Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

A INVESTIGAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA INICIAL: A ANAMNESE COMO BASE DO DIAGNÓSTICO EFICAZ

A INVESTIGAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA INICIAL: A ANAMNESE COMO BASE DO DIAGNÓSTICO EFICAZ

 

Gilmar de Oliveira1

 

RESUMO- O trabalho da Psicopedagogia consiste em, dentre outras atribuições, diagnosticar e tratar alunos com dificuldades e transtornos de aprendizagem, auxiliando o aluno, família e escola a identificar e buscar sanar as defasagens que comprometem a base cognitiva do aluno.  A psicopedagogia tem grande influência no desenvolvimento do paciente que apresenta alterações ou limitações na sua aprendizagem. Utilizando-se de atividades lúdicas e práticas operacionais que estimulam o conhecimento e a epistemologia, a Psicopedagogia procura identificar e valorizar o conhecimento prévio da criança em todos os aspectos: pedagógico, cognitivo, afetivo e social. Também valoriza a reflexão em uma metodologia didático-pedagógica que supra as necessidades e particularidades do indivíduo, associadas e agregadas ao trabalho conjunto com a escola e demais profissionais da Educação e Saúde. A partir da primeira sessão com os responsáveis pelo paciente e das informações colhidas na escola e nas sessões iniciais é que se consegue a gama de informações necessárias para a construção das hipóteses diagnósticas. E estas hipóteses construirão o início de um trabalho que culmina no diagnóstico psicopedagógico e nas intervenções necessárias para a recuperação dos déficits de aprendizagem apresentados pelo paciente e trazidos na queixa que motivou a procura pelo trabalho psicopedagógico. A descrição e fundamentação da práxis das sessões iniciais (anamnese e EOCA – Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem) compõem o presente trabalho, mostrando a importância de seu desenvolvimento criterioso para a eficácia do acompanhamento psicopedagógico que resulta na recuperação cognitiva do paciente com dificuldades ou distúrbios de aprendizagem.

 PALAVRAS- CHAVE: Dificuldade de Aprendizagem– distúrbio de aprendizagem – EOCA - Diagnóstico – Psicopedagogia.

 

ABSTRACT- The work of Psychopedagogy consists of, among other attributions, to diagnose and treat students with difficulties and learning disorders, helping the student, family and school to identify and seek to remedy the gaps that compromise the student's cognitive base. Psychopedagogy has a great influence on the development of the patient who presents alterations or limitations in their learning. Using play activities and operational practices that stimulate knowledge and epistemology, Psychopedagogy seeks to identify and value the child's prior knowledge in all aspects: pedagogical, cognitive, affective and social. It also emphasizes reflection on a didactic-pedagogical methodology that supposes the needs and particularities of the individual, associated and added to the joint work with the school and other professionals of Education and Health. From the first session with those responsible for the patient and the information collected at school and in the initial sessions, the range of information needed to construct the diagnostic hypotheses is achieved. And these hypotheses will build the beginning of a work that culminates in the psychopedagogical diagnosis and the interventions necessary for the recovery of the learning deficits presented by the patient and brought in the complaint that motivated the search for the psychopedagogical work. The description and foundation of the praxis of the initial sessions (anamnesis and EOCA - Operational Interview Centered in Learning) make up the present work, showing the importance of its careful development for the effectiveness of the psychopedagogical accompaniment that results in the cognitive recovery of the patient with difficulties or disturbances of learning.

 KEY WORDS: Learning Disability - learning disorder - EOCA - Diagnosis - Psychopedagogy.

 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

       A função do psicopedagogo, dentro da escola ou no consultório, é procurar identificar e diagnosticar as possíveis causas da limitação na aprendizagem apresentada por alguns alunos e sua relação coma aprendizagem (Bastos, 2015, p.21).

       O psicopedagogo “vai investir em uma intervenção bem direcionada, para desencadear o potencial de aprendizagem que, muitas vezes, está aprisionado” (Rubinstein, 2003).  De acordo com Bastos, “um dos pontos fundamentais para a Psicopedagogia é a relação do sujeito com a aprendizagem. Como ele aprendeu ou não aprende é uma questão crucial para nós” (2015, 21). Sob este prisma, Sara Paín (1985) afirma que o aspecto básico para a práxis psicopedagógica é “devolver à criança o anseio por saber, pois em algum lugar ela o perdeu” (p.32).

Assim, quando se fala em despertar o desejo de saber do paciente, Bastos refere-se à retirar obstáculos que impedem sua aprendizagem, citadas por Visca (e demais autores citados no presente trabalho) como limitações da aprendizagem. Tais limitações são definidas, pela Psicopedagogia e pelas Neurociências, de Transtornos e Dificuldades de Aprendizagem.  Para Ramalho (2015) um distúrbio ou um transtorno é uma “alteração na aquisição no desenvolvimento das habilidades necessárias para a execução das atividades”. (p.15)

        Para Vitor da Fonseca (1995), o termo apresenta definições diferentes:

...distúrbio de aprendizagem está relacionado a um grupo de dificuldades específicas e pontuais, caracterizadas pela presença de uma disfunção neurológica. Já a dificuldade de aprendizagem é um termo mais global e abrangente com causas relacionadas ao sujeito que aprende, aos conteúdos pedagógicos, ao professor, aos métodos de ensino, ao ambiente físico e social da escola. (p.35)

 

       Para Bermero e Llera (1998, p.35) apud Bossa (2001) o termo Dificuldades de Aprendizagem é definido como

Um termo geral que se fere a um grupo heterogêneo de transtorno que se manifestam por dificuldades significativas na sua aquisição, fala, leitura, escrita e raciocínio ou habilidades matemáticas. Estes transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se que sejam devido à disfunção do Sistema Nervoso Central e podem ocorrer ao longo do ciclo de vida. Podem existir junto com as dificuldades de aprendizagem problemas nas condutas de auto-regulação, percepção social e interação social, mas não constituem por si mesmas uma dificuldade de aprendizagem (p107).

        Conforme descreve Bossa (2001), se admite que as dificuldades de aprendizagem possam ocorrer junto com deficiências, como auditiva ou visual, desordens emocionais, condições sociais e ambientais desfavoráveis, mas não se considera que estas possam ser resultado de tais condições extrínsecas ao sujeito. Bossa afirma que a diferença entre as dificuldades de aprendizagem e os termos transtornos (ou distúrbios) e problemas caracteriza-se pelo fato de que as dificuldades relacionadas ao ambiente ou decorrente de processos pedagógicos, quando sanadas, permitem que o aluno retome o curso normal de sua aprendizagem.

       As dificuldades de aprendizagem se identificadas e tratadas de forma correta ajudam a evitar as discriminações, o assédio moral, rótulos e chacotas de colegas, da escola e da própria família.

       Diante do exposto, afirma Santos (2012):

Tendo em vista que muitas outras discussões e pesquisas científicas merecem ser realizadas em torno dessa temática, acreditamos ser fundamental continuar lutando de forma militante por um ensino de qualidade na esperança de que, no futuro, os alunos de hoje, de amanhã e de todos os tempos possam ver a escola como um verdadeiro laboratório de múltiplas, ricas e significativas aprendizagens, onde não se tenha mais lugar e espaço para preconceitos, discriminações e estereótipos de qualquer natureza tampouco para dificuldades de aprendizagem (p. p. 176,177).

 

       Para o trabalho de identificação de dificuldades ou distúrbios de aprendizagem, Weiss (1999) afirma que “não se pretende classificar o paciente em determinadas categorias nosológicas, mas sim obter uma compreensão global de sua forma de aprender e dos desvios que estão ocorrendo neste processo” (p.28). Ainda conforme Weiss, nesta prática na busca por um diagnóstico, deve-se recorrer a saberes teóricos e práticos, numa relação de alimentação mútua entre a teoria e a prática.

       Assim, se inicia um processo de construção de uma história de vida e de condições de aprendizagem, que fundamenta o início do trabalho do psicopedagogo, na busca de hipóteses diagnósticas daquilo que é chamado sintoma, que, para Weiss (1999) que consiste “em o que é percebido pelo próprio indivíduo ou pelos outros”, no qual o “sintoma está sempre dizendo algo sobre o paciente (...), é o que emerge da personalidade em interação com o sistema social em que está inserido o sujeito” (p.28).

       Para Weiss, esta construção se fundamenta em dois eixos: o vertical, histórico, através de entrevistas com a família, escola, outros profissionais, através de registros, laudos, relatórios e documentos; e o horizontal, baseado no presente, que permite perceber o sintoma e o momento do paciente com seu sintoma. Quando a situação assim exige o profissional precisa procurar estratégias e metodologias diferenciadas e eficazes e, algumas vezes, procurar e realizar encaminhamentos para outros profissionais (Bastos, 2015, Weiss, 1999, Rubinstein, 2003)

       Conforme Chamat (2008):

O psicopedagogo, no papel de agente corretor, deve priorizar o “conhecimento” do paciente, mesmo que para tal, tenha de realizar encaminhamentos a outros profissionais. Seu papel é de focalizar a problemática dentro do contexto causa/ sintoma e atuar sobre eles... após realizar todo o diagnóstico psicopedagógico, o psicopedagogo estará de posse do quadro “patológico” sobre o caso em estudo, bem como de um sistema de hipóteses que lhe permita direcionar o tratamento psicopedagógico (p. 26, 27).

 

       Dentro da Epistemologia Convergente, Visca (2010) cita a necessidade do enquadramento, uma abordagem que trata das bases iniciais do atendimento do paciente:

faz-se um recorte conceitual que permite reconhecer a realidade em suas transformações dentro do que se pode denominar de situação controlada. Trata-se de uma questão psicopedagógica, seja do atendimento de um sujeito individual ou de um sujeito coletivo ou grupal, e refiro-me a uma situação de aprendizagem controlada por meio do método clínico. (p23)

       Ainda de acordo com Visca (2010), para a realização de um atendimento psicopedagógico, devem ser consideradas algumas situações, que o autor chama de “constantes”: o tempo da sessão, qual o lugar a se realizar, a quantidade de sessões por semana, a duração de cada sessão, o material da caixa de trabalho, interrupções (por feriados, faltas) e o pagamento ao profissional.

       Cada pessoa que busca auxílio na psicopedagogia vem com diferentes vivências, experiências únicas. Essas experiências pessoais são construídas ao longo de sua vida, de forma gradativa e variam conforme o lugar e o meio onde nascem e se desenvolvem, a dinâmica familiar, as pessoas que passam por sua vida, os lugares que frequentam. Ao iniciar seu trabalho o psicopedagogo faz a entrevista, quando recebe a queixa, ou seja, o motivo que levou a pessoa a buscar o atendimento.

       Esta situação inicial é trazida pelos pais ou responsáveis da criança (Scicchitano e Castanho, 2013). Geralmente o encaminhamento parte da escola ou de outro profissional, como médico, psicólogo, fonoaudiólogo ou outro ainda. Esta queixa é o ponto de partida para avaliar o problema e procurar sua causa.

       O profissional precisa, conforme Weiss (1999) e Bastos (2015), também encontrado em Sampaio (2010), “ter olhos e ouvidos aguçados, prestando atenção aos detalhes, como postura da pessoa entrevistada, entonação de voz, olhar, histórico de saúde, de convivência social, de convívio com a aprendizagem, e de estimulação, vínculos afetivos, pois todos estes aspectos são fundamentais para a construção do diagnóstico”.

       Relacionando a queixa, pontua Weiss (1999):

A queixa não é apenas uma frase falada no primeiro contato, ela precisa ser escutada ao longo de diferentes sessões diagnósticas, sendo fundamental refletir-se sobre o seu significado. Algumas vezes, a queixa da escola apontada como manifesto do diagnóstico é repetida pelos pais, sem qualquer elaboração posterior. Ao longo do processo ela vai se transformando e se revelando de menor importância, ao mesmo tempo em que vai surgindo um motivo latente que realmente mobilizou os pais para a consulta. Esse motivo pode crescer em importância, exigindo mais urgência no atendimento, ficando a necessidade escolar em segundo plano (p.45).

 

       A queixa inicial é apenas um dos indicativos que precisam ser analisados. Muitos outros fatores poderão surgir no decorrer do processo. Com a situação apresentada, inicia-se a entrevista com os pais (ou responsáveis) conforme cita Bastos (2015) e outros autores juntam esta entrevista com a anamnese, conforme Ramalho (2015) que consiste, numa entrevista inicial estruturada com onde constam informações que podem ser importantes e decisivas para se chegar a um diagnóstico.

       Esta entrevista inicial, que traça a história do sujeito é chamada de ANAMNESE (Do grego Mnese = memória e Anan = retrocesso, que retrocede, conforme Google), que consiste, conforme Ramalho (2015) “numa entrevista realizada com os pais ou aqueles responsáveis pelo futuro do cliente. Ela tem por objetivo de trazer a história de vida deste e, por meio dela, podemos colher dados importantes...” (p.40). E, conforme Paín (1992, 42) apud Sampaio (2010), a história vital permite ao psicopedagogo “detectar o grau de individualização que a criança tem com sua mãe e a conservação de sua história nela” (p.144).

       Todos esses fatos precisam ser levados em conta no momento da anamnese, antes de iniciar a avaliação e o diagnóstico. Cada uma dessas experiências, tanto positivas quanto negativas, contribui para a construção do conhecimento individual do paciente e de suas relações.

       Neste questionário constam informações desde a época de concepção (se foi uma gravidez desejada, a aceitação pela família), gravidez e pré-natal, o tipo de parto e como ocorreu, as primeiras horas e primeiros dias do bebê, seu desenvolvimento durante a infância. Toda a história de vida é investigada com objetivo de buscar informações relevantes.

       Em referência à anamnese, Sampaio(2014) afirma que:

É uma entrevista realizada com os pais ou responsáveis do entrevistado e tem como objetivo resgatar a história de vida do sujeito e colher dados importantes que possam esclarecer fatos observados durante o diagnóstico, bem como saber que oportunidades este sujeito vivenciou como estímulo a novas aprendizagens. A anamnese é uma das peças fundamentais deste quebra-cabeça que é o diagnóstico, pois, por meio dela, nos serão reveladas informações do passado e do presente do sujeito juntamente com as variáveis existentes em seu meio. Observaremos a visão da família sobre a criança, as suas expectativas desde o nascimento, a afetividade que circula neste ambiente familiar, as críticas, os preconceitos e tudo aquilo que é depositado sobre o sujeito (p. 143).

 

       Sampaio (2010), Weiss (1999) e Rubinstein (2003) dentre outros autores, relatam que a anamnese deve iniciar questionando os pais sobre a concepção, do planejamento da gravidez, para poder, por exemplo, entender as questões da aceitação, vínculos, expectativas e cuidados na gravidez. Também na anamnese se questionam sobre medicações que a mãe fazia uso, se fez uso de substâncias que causam dependência química, graus de parentesco e consangüinidade, pois para Weiss apud Ramalho (2015), a “história do paciente tem início no momento da concepção” (p.41).

       Também são investigadas, conforme Ramalho (2015), toda a situação do parto, como o tipo, se houve dilatação, se houve problema com o cordão umbilical, uso de fórceps, adiantamento ou demora no parto, cesariana ou parto normal, nascimento e o número de Apgar, pois, cita Paín (1992, p.43) tais situações “costumam ser a causa de destruição de células nervosas que não se reproduzem e também posteriores transtornos, especialmente no nível de adequação percepto-motriz”.

       Ainda na anamnese são importantes informações, como: como a criança aprendeu a realizar determinadas tarefas, como firmar a cabeça, engatinhar, andar, falar, andar de bicicleta, controlar as necessidades fisiológicas, falar, etc. Na questão da saúde, são investigadas doenças, internações, sequelas ou algum tipo de acompanhamento ou tratamento ao qual a criança foi submetida, medicações que fez uso.

       De acordo com Weiss (1999), a anamnese deve tratar da história de vida da família nuclear, fatos marcantes com pais e irmãos, o contexto social, econômico, cultural, a decorrência de relações afetivas, a estimulação com jogos ligados à aprendizagem, raciocínio, as manifestações de dança, música, arte, brinquedos que trabalhem a memória, a atenção, a criatividade, a linguagem, antecipação de situações, e o conhecimento do próprio corpo. Também deve ser observado os níveis de interação com outras crianças, da família, das proximidades de casa, o contato com a escola formal desde a Educação Infantil, as pessoas que cuidaram do paciente, seja em instituições ou que trabalhavam na casa e quais as estimulações que o paciente teve neste processo de desenvolvimento.

       Isso porque, para Paín (1992) e Fonseca (1995) e outros autores, a estimulação é crucial para o desenvolvimento da prontidão para aprendizagem formal e da formação de estruturas cerebrais que são ligadas à aprendizagem, cognição, raciocínio e o desenvolvimento normal dos aspectos mentais e emocionais da criança, como também se afirma em Bee (2009).

Weiss afirma que deve ser explorada, na anamnese a questão da entrada da criança no processo de alfabetização

       Também interessa avaliar como se processou a avaliação, qual a metodologia, a exigência da escola, a exigência dos pais nesse momento, qual foi a reação do paciente. (...) Antes de patologizar, é necessário conhecer a verdadeira história escolar, discriminar o que é falha de ensino e falta de oportunidade escolar das dificuldades reais do processo de aprendizagem. Em outros termos, tentar distinguir efeitos patologizantes da escola de problemática nascida da dinâmica familiar. (1999, p.69)

       Para Bastos, a função da anamnese:

Vem resgatar a história de vida da criança ou do adolescente por meio da entrevista de anamnese, que tem um roteiro próprio de questões, desde aquelas relativas à concepção, à evolução, até o momento atual em que se encontra o sujeito. (2015, p.26)

 

       Bastos (2015) afirma que para esta entrevista de anamnese o profissional psicopedagogo precisa dirigir mais as questões, se informar daquilo que mais julgar importante, pois tudo que falarem poderá trazer importantes informações para o processo. Para Ramalho (2015), cada informação lembrada poderá ser fundamental durante o processo.

       Neste contexto, Weiss (1999) afirma que considera a anamnese “como um dos pontos cruciais para um bom diagnóstico. (...) É a anamnese que favorece a compreensão da história da família do paciente, os preconceitos, normas, expectativas, circulação dos afetos e do conhecimento” (p. 61). Muitas vezes é necessário, ainda conforme Weiss, reservar mais de uma sessão e pode-se chamar avós ou outros parentes que tenham responsabilidade sobre o paciente e saibam algo sobre a queixa apresentada, além de que a anamnese pode ser feita em mais de uma sessão se for necessário e, quando pais separados, é opcional que estejam juntos, com ou sem os novos cônjuges.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

       A anamnese é o instrumento que possibilita a identificação de todas as características e dinâmicas que fundamentam o histórico clínico da aprendizagem, do desenvolvimento psicoemocional, da interação social e da maturação cognitiva inerente à espécie humana.

       É na anamnese que se faz o levantamento das questões familiares que interferem nos processos afetivos que estruturam a personalidade do sujeito, questões estas onde se identificam os vínculos positivos, modelos sociais e familiares que favorecem ou não a interação com o meio e que possuem ligação direta com a aprendizagem.

       Através dessa entrevista - que pode ter um roteiro fixo ou, dependendo da habilidade do psicopedagogo (e de sua linha de atuação), ser mais livre e espontânea, deixando os pais contando a história de vida do paciente - é que se permite analisar, também, aspectos orgânicos, comentados a seguir. Por exemplo, se houve alguma infecção na mãe durante a gravidez (como uma doença por vírus ou bactérias) sabe-se de antemão que a incidência de sequelas neurológicas deixadas por doenças infecciosas na criança em gestação (sífilis, sarampo, caxumba, varicela, rubéola, dentre outras) é alta e pode-se relacionar tais agentes como a etiologia dos transtornos da aprendizagem a serem investigados.

       Durante a anamnese o levantamento de informações sobre a história gestacional ou puerperal possibilita elencar características que favorecem a construção de hipóteses diagnósticas, também baseadas em eventuais dificuldades no parto - que possam vir a causar, dentre outras consequências, a diminuição do fluxo de oxigênio no cérebro do neonato, chamada de hipóxia - que pode vir a ser causa de déficits de atenção, como apontam alguns estudos, ou a anóxia, que se caracteriza como a supressão de oxigênio no cérebro do bebê durante o parto, podendo provocar a paralisia cerebral.

       A anóxia, em geral, deixa sequelas mais evidentes, pois a paralisia cerebral se caracteriza por deficiência motora, intelectual ou múltipla. Mas a hipóxia, responsável pela diminuição do reflexo de Apgar, tem importante relação com muitas dificuldades de aprendizagem, segundo inúmeros estudos, citados por autores como Vitor da Fonseca (1995) e Daniel Marcelli (2005). Portanto, parte da elucidação e formação da diretriz diagnóstica na Psicopedagogia Clínica pode ser resultado de uma anamnese bem estruturada que mobilize os pais ou responsáveis pelo paciente a descreverem todas as situações que eventualmente comprometem a aprendizagem e a interação da pessoa com o mundo.

       As questões alimentares, desde a amamentação ou a ausência desta (que tem implicações não só na imunidade, no aporte calórico e protéico, mas na vivência emocional mãe-bebê), o acesso às vacinas, o engatinhar, o andar, o balbucio, as tonicidade de cabeça, pescoço, o equilíbrio, a postura, a marcha, as brincadeiras, as pessoas que cuidavam, brincavam ou se relacionavam com a criança são dados fundamentais para a construção do conjunto de hipóteses do desenvolvimento pleno ou do comprometimento cognitivo e emocional apresentado pela criança encaminhada para a avaliação diagnóstica psicopedagógica.

       Cada um destes fatores acima mencionados traz consigo alguma colaboração para o desenvolvimento pleno ou deficitário, tanto no campo da linguagem, da motricidade, da cognição, quanto da intelectualidade, das emoções e, posteriormente, da leitura, da escrita ou das habilidades matemáticas. Isso se dá porque a estimulação e a maturação neuronal nesta fase são essenciais nos processos de formação de sinapses, de mielinização do córtex, da plasticidade neuronal e na formação de vias neuronais capazes de potencializar ou limitar as habilidades relacionais e de integração de estímulos. Por isso, precisam ser checadas minuciosamente pelo entrevistador e, posteriormente, comparadas com os dados obtidos na testagem para a construção do diagnóstico correto e preciso.

       Ainda sobre os questionamentos feitos na anamnese, toda a história educacional - nas creches, no sistema de Educação Infantil, com babás, parentes ou com a família nuclear - precisa ser descrita, observada e analisada, já que estes aspectos se relacionam com o campo da estimulação cognitiva, com maior ou menor riqueza de acesso aos estímulos necessários à construção das estruturas de desenvolvimento típicas da criança entre 1 e 3 anos, como o desenvolvimento da linguagem, da prontidão motora, da simbolização, da internalização de conceitos e esquemas, como: assimilação, equilibração e acomodação - bem descritos por Piaget em diversos trabalhos e que necessitam ser analisados pelo psicopedagogo para a construção do panorama cognitivo do paciente, através da anamnese.

       A postura da criança frente às relações na escola, na prática de esportes, seu comportamento nas brincadeiras na rua (se lidera, se apenas segue alguém, se discorda sempre do combinado, se respeita as regras, dentre outras características), em festas de aniversário são questionamentos que trazem ao psicopedagogo a consciência das relações interpessoais e a dinâmica comportamental do paciente e o grau de informações que seus pais possuem sobre a conduta de relacionamento e socialização. Estes dados precisam, posteriormente, ser verificados com os educadores da escola e demais profissionais que interagem com a criança, pois nem sempre as informações dos pais correspondem ao real comportamento ou relacionamento do paciente.

       Assim, percebe-se a importância de uma anamnese criteriosa, que venha a elencar todas as situações descritas, do passado e do presente do paciente, em todos os seus ambientes, priorizando um enfoque biopsicossocial como base da avaliação, sem exercer juízo de valor ou pensar em corrigir a família ou o paciente sem a plena consciência do diagnóstico, do método, da abordagem e da isenção necessárias ao trabalho psicopedagógico.

       Para o diagnóstico ser o mais preciso possível, a anamnese é a peça fundamental, a pedra elementar da base de investigação, que leva ao levantamento de hipóteses, que explica, caracteriza ou descarta os quadros e hipóteses do diagnóstico psicopedagógico e deve ser treinada, estudada previamente pelo psicopedagogo, para uma aplicação metódica, seguramente estruturada e devidamente registrada para o sucesso do processo de identificação das dinâmicas de aprendizagem do paciente, de suas limitações e, principalmente, de seu potencial cognitivo.

 

 REFERÊNCIAS:

 

ACAMPORA, Beatriz e ACAMPORA, Bianca. Psicopedagogia Institucional. Rio de Janeiro, RJ.ed. Wak, 2017.

BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. Psicopedagogia Clínica e Institucional - Diagnóstico e Intervenção. São Paulo, SP. Loyola, 2015.

BOSSA, Nádia e OLIVEIRA, Vera Barros. Avaliação Psicopedagógica da Criança de Zero a Seis anos. 18ª Ed, Petrópolis, RJ. Vozes, 1994.

BOSSA, Nádia e OLIVEIRA, Vera Barros. Avaliação Psicopedagógica da Criança de Sete a Onze anos. 17ª Ed, Petrópolis, RJ. Vozes, 1996.

BOSSA, Nádia e OLIVEIRA, Vera Barros. Avaliação Psicopedagógica do Adolescente. 11ª Ed, Petrópolis, RJ. Vozes, 1998.

CHAMAT, J. S. L. Técnicas de Intervenção Psicopedagógica. Para dificuldades e problemas de aprendizagem. São Paulo, SP: Vetor, 2008.

FAGALI, Eloisa Quadros e VALE, Zélia Del Rio. Psicopedagogia Institucional Aplicada. 6ª Ed. Petrópolis, RJ. Vozes, 2001.

FONSECA, Vitor. Introdução às Dificuldades de Aprendizagem. 2ª Ed, Porto Alegre. Artes Médicas, 1995.

FONSECA, Vitor. Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem. 3ª Ed, Porto Alegre. Artes Médicas, 2009.

FONSECA, Vitor. Interatividade na Aprendizagem. São Paulo, SP. Salesianas, 2002.

LIMA, Priscila Augusta. Educação Inclusiva e Igualdade Social. São Paulo, SP. Avercamp, 2006.

MARCELLI, D. Manual de Psicopatologia da Infância de Ajuriaguerra. 5ª Ed, Porto Alegre. Artmed, 1998.

PAIN, Sara. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. 4ª Ed. Porto Alegre. Artmed, 1992.

PERES, C. Tda-H (Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade) Da Teoria À Prática- Manual de Estratégias no Âmbito Familiar, Escolar e da Saúde. Rio de Janeiro, RJ: Wak, 2014.

PORTO, Olívia. Psicopedagogia Institucional. 3ª Ed, Rio de Janeiro, RJ.ed. Wak, 2009.

SAMPAIO. S. Manual Prático do Diagnóstico Psicopedagógico Clínico- 5ª Edição, Rio de Janeiro, RJ: Wak,2014.

SANTOS, D. P. M. Dificuldades de Aprendizagem na Escola- um tratamento psicopedagógico, Rio de Janeiro, RJ: Wak, 2012.

WEISS, L. L. M. Psicopedagogia Clínica - uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar- 11ª edição, Rio de Janeiro, RJ: DP&A, 2006.

WEISS, Maria Lúcia L. Psicopedagogia Clínica. 9ª Ed. Rio de Janeiro, RJ. Ed. DP&A, 2002.

 

_____________________________________

1 Psicólogo clínico e professor universitário. Especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e em Psicopedagogia. É psicólogo educacional da Secretaria de Educação e Cultura de João Pessoa e Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. E colunista do Jornal da Educação, sendo responsável pela coluna Psicologia em Educação.

Please publish modules in offcanvas position.