros que se articulam ao currículo prescrito para os terceiros anos. Talvez uma possibilidade seja agrupar por regiões, fazendo visitas, não em todas as localidades, mas em uma de cada região e ampliando os conhecimentos em sala de aula.

       Conhecer onde o/a estudante reside é importante, assim como saber quem é o/a responsável por essa criança para facilitar o contato com a família e para compreender um pouco a dinâmica familiar. Os dados dos questionários que foram respondidos pelas famílias dos/as estudantes demonstra que, majoritariamente a responsável pelo acompanhamento da vida escolar dos filhos e das filhas é a mãe (77,5 %). Duas famílias responderam que os responsáveis são a mãe e o pai conjuntamente (4%) e em uma família os avôs e as avós aparecem também como os/as responsáveis (2%).

       Na entrevista coletiva realizada com a turma do Terceiro Ano C, perguntamos para as crianças quem era o/a responsável por elas na escola. Diferente da informação acima 62% das crianças responderam a mãe e o pai. A mãe foi apontada como responsável por 12,5 %, a mãe e avó por 8, 3% e uma criança (4,2%) respondeu que a avó é responsável por ela na escola.

       Estudos apontam que a mulher ainda é mais presente na escola, embora o homem também atue na participação escolar. Lahire (2004) salienta que são as mães que geralmente executam as tarefas de acompanhamento da vida escolar. São elas que, com mais frequência, verificam as tarefas, explicam o que estão ao seu alcance, pedem que as crianças repitam em voz alta a lição, entre outras formas de conduzir os estudos. O tradicional ideário presente na sociedade, que designa as mães como parceiras do processo escolar, atualmente, tende a ser modificado, em razão da pluralidade de formas de organização familiar, e, dos novos papéis assumidos pela mulher da família contemporânea (CARVALHO, 2003).

       Ampliando o conhecimento sobre as famílias dos/as estudantes dos 3º.s Anos do Ensino Fundamental, buscamos averiguar quais as configurações familiares existentes nesse grupo. Ao observarmos as respostas à pergunta “com quem o/a estudante reside?” constatamos que as crianças possuem diversas composições familiares, sendo que as mais preponderantes são “pai e mãe e irmãos e irmãs” e “pai e mãe”.

       No total dos 49 questionários que recebemos, 16 afirmaram que o/a estudante reside com o pai, a mãe e os irmãos/as e 15 afirmaram que residem com o pai e com a mãe. Embora a família nuclear ainda seja a maioria, muitas famílias apresentam configurações diferentes dessa. Em três situações o/a estudante reside apenas com a mãe e em outros três casos com a mãe, os irmãos ou irmãs e avôs. Outras configurações familiares relatadas foram: pai, mãe e avôs; apenas avôs; mãe, irmãos ou irmãs; mãe, avôs e tio; mãe e avôs; mãe e padrasto, apenas o pai; mãe, pai, tios e primos e mãe e prima.

       Ainda sobre a situação social das famílias das crianças dos Terceiros Anos do Colégio de Aplicação observamos o grau de escolaridade dos pais e das mães4. Como podemos observar no Quadro 03, há uma maior concentração no ensino médio, com cerca de 39% dos pais e 40% das mães tendo completado esse nível de ensino. O segundo destaque é o ensino superior, uma vez que quase 14% dos pais e 25% das mães possuem essa formação.

       QUADRO 03- Escolaridade dos pais e das mães dos/as estudantes dos Terceiros anos do Ensino Fundamental do Colégio de Aplicação – UFSC – 2015.

Escolaridade

Pai

      Turmas

A       B       C

Mãe

      Turmas

A        B        C

Total

 

Pai        Mãe

Ensino Fundamental Incompleto

1        1        -

1         -        -

2             1

Ensino Fundamental Completo

2        6        2

2         2         2

10             6

Ensino Médio Incompleto

2        1        3

1         2         2

6             5

Ensino Médio Completo

9        10      9

6         13        10

28             29

Ensino Superior Incompleto

3        2        1

2         2         2

6             6

Ensino Superior Completo

2        4        4

8         4         6

10             18

Não informado

5        -        6

4         2         2

11             8

Total

 

 

73            73

       Fonte: Secretaria do Colégio de Aplicação – UFSC

       

       Ao fazer o cruzamento escolaridade com ocupação profissional, contata-se que o Colégio de Aplicação é uma escola pública que atende majoritariamente, no Ensino Fundamental, filhos e filhas de trabalhadores/as originários/as das camadas sociais média e baixa. As profissões desempenhadas pelos pais e pelas mães com a escolaridade: ensino fundamental incompleto e completo e ensino médio incompleto e completo são em ocupações não qualificadas. As exceções são aqueles pais e aquelas mães que fizeram um ensino médio técnico e desta forma são profissionais como: Técnico em Desenho, Técnico em Enfermagem e Técnico em Saúde Bucal. Um dado que chama a atenção é o número de mães atuantes no magistério. Do total de 73 pesquisadas, 15% são professoras.

       Esses dados apresentados na tentativa de retratar o perfil das turmas e de suas famílias remetem para a importância de se conhecer as circunstâncias e as formas de como a escola e os familiares das crianças dos Terceiros Anos se relacionam terceiro ano do Ensino Médio.

 

RELAÇÃO ESCOLA-FAMÍLIA: COMO OS FAMILIARES DOS/AS ESTUDANTES SE RELACIONAM COM A ESCOLA

 

       Buscando compreender como acontece a relação escola-família no Colégio de Aplicação e tendo como recorte para o estudo as turmas dos Terceiros Anos do Ensino Fundamental, analisaremos as respostas contidas nos questionários respondidos pelos/as responsáveis dos/as estudantes participantes desse estágio/pesquisa, com ênfase nas perguntas que visavam nos informar como essas famílias participam da vida escolar de seus filhos e filhas.

       A primeira questão analisada é: qual a importância da participação das famílias no contexto escolar? Muitas respostas trouxeram a ideia de que essa participação é fundamental e de suma importância para o acompanhamento da vida escolar, bem como para saber o que está acontecendo na escola. Os/as pesquisados/as evidenciaram que a proximidade dos familiares da vida escolar é uma forma de dar suporte ao/ a educando/a em sua caminhada. Para Singly (2007) na constituição da família moderna a criança é posta num lugar soberano e desta forma há um interesse dos adultos pelos acontecimentos de sua vida, dentre eles o desempenho escolar. Nessa direção, Perez (2009) acrescenta que:

       (...) dependendo do incentivo da escola e da família nas atividades escolares, os alunos modificam o desempenho, de forma positiva quando há um intenso acompanhamento das duas instituições, ou de modo insatisfatório quando o aluno não é incentivado a melhorar seu rendimento.

 

Também para as crianças que participaram da entrevista coletiva a presença dos familiares na escola é importante para que o acompanhamento dos estudos, para que vejam os trabalhos desenvolvidos por eles, bem como para que saibam o que acontece na escola e possam dar orientação. A presença dos familiares na instituição escolar deixa-os felizes. Sobre a participação das famílias, uma das educadoras entrevistadas, ressalta

(...) porque tu vês o quanto é significativo pra gente quando a gente vê que as crianças veem que o pai participa. Dá pra ver no olhinho deles quando o pai está ali, a mãe está ali, o quanto eles ficam felizes quando vem na Reunião de Pais ou quando vêm ver um trabalhinho deles, eles já mostram pros pais, é bem legal. As crianças se sentem valorizadas, a gente vê no olhinho deles que eles gostam de ver os seus pais aqui e isso é bom pra gente (Educadora B).

        Os familiares também foram questionados sobre o que facilita e o que dificulta a participação na escola. Os familiares são motivados pelo interesse em acompanhar a vida escolar dos filhos e das filhas, saber de seus aprendizados e comportamentos. Também anotaram que um outro motivador é dar suporte adequado ao aprendizado e a boa inclusão dos filhos e das filhas. Os familiares demonstram que a preocupação para que a criança tenha um percurso escolar sem maiores dificuldades é o que faz com que as famílias procurem se aproximar da escola. Entre os fatores mais citados que dificultam essa aproximação estão: os horários dos eventos da escola que coincidem com os horários de trabalhos, a rotina atribulada e a distância entre a residência e a escola.

       Pensando em como a família pode contribuir com a escola, os familiares relataram principalmente participar das atividades que a escola oferece, sendo que dentre essas as reuniões foram as mais citadas. Outras atividades registradas foram eventos e festividades. Segundo as famílias, elas também podem contribuir incentivando a leitura, acompanhando os deveres para casa, procurando as professoras para conversar quando surge algum problema. Grande parte vê sua participação de forma passiva, atendendo aos chamados da escola. Alguns sugeriram uma participação mais ativa, propondo sugestões de temas que consideram relevantes, para serem adaptados aos conteúdos curriculares e às práticas pedagógicas.

       Quando a questão é pensar sobre a influência da escola na família, todas/os que responderam a essa pergunta consideraram que a escola influencia sim. Citam principalmente o tempo que as crianças passam na escola e os aprendizados que desdobram dessa permanência, sobretudo o fato de que elas não teriam acesso a esse conhecimento em casa.

       Os familiares estão presentes na escola, com mais frequência nas reuniões de pais, encontros com as professoras e festas. Geralmente quando a escola solicita a presença. Do total de 49 famílias que responderam a pesquisa cerca de 8% ou quatro famílias responderam que, no momento, não estão muito presentes, em função do tempo, da rotina de trabalho e da distância entre a escola e sua residência. As crianças, quando consultadas por ocasião da entrevista coletiva, relataram que as atividades que suas famílias mais participam são reuniões, conversas com as professoras e festas. Observamos que as famílias não estão ocupando espaços importantes de participação, em instâncias como: as Comissões (formadas para resolverem assuntos de interesse da escola), Associação de Pais e Professores e Colegiado Escolar. Acerca do Colegiado Escolar os dados dos questionários evidenciam um desconhecimento por parte dos familiares.

       As Reuniões de Pais demonstram ser um local privilegiado de participação. Visualiza-se como um momento no qual, docentes e a equipe pedagógica podem informar as famílias sobre as instâncias de participação e os espaços onde elas podem sugerir e decidir. Nessas reuniões também podem ser encaminhadas discussões sobre os pontos que facilitam ou dificultam a aproximação das famílias, bem como onde possam buscar alternativas que amplie a participação da família na escola.

       Finalizando é possível perceber que, mesmo estando ausentes do espaço escolar, as famílias buscam acompanhar o que está acontecendo na escola. Todas as famílias que responderam os questionários acompanham as crianças nos deveres de casa e a maioria verifica agenda, quando não todos os dias ao menos semanalmente. É importante aqui destacar que as crianças, na entrevista coletiva, relataram que observam esse acompanhamento das famílias tanto no auxílio dos deveres, quanto ao acompanhamento das informações pela agenda. Para Coridian (2003) esse acompanhamento sistemático está relacionado com a preocupação de que seus filhos e suas filhas tenham uma boa colocação no mundo do trabalho. Com as taxas de desemprego e as dificuldades encontradas pela juventude no campo profissional as famílias tem procurado interessar-se pelo que acontece na escola.

Ao voltar o olhar para essas crianças e suas famílias o/a orientador/a poderá dar um primeiro passo na construção de um vínculo maior de interação, no sentido de obter mais elementos para pensar as dificuldades de aprendizagem, os percalços na socialização, os conteúdos curriculares mais significativos, bem como, formas de ação mais adequadas à produção dos conhecimentos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

       A prática da Orientação Educacional passou por mudanças significativas ao longo do desenvolvimento de sua função. Se antes o fazer deste/a profissional baseava-se em análises individuais e com foco nos aspectos psicológicos, na contemporaneidade as ações do/a orientador/a voltam-se para o trabalho pedagógico e de forma coletiva, integrando os diversos grupos presentes na escola e em busca de alternativas para viabilizar um processo de aprendizagem significativo. Conhecer os/as educandos/as e suas famílias é um dos pilares desse processo. Trabalhar para fomentar a participação das famílias na escola é outro.

       Um ponto importante para possibilitar uma maior aproximação entre família e escola é compreender que há níveis de participação das famílias na escola. Embora nem sempre a família participe do cotidiano escolar da forma como a escola espera que ela participe. Com isso algumas formas de participação das famílias ficam invisibilizadas. A pesquisa mostrou que em sua grande maioria, as famílias acompanham a vida escolar de seus filhos e filhas permanecendo, muitas vezes fora dos muros da escola. A distância entre residência e escola, os horários de trabalho, a rotina atribulada e a desinformação sobre as instâncias participativas da escola não permitem que muitas famílias estejam sempre presentes no espaço escolar. No entanto, quando são chamados, na maioria das vezes, comparecem e levam em consideração as posições da escola. Mas no dia-a-dia cuidam e acompanham os/as educandos/as das suas residências por meio dos deveres e da agenda.

       Frente a essas dificuldades o/a profissional de Orientação Educacional pode investir no contato, aproveitando os momentos que as famílias estão presentes na escola para construir proximidades e oportunidades de qualificar suas presenças. O momento da matrícula, as reuniões de pais e os atendimentos para os quais as famílias são chamadas são possibilidades de escuta, troca de informações, de valorização de experiências, tanto escolares quanto familiares e estabelecimento de compromissos de ambas as partes, visando o/a educando/a maior aproveitamento do tempo de permanência na escola, que é o local onde está uma das oportunidades dele/a ampliar os seus conhecimentos.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Resolução n.1. 14 jan. 2010. Define Diretrizes Operacionais para a implantação do Ensino Fundamental de 9 (nove) anos. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&id=14906&Itemid=866>. Acesso em: 15 de jun. 2015.

CARVALHO, Maria do Carmo Brant de. (Org.) A família contemporânea em debate. 6. ed. São Paulo: EDUC/Cortez, 2003.

CORIDIAN, Charles. Os usuários de produtos paraescolares: pais ou filhos? Educação e Sociedade. Campinas, vol.24, n.84, p. 945-953, set. 2003.

FARIA FILHO, Luciano Mendes de. Para entender a relação escola-família: uma contribuição da História da Educação. São Paulo em Perspectiva. 2000. vol.14, n.2, pp. 44-50.

GRINSPUN, Mírian Paula Sabrosa Zippin. A Orientação educacional: uma perspectiva contextualizada. In: GRINSPUN, Mírian Paula Sabrosa Zippin. (Org) A Prática dos Orientadores Educacionais. 6ª. Ed. Aumentada. São Paulo: Cortez, 2008.

______________. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. 3 ed ampl. São Paulo: Cortez, 2006.

LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática, 2004.

MILET, Rosa Maria Lepak. Uma orientação educacional que ultrapassa os muros da escola. IN: ALVES, Nilda; GARCIA, Regina Leite. (Org). O fazer e o pensar dos supervisores e orientadores educacionais. Coleção Educar. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

PEREZ, Marcia Cristina Argenti. Família e escola na contemporaneidade: fenômeno social. Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação. Araraquara, v.4, n.3, 2009. Disponível In: seer.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/2763. Acesso em 15 jun. 2015

SINGLY, François de. Sociologia da Família Contemporânea. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

 

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2 Doutoranda em Educação na Universidade do Estado de Santa Catarina. Mestra em Educação pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Psicóloga e Orientadora Educacional.

1Este artigo tem como base o artigo individual da autora que é integrante do relatório de estágio apresentado em 2015/1, no curso de Pedagogia - Habilitação Orientação Educacional. Este estágio foi realizado em grupo composto pela autora, Luiza da Silveira e Júlia Atrib e foi orientado pela Professora Zenir Maria Koch.

3 No período de realização deste estágio o setor de Psicologia Educacional do Colégio de Aplicação da UFSC oferecia para algumas crianças grupos de trabalho que visavam explorar possibilidades de superação de dificuldades emocionais ou de relacionamento social. As crianças eram selecionadas por meio da observação das/os professoras/es e dos profissionais do setor de Psicologia.

4 Menciona-se pai e mãe em virtude desses dados constarem nas fichas de matrículas e é necessário fazer uma ressalva, pois algumas crianças não moram com esses familiares e nas fichas não há espaço para colocação dos dados desses outros responsáveis.