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JECC 2 - ANÁLISE DO ENSINO TÉCNICO E PROFISSIONAL NA CPLP, CASO DE ESTUDO CABO VERDE

 

António H.R.T. Silva1

 

 

RESUMO: O trabalho apresenta os principais indicadores de desenvolvimento dos países da CPLP e de Timor-Leste. Aborda a sustentabilidade e a qualidade do Ensino Técnico (ET) e da Formação Profissional (FP) em Cabo Verde no período 2005 - 2016. A hipótese que se quer testar é: o ET e a FP são de qualidade e promovem o emprego e o crescimento da economia? Para a análise metodológica, foram realizadas várias entrevistas e elaborado um questionário aos ex-formandos, de forma a testar a veracidade da hipótese, e verificou que 56,25% dos inquiridos responderam que o ET e a FP promovem a inserção de jovens no mercado de trabalho e 43,75% manifestaram que é um ensino de qualidade.

Palavras-Chave: ensino técnico, formação profissional, sustentabilidade.

 

ABSTRACT: The paper presents the main development indicators of the CPLP countries and Timor-Leste. It addresses the sustainability and quality of technical education (TE) and vocational training (VT) in Cape Verde in the period 2005 - 2016. The hypothesis to be tested is: the TE and VT are of quality and promote employment and employment. economy growth? For the methodological analysis, several interviews were conducted and a questionnaire was prepared for the former students, in order to test the truth of the hypothesis, and found that 56.25% of the respondents answered that the TE and VT promote the insertion of young people in the market. 43.75% said it was quality education.

Keywords: technical education, professional qualification, sustainability.

 

 

INTRODUÇÃO

 

O ensino constitui o pilar do desenvolvimento de qualquer nação, mormente da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP)2, criada em 17 de julho de 1996 pelos Chefes de Estado dos países de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Em 20 de Maio de 2002, aconteceu a entrada de Timor-Leste e em 2014, da Guiné Equatorial. Na criação foram estabelecidos objetivos precisos voltados para as áreas prioritárias, como a Saúde e a Educação, a Segurança Alimentar e o Ambiente, entre outros domínios. No que se refere ao ensino, há ainda muito por fazer neste campo, particularmente no ensino técnico e na formação profissional; sobretudo para colmatar as fragilidades que ainda persistem na maioria dos países da CPLP em diferentes setores.

 

A cooperação entre os Estados Membros é relevante para a qualidade do ensino técnico e profissional, ao aproveitarem as oportunidades que começam a surgir com as novas tecnologias. Porém, as grandes mudanças estruturais no sistema de ensino, muitas vezes, não vão ao encontro das necessidades e das exigências do mercado, o que está na origem de muitas críticas, pondo a tônica nas limitações do sistema educativo, particularmente do ensino técnico e da formação profissional adotada por estes países. Num estudo feito por Banga e Velde (2018) a grande limitação está no setor da investigação e da tecnologia3, e da inclusão do gênero no emprego formal4; outra limitação manifestada pela maioria dos investigadores e pedagogos é a formação dos docentes e o perfil de saída dos formandos, que muitas vezes não vai ao encontro das necessidades do mercado. Segundo Valente et al. (2007, p. 219), para além de equacionar a oferta e a procura da educação e formação, é preciso ter em conta as especificidades do funcionamento do mercado de trabalho, dos comportamentos dos indivíduos, das empresas e das instituições ou, ainda, das variáveis econômicas enquadradas em dinâmicas de competição internacional.

 

Em relação às estratégias educativas, alguns Estados da CPLP, particularmente os países africanos, incorporam ainda muitas indecisões e complexidades no ensino técnico e profissionalizante. Muitos jovens formados continuam no desemprego e, sem alternativas, mudam de área ou prosseguem os estudos superiores. Eles têm muitas dificuldades na criação de autoemprego e na procura de financiamento. Estes fatores dificultam a inserção dos jovens no mercado de trabalho e a integração das mulheres do setor informal para o setor formal, com o fito de terem empregos dignos e uma renda que lhes permite viver com dignidade.

 

Um outro problema enfrentado pelos países da CPLP tem relação com a inovação. As empresas e as administrações públicas precisam inovar-se; adquirir novos equipamentos, com novas funcionalidades; melhorar a performance e intensificar o ritmo da produção. Para isso, exigem, cada vez mais, quadros qualificados e devidamente treinados. No entanto, a maioria destes países, particularmente os africanos e Timor-Leste, ainda não tem ritmo acelerado em inovação.

 

No quadro 1, são apresentados os principais indicadores de desenvolvimento dos países de da CPLP e Timor-Leste.

 

 

 

Na lista dos países da CPLP, em 2015, Portugal ocupou a 1ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e 43ª posição no ranking mundial, com um IDH de 0,83, classificado de país médio avançado. Cabo Verde apareceu na 3ª posição com IDH de 0,65, caraterizado como país de desenvolvimento médio. Guiné-Bissau e Moçambique com IDH de 0,42, surgiram no fim do quadro, considerados como países menos avançados, ocupando os lugares 178 e 179 no ranking mundial.

 

 

  

No gráfico 1, pode-se ver que a Guiné-Bissau é o país que, nos três períodos, teve a menor despesa com a educação, num valor inferior a 1,5% em relação à percentagem do Rendimento Nacional Bruto em 2010 e 201, enquanto que o país com a maior despesa na educação foi São Tomé e Príncipe em 2010, numa percentagem superior a 7,6%.

 

 

Gráfico 2 - taxa de Crescimento de PIB Per Capita na CPLP e em Timor-Leste nos períodos 2001, 2011 e 2014

 

   

A partir do gráfico 2, verificou-se que a média da taxa de crescimento do PIB Per Capita da Comunidade em 2011 foi de 6,61%. Em 2014 essa média desceu para 2,75%. Timor-Leste, em 2001, foi o país da lista que teve a maior taxa de crescimento do PIB Per Capita, num valor de quase 14%. Portugal teve a menor taxa de crescimento em 2011, com o valor negativo de 1,68%.

 

Moçambique foi o país da CPLP, que em 2017, registou a maior taxa de desemprego, no valor de 22,3%. Portugal e Cabo Verde apresentaram a maior dívida pública em percentagem do PIB. O Brasil foi o país que teve a mais baixa taxa de crescimento do PIB, chegando perto de 4% negativo no ICG de 2016-17. Portugal é o único país que ocupa uma posição mais confortável, ocupando a 1ª posição, 33º lugar na região e 77º lugar no Mundo, enquanto Moçambique, Angola e Timor Leste ocupam os lugares mais baixos no ranking Mundial, pois no conjunto, tiveram um PIB Per Capita, em média, à volta de 4.720 USD, (ver o quadro 2).

 

 

  

Portugal foi o país que nos anos de 2005, 2010 e 2014 aparece com a maior cobertura de Internet. Em média, a cada 100 pessoas, 51 possuem internet, enquanto Timor-Leste, praticamente, não teve cobertura de internet nos períodos em análise. Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, aparecem com uma fraca cobertura de internet. Em cada 100 pessoas, apenas 12, em média, possuem internet. Em Cabo Verde, em cada 100 pessoas, 25, possuem internet.

 

 

 

OS DESAFIOS DO ENSINO TÉCNICO E PROFISSIONAL EM CABO VERDE

 

 

Cabo Verde é um pequeno estado insular, com uma economia que depende diretamente do exterior, e vulnerável a qualquer choque externo. Desde a independência, com a ajuda dos parceiros nacionais e internacionais, o país tem feito muito investimento no setor da educação para a qualificação dos seus quadros (TAVARES, 2012). Mas, nem sempre os investimentos feitos neste setor, particularmente no ET e na FP, foram ao encontro das reias necessidade dos jovens. Segundo Tavares (2012), o país enfrenta ainda fragilidades nas instituições; não há ainda um observatório de controle do emprego; a concertação entre o setor público e privado é deficiente; uma formação pedagógica dos formadores passiva de muitas críticas pela comunidade acadêmica e pela sociedade civil; não há grandes investimentos em pesquisas e investigações. Constata-se que a relação entre as universidades e as empresas não é muito relevante, e muitos programas para o ensino estão desfasados da realidade. O Plano Curricular  do Ensino Técnico e Profissional precisa de ser atualizado, reajustado e reformulado para acompanhar a evolução do país.

 

 

  

ALGUNS INDICADORES DE DESENVOLVIMENTO E DA EDUCAÇÃO EM CABO VERDE

 

 

A taxa de desemprego é maior nos indivíduos com idade de 15 a 24 anos, particularmente em indivíduos de sexo feminino, com uma taxa de 52,6%. A taxa de emprego maior nos grupos na faixa etária de 25 a 64 anos e do sexo masculino, cerca de 84,2%. A taxa de inatividade é maior nas pessoas com 65 anos ou mais, em cerca de 90,7%.

 

 

 

Em 2013, Cabo Verde tinha 36.388 jovens desempregados, numa taxa de 16,4%. Em 2017, esse número reduziu para 28.424, numa redução de 7.964 indivíduos, representando uma percentagem de 12,2%. A maior taxa de desemprego, em 2017, registou-se na ilha de Santiago, particularmente nos Concelhos da Praia e de Santa Catarina, nos valores de 35,9% e 51,7%.

 

  

 Analisando o gráfico 5, verificou-se que o maior investimento na educação, nos três períodos, aconteceu em 2015-16, no valor de 10.021.817.026,00 CVE (91.107.427,51 euros) e no Ensino Secundário (ES) de 3.464.062.302,00 CVE (31. 491. 475,50 euros), representando 34,16% do Orçamento da Educação (OE).

 

Em 2010-11, foram matriculados no 3º ciclo do ES (11º Ano e 12º Ano) 11.537 alunos. Destes, 9.979 foram inscritos na Via Geral (VG) e 1.558 na Via Técnica (VT). Do total de matrículas, 6.428 foram indivíduos do sexo feminino nos quais 5.685 foram inscritos na VG e 743 na VT. Em 2015-16, o número de alunos matriculados no 3º Ciclo do ES, passou para 12.174 alunos, um aumento de 637 alunos. Apesar do aumento do número de alunos no ES, na VT houve uma diminuição do número de alunas de 743 para 684, uma redução de 59 alunas no ET, (ver o quadro 4).

 

 

  

Constata-se que o número de reprovação foi maior no ano letivo 2010-11, e no total reprovaram 5.561 alunos. Destes, 1.365 foram do sexo feminino da VG e 127 da VT.

 

 

 

A taxa de abandono escolar em 2010-11 foi de 41,10% e em 2015-16, essa taxa desceu para 39,90%; uma redução de 1,50 p.p. A maior taxa de reprovação nos dois períodos registou-se nos alunos do 7º Ano de escolaridade, com 9,60% em 2010-11 e 8,70% em 2015-16, numa descida de 0,90 p.p. No 3º Ciclo do ES (11º Ano e 12º Ano), em 2010-11, o abandono foi de 11% e em 2015-16 desceu para 10%, numa redução de 1 p.p.

  

 

 Em 2016, foram inscritos nos cursos profissionalizantes 262 indivíduos e destes, 81 foram mulheres, representando quase 31% dos inscritos. O maior número de participantes localizou-se na região de Sotavento, mais concretamente na ilha de Santiago. Na região de Barlavento apenas aparece a ilha do Sal com 17 inscritos, entre os quais 10 mulheres.

 

No ano de 2004-05, existiam 2.278 professores, e desses, 734 eram professores com o Curso Superior sem Licenciatura, 666 licenciados, 278 não tinham nenhuma formação e 26 detinham o título de Mestrado/Pós-Graduação. Em 2015-16, o número de professores ascendeu a 3.351 efetivos, num aumento de quase 1.073 efetivos, 1.082 eram licenciados e 106 com Mestrados/Pós-Graduação. Relativamente ao gênero, em 2004-05, existiam apenas 938 professoras, mas esse número passou para 1.620 em 2015-16, um aumento de 682 indivíduos, (ver o quadro 6).

 

 

 

 

 

REFERENCIAL TEÓRICO

 

 

Ao longo dos anos, a avaliação da qualidade do Ensino Técnico e da Formação Profissional, vem sendo tratada de forma diferenciada, de acordo com a vontade dos decisores políticos. Não se deve pensar no ET e na FP apenas numa política de inclusão, mas da inserção de cada curso dentro do contexto e das necessidades de cada localidade. O cumprimento da finalidade essencial de um curso profissional é a formação humana não só no sentido técnico-profissional, mas também social, ético e político, a qual possibilitará ver os pontos fortes e fracos do sistema, por meio de uso combinado de instrumentos qualitativos e quantitativos. Para Piaget (1982) apud Baptista (2015), destaca a importância da educação no desenvolvimento psicossocial do Homem. Segundo ele,

 

A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram.

 

Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe. PIAGET (1982, p.246)

 

 Piletti (1993) no seu livro “Sociologia de Educação”, aponta que, cada aluno tem uma característica diferente que o distingue do outro: a constituição física; a aparência; o nível intelectual; a sociabilidade; o temperamento; os antecedentes familiares; ou as condições socioeconômicas. O sucesso do ensino depende da eficácia da escola de levar em conta essas caraterísticas comuns, de modo especial e diferenciado. Na sua visão, se o educador levar em consideração essas individualidades do (a) aluno (a), terá melhores chances de aprender a educar.

 

Segundo Rodrigues e Ferrão (2008, p.8), uma das grandes questões que se coloca ao nível pedagógico em formação profissional, deve-se à relação entre as duas principais vertentes em jogo no processo formativo: a vertente ensino e a vertente aprendizagem. Para eles, do ponto de vista pedagógico, o formador deve ter consciência que, em qualquer situação de formação, estão em jogo duas atividades inseparáveis: “as atividades de aprendizagem e as atividades de ensino.”

 

Valente et al. (2007) propõe que o objetivo da política de Formação Profissional esteja sempre ligado “à aprendizagem ao longo da vida”. Segundo Valente et al. (2007), os decisores das políticas de formação e emprego, no nível nacional e setorial, devem utilizar alguns métodos quantitativos e sondagens aos empregadores, dos quais faz a referência:

 

 Os métodos quantitativos (técnicas extrapolativas/mecanicistas; modelos econométricos/comportamentais; sondagens aos empregadores e skillsaudits), apesar das críticas, podem e são, de fato, uma ajuda preciosa (earlywarningsystems). (VALENTE ET AL., 2007)

 

 Em Cabo Verde, um dos grandes problemas na implementação do ET e da FP tem relação com a sustentabilidade e o perfil de saída dos formandos. Rocha e Seabra (2017) realçam o novo perfil de trabalhador que as empresas reivindicam daqueles que saem das escolas, para integrar vida laboral e a vida social, e que se adequem aos desafios atuais das empresas, e propõem articulações institucionais visando que os formandos devem saber o que os aguarda no mundo laboral, na sociedade e na esfera internacional e que isso lhes seja ensinados nas escolas.

 

HIPÓTESES DE INVESTIGAÇÃO

 

 

O Ensino Técnico e a Formação Profissional são de qualidade e promovem o emprego e o crescimento da economia.

 

 

O OBJETO DE ESTUDO

 

 

Neste estudo, far-se-á uma reflexão sobre o ensino técnico-profissional, destacando as perceções, as práticas e os desafios dos formadores e gestores do ensino técnico profissional, e da qualidade que se quer para a projeção do Ensino Técnico e Profissional em Cabo Verde.

 

 

CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO

 

 

Para dar uma resposta a investigação, foram feitas várias entrevistas aos decisores políticos, aos representantes do setor privado e aos profissionais da educação. E, para além disso, foi elaborado um questionário aos ex-alunos do ET e da FP das cidades da Praia e de Assomada, na Ilha de Santiago.

 

 

FORMULAÇÃO DAS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO E OS OBJETIVOS DO ESTUDO

 

 

As questões levantadas durante as entrevistas foram: Qual o impacto do ET e da FP em Cabo Verde desde a sua implementação? O ET e a FP têm contribuído para a redução do desemprego jovem e para a promoção da igualdade do gênero? Como avaliam o desempenho de Cabo Verde no ET e da FP na lista dos países da CPLP?

 

A pretensão do estudo é ver a qualidade e até que ponto o ET e a FP são sustentáveis e em que medida contribuem para a criação de riqueza.

 

Das entrevistas com os Subdiretores para o Ensino Técnico9, e um professor10 da Área Técnica, todos são unânimes em afirmar que um dos grandes constrangimentos do ET e da FP é a sustentabilidade, por exigirem investimentos robustos, sobretudo nos materiais consumíveis. Para eles, “foi a melhor aposta no Sistema de Ensino em Cabo Verde”, porém com algumas reticências; são de opinião que os governantes devem dar uma atenção especial ao ET e a FP, porque contribuem para a redução do desemprego e promovem o empreendedorismo jovem e a melhoria do ambiente de negócios em Cabo Verde.

  

 

Para José Luís Neves, Secretário-Geral da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Sotavento (CCISS)11, a grande questão que se coloca hoje do ET e da FP é a adequação das ofertas formativas às necessidades do mercado. As políticas hoje são no sentido de reorientar as ofertas formativas, para que um jovem com formação profissional, quando entra no mercado de trabalho, tenha de adequar a formação com a maneira de trabalhar da empresa, o que muitas vezes demora tempo e acarreta encargos financeiros para a empresa. Neves é perentório em dizer que o impacto do ET e da FP é positivo, porque melhorou a cultura empresarial e fez crescer o ambiente de negócios, mas alerta para alguns défices que precisam de ser corrigidos pelos poderes públicos, na organização e enquadramento das ofertas formativas que, para além da criação de competências, devem promover o saber-fazer e o saber-estar; criação de políticas empreendedoras assertivas, que promovam um bom ambiente de negócio e não simplesmente “empreendedorismo de necessidade”, que é o que tem estado a propagar-se no país.

 

Paulo Santos, Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP)12, avalia que, o impacto da FP no desenvolvimento do país é relevante, pois os dados do Instituto Nacional da Estatística (INE) apontam para 73% de empregabilidade, o que mostra que os ganhos são palpáveis. Para ele, em termos quantitativos e qualitativos, é elevado o número de jovens formados pelo IEFP, mas para que a formação esteja enraizada na sociedade cabo-verdiana, o IEFP tem apostado na formação pedagógica dos formadores, de modo que estes sejam multiplicadores e possam usar da melhor forma a metodologia do ensino nas formações. Para Santos “a FP é uma das maiores políticas ativas de emprego que o IEFP faz a gestão direta, e vai na perspetiva de promoção, como contributo para que haja a diminuição do desemprego jovem, através da formação”. Para ele, a política do IEFP permite capacitar jovens, sobretudo os desempregados de longa duração, através da criação de políticas regionais de emprego; através de estágios profissionais geridos pelo IEFP ao nível nacional nas empresas e da promoção do autoemprego.

 

 

 

A METODOLOGIA

 

 

Na elaboração do artigo, utilizou-se o método descritivo e exploratório. Fez-se uma vasta pesquisa documental sobre o tema e foram feitas visitas guiadas às instituições públicas e privadas, no sentido de se ter um portfólio alargado que permitisse o desenvolvimento do artigo. A estratégia metodológica aplicada foi de natureza qualitativa e quantitativa, com a intenção de facultar uma compreensão do objeto de estudo e de facilitar na compreensão do trabalho.

 

 

BASE DE DADOS

 

  

Os dados extraídos para análises descritivas foram recolhidos do BM de 2016; ICG de 2016-17; dados do IDH de 2015; do INECV de 2016 e dos anuários e indicadores do ME de Cabo Verde nos períodos 2004-05, 2010-11 e 2015-16, justificados por serem prazos com intervalos de 5 anos que coincidem com a mudança governamental. Na análise e interpretação de resultados, utilizou-se o SPSS para, de uma forma quantitativa, fazer uma interpretação mais fidedigna e objetiva das informações recolhidas.

 

 

DISCUSSÕES E ANÁLISE DOS RESULTADOS

 

 

Com o questionário foram inquiridos 32 ex-formandos do ET e da FP na Cidade da Praia e Assomada da Ilha de Santiago, a maior de Cabo Verde.

 

 

 

 

Dos inquiridos, as áreas de formações com a maior prevalência é a Contabilidade e Administração e a Construção Civil, cada uma com 7 formandos. Nos cursos de TEA, MMIEBT e GPE registaram apenas 2 inquiridos e 3 formandos não identificaram as áreas do curso. A maioria dos examinados terminou o curso em 2017, num total de 10 alunos e 5 não indicaram o ano de conclusão do curso.

 

 No questionário, foram elaboradas 5 perguntas:

 

 1. As ofertas oferecidas pelo Ensino Técnico e Formação Profissional vão ao encontro das necessidades dos jovens de Cabo Verde?

 

 

A maioria dos inqueridos respondeu que o ET e a FP vão ao encontro das necessidades dos jovens de Cabo Verde, no total de 62,50%, 18,75% acham que não vão ao encontro das necessidades dos jovens e 18,75% não souberam responder.

 

2.  Qual foi o motivo da escolha do Ensino Técnico ou da Formação Profissional?

 

 

Fonte: do autor com recurso ao SPSS.

 

Uma percentagem de 56,25% dos alunos escolheram o ET ou a FP por ser mais fácil a inserção no mercado de trabalho e 43,75% respondeu por ser um ensino de qualidade.

 

 3. O Ensino Técnico e Profissional está a promover, de uma forma sustentável, os jovens e o gênero no mercado de trabalho?

 

 40,63% dos inquiridos acham que o ET e a FP promovem o emprego jovem e o género.

 

37,50% não souberam responder e 21,8% responderam que não.

  

 

4. As políticas desenvolvidas pelos sucessivos governos para o Ensino Técnico e a Formação Profissional estão a promover uma cultura empreendedora, social e empresarial?

  Fonte: do autor com recurso ao SPSS.

 

 

 Metade dos examinados estão de acordo que as políticas implementadas pelos governos promovem empreendedorismo e uma cultura social e empresarial, uma percentagem de 28,13% responderam que não e cerca de 21. 88% não souberam responder.

 

 

5. Quanto tempo demorou para conseguir emprego após a formação?

 

 

Fonte: do autor com recurso ao SPSS.

 

 

Uma percentagem de 43,75% dos inqueridos continuou os estudos superiores após terminar a formação; 28,13% ainda está sem emprego; 15,63% conseguiu emprego num período de 0 a 6 meses; 9,38% de 6 a 12 meses; e 3,13% num período superior a 12 meses.

  

CONCLUSÃO

 

 Ao longo da produção deste trabalho de pesquisa, ficou visível que é necessário um novo modelo de avaliação para o ET e a FP, que englobe o conjunto das dimensões que compõe os cursos (projeto político-pedagógico, desenvolvimento de uma abordagem pedagógica e desenvolvimento de práticas nos cenários de ensino-aprendizagem; formação do corpo docente; formação de corpo discente; e criação de infraestruturas administrativas e técnicas que envolva todos os implicados), tendo como finalidade a formação humana, não só no sentido técnico profissional, mas também social, ético e político.

 

Um outro aspeto criticado pela maioria do corpo docente e pela sociedade civil é a precariedade do sistema de avaliação, podendo dizer-se que o sistema de avaliação implementado nos últimos anos em Cabo Verde para o ES não serve para o país e tem contribuído para uma redução substancial da qualidade do ensino. Segundo Varly (2018), consultor do Banco Mundial no Fórum Nacional da Educação (FNE), o país não tem um critério real de exames; tem uma fraca formação dos professores, as avaliações não são regulares; não há uma participação em avaliações internacionais, as práticas avaliativas nas salas podem ser melhoradas; não há um observatório que regule a evolução da estrutura da educação; e o sistema cabo-verdiano não aplica os padrões internacionais para avaliar a qualidade do ensino.

 

Uma percentagem de 28,13% dos jovens inquiridos e com formação permanecem ainda no desemprego, pelo que é preciso consertar algumas políticas para o setor da formação. Um dos objetivos principais do ensino é preparar os jovens para o mercado de trabalho, sustentado na educação para a cidadania, que são os valores, as atitudes e os comportamentos partilhados individual e socialmente. Entretanto, da observação, o que ocorre na maior parte das escolas do país permite concluir que ainda está longe desse objetivo.

 

O ET e a FP aparecem como um caminho viável que poderá aumentar a percentagem de pessoas formadas e também poderá contribuir para a diminuição do desemprego no país, o que já se pode constatar pela experiência existente, pois mesmo com lacunas, esta tem sido positiva e com alguns bons resultados visíveis. Logo, trata-se de um indicador de que este é um “caminho” onde se pode apostar, no entanto, verifica-se a necessidade do Governo tentar melhorar as suas políticas nesta matéria e, com alguma sensibilidade, trabalhar em função do que já foi feito, para ir melhorando as condições das escolas e dos próprios formadores.

 

 

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1 - Licenciado em Economia pela UNICV em 2017  – REDITEC, Rio de Janeiro setembro de 2018.

2 - Disponível no Site: www.cplp.org

 3 - Publicado por ODI (Overseas Development Institute) no Reino Unido. Disponível no site: www.expressodasilhas.cv

4 - Fórum de Brasília da CPLP - 31/08/2018. Disponível no site: https://www.cplp.org/id4447.aspx?Action=1&NewsId=5302&M=NewsV2&PID=108

5 - n/d (não tem dados). Neste estudo não foi incluída a Guiné Equatorial, por ser o país que começou a fazer parte da Comunidade em 2014.

6 - Nessa lista não se encontra Angola por n/d (não ter dados) de 2011 e de 2014. 

7 - Dados disponíveis dos Indicadores do MED de Cabo Verde no site: www.minedu.gov.cv

8 - n/d (não tem dados)

9 - Entrevistas para a feitura do artigo: 09/03/18 na ESPCR com o Subdiretor Técnico; 10/03/18 com o Subdiretor Técnico da ETGDH em Santa Catarina (Todos na Ilha de Santiago).

10 -  Entrevista com um professor de Artes Gráficas da ESPCR no dia 05/04/18.

11 - Entrevista concedida na Sede da CCISS para a feitura do artigo no dia 02/03/2018

 12 - Entrevista concedida na Sede de IEFP para a feitura do artigo no dia 02/04/2018

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

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<http://xiv.ciaem-redumate.org/index.php/xiv_ciaem/xiv_ciaem/paper/viewFile/1427/547> [Consult. 8 de abr. 2018].

 

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Brasília. 2017. Disponível em:

 

https://www.cplp.org/id-4447.aspx?Action=1&NewsId=5302&M=NewsV2&PID=10872 > [Consult. 7 de abr. 2018].

 

Entrevista Gravada. ESMAEL. LOPES, Isandro. SANTOS Paulo. NEVES, José Luís. MOREIRA Luisito. Análise do Ensino Técnico e Formação Profissional em Cabo Verde: Qualidade e Sustentabilidade. SILVA, António H.R. Tavares. Praia, Assomada, 2018. Tablet Samsung. Versão Androide 4.4.4.

 

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ROCHA, Benvindo de Jesus; SEABRA, Filipa. Abordagem por Competências no Ensino Técnico e na Formação Profissional em Cabo Verde: Apresentação de um projeto de pesquisa,

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Disponível em: <www.minedu.gov.cv> [Consult. 28 de mar. 2018] Sites consultados: www.minedu.gov.cv; www.ine.cv; www.ifm.org

 

 

 

 

ANEXOS