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JECC 2 - RESENHA: MOVIMENTOS ORGÂNICOS E CONJUNTURAIS: UMA HISTORIOGRAFIA CRÍTICA DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Organic and conjunctural moviments: a critical historiography of the History of Education

Movimientos orgánicos y coyunturales: Una historiografía crítica de la historia de la educación

 

Fernanda Gomes Vieira (UDESC)

 

 

SAVIANI, Dermeval. História do tempo e tempo da história: estudos de historiografia e história da educação/ Dermerval Saviani. Campinas -SP: Autores Associados, 2015.

 

O Livro “História do Tempo e Tempo da História: estudos de historiografia e história da educação” escrito pelo filósofo, professor emérito da Unicamp, pesquisador emérito do CNPq, Demerval Saviani, publicado em 2015 pela editora Autores Associados faz parte da coleção Memória da Educação 1. A obra tem como objetivo trazer uma análise crítica da historiografia da História da Educação, com foco principal no Brasil, mas que dialoga com momentos internacionais. Ela foi estruturada como um compilado de estudos produzidos e apresentados na área de História da Educação em diferentes tempos, de 1998 a 2014, e que se fizeram presentes em diferentes espaços: congressos nacionais e internacionais, jornadas, conferências, seminários, texto de coletânea, introdução de livro. Desse modo, o livro é composto por um prefácio, dose capítulos e referências, começa discutindo sobre o tempo e o tempo na história e fecha com fortes reflexões que ele trouxe a um seminário em 2014 sobre a história presente e a história do futuro.

 

Dermerval Saviani começa com o capítulo homônimo ao livro, onde discorre sobre a construção da ideia de tempo e traz esse diálogo para a construção do tempo histórico, onde reflete sobre a história positivista, a Escola dos Annales, principalmente por Fernand Braudel, e a chegada da Nova História, que considera relativizadora e coloca seu projeto que virou livro “História das Ideias Pedagógicas no Brasil” como uma superação de ambas as histórias positivista e presentista, onde ele dialoga com movimentos orgânicos e conjunturais, apoiando-se em Gramsci para esse conceito. O segundo capítulo: “Equidade e qualidade em educação: equidade ou igualdade”, onde ele traça um julgamento do termo equidade como neopragmatismo tecnicista e exalta que temos que pensar em igualdade como a raiz ético ontológica da dignidade humana.

 

Já o terceiro intitulado “A supervisão educacional em perspectiva histórica”, versa sobre o histórico da construção dessa profissão, que ainda encontra-se exercendo um papel político junto ao técnico, mas de maneira inespecífica e traz uma visão de futuro sobre a era das “maquinas inteligentes”, onde ou superamos o capitalismo ou destruímos o planeta; seguido por “Ideias para um intercâmbio internacional na área da educação”, onde ele propõe de forma bem esperançosa a tomada de atas nos eventos de História da educação, onde cada país organizaria um inventário conforme fez o italiano Gian Brizzi e coloca a dinamização nesse aspecto do HISTEDBR2.

 

Após esses quatro capítulos o autor focaliza fortemente em discorrer sobre a História da Educação no Brasil. Começa o debate com o público e o privado, que são categorias indissociáveis até a chegada do Capitalismo que os colocam em oposição, dissociação essa pautada nas ideias do Karl Marx. Com isso, o autor acredita que a educação pública propriamente dita no Brasil, que ocorre quando o Estado se responsabiliza por administrá-la, começou nos Grupos Escolares em 1890. Depois de tais exposições reflexivas, é trazido a luz um trabalho publicado pelo Saviani em 1980, que traz uma estratégia do autor para a defesa do ensino público, que inclusive foi como uma proposta para a LDB de 1996, mas que não conseguiu se firmar. Esta proposta sugeria a rejeição da tutela do Estado (Governo), onde se colocaria o Estado como mantenedor financeiro da educação e o tiraria do controle do processo educativo, hoje vive-se o oposto. O mais importante do capítulo é sua análise sobre essa oposição criada pelo capital entre público e privado, que tornou a educação ainda mais desigual, colocando a educação popular no setor público e precário do secundário, o que a leva a buscar um ensino superior particular voltado a busca por um mercado de trabalho e isso é intencional nesse sistema atual.

 

Em seguida, ele dedica um capítulo a importante trajetória da Pedagogia Católica, afinal ele foi educado em colégios seminaristas e cursou a faculdade na PUC-SP, então percebe um dos porquês de dedicação a Igreja e a História da Educação. Nesse sentido, é estruturada em um artigo uma breve historiografia da hegemonia com o acordo Igreja e Império, do declínio com o período pombalino e a república, mas aqui vale ressaltar que apesar da perda de espaço o catolicismo nunca saiu totalmente do ensino e à renovação da pedagogia católica, que aqui ele coloca de forma muito perspicaz o surgimento da “Escola Nova Católica” na década de 1950 e fala rapidamente sobre as classes secundárias experimentais e a vinda do padre jesuíta francês Pierre Faure, assunto esse que está construindo maior visibilidade com a pesquisa nacional coordenada pelo professor e pesquisador Norberto Dallabrida com o apoio do CNPq. Ao final desse período temos o aumento da movimentação popular, e ele coloca o nascimento de uma “Escola Nova Popular”, que segundo o autor manteve afinidades com a teologia da libertação, onde encaixa o Movimento de Educação de Base (MEB) e coloca pobremente o Paulo Freire com a Educação de Jovens e Adultos, focando na sua influência católica e excluindo sua forte influência marxista.

 

Os capítulos subsequentes do sete ao nove o autor traz profundas análises, críticas, colocações sobre a construção da história da educação brasileira, sua organização, seu balanço e seus circuitos. Ao colocar a configuração da História da Educação como uma disputa hegemônica de grupos, que se polariza mais fortemente depois da década de 1930 e a afirmação do marxismo na década de 1980, que segundo o autor sempre terá seu espaço e sua importância apesar das críticas das pesquisas excessivas dessa vertente naquele contexto. Já a tentativa de organizar a historicidade educacional toma corpo com a ANPEd e os Grupos de Trabalho, sendo o de História da Educação criado em 1984 e motivado por essa tentativa de organização com a coordenação do autor surge em 1986 o Grupo de Estudos e Pesquisa: “História, Sociedade e Educação no Brasil” (HISTEDBR), começa a crescente organização de congressos, seminários, jornadas e em 1999 é criada a Sociedade Brasileira de História da Educação.

 

Já os balanços da historiografia educacional são colocados sobre quatro aspectos: levantamento da situação, colocada como “estado da arte”; registro sequencial do conjunto da produção; sistematização da produção; levantamento exaustivo de estudos e pesquisas. E hoje percebe-se um foco em estudos e pesquisas de análises específicas em recortes particulares, e que segundo o autor teriam melhor uso se integradas a programas escolares de forma que amplie conhecimentos sobre o assunto. Essa preocupação em fazer balanços é posta por dois motivos: crescente importância das fontes e necessidade de organização do campo, ainda muito disputado, mas necessita de uma superação das iniciativas isoladas de balanço que resultam em considerações parciais, por isso temos que ir além dos balanços já iniciados e ousar em fazer balanços globais e sistemáticos que sejam capazes de abarcar os quatro aspectos propostos por Saviani, e uma das dificuldades para isso atualmente são as crescentes exigências de publicações e suas regras para o apoio a projetos, que dificultam as iniciativas coletivas e de longo prazo. E nesse sentido o autor propõe após discorrer sobre circuitos e fronteiras a construção de projetos que analisem a construção da historiografia da educação dos grupos de identidades diferenciadas para que estes sejam incorporados no processo educativo.

 

Discorrido sobre todas essas temáticas, dando uma consistência cronológica ao livro o filósofo da educação traz um capítulo sobre a pedagogia histórico-crítica, que ele mesmo desenvolve e a configura como uma teoria a qual vê a prática educativa como mediadora da prática social, e as lutas de classes. Destarte, o capítulo faz uma crítica ao capitalismo e o reforço das desigualdades sociais pela educação, que tem um papel estratégico nesse jogo de poderes, e posiciona a pedagogia histórico-crítica como contra hegemônica e que luta pela transformação social, e que irá contradizer as estruturas e tentar mudar a correlação de forças, e que associar isso a violência é um equívoco, assim ele traça o conceito de violência pelo personalismo de Mounier, metafísica da não violência; pelo facismo, metafísica da violência; pelo existencialismo, violência pela escassez; e pelo marxismo, ultrapassar os porquês da violência e pôr em evidência as determinações econômicas que os geram. É proposto que se erradique a violência da práxis social, e ressalta que a luta de classes não foi uma invenção marxista, mas sim, é um processo objetivo que está transitando na história.

 

Para finalizar o livro o capítulo onze traz a busca por uma excelência na história da educação brasileira, que por não ser um termo unívoco, ele trata dessa excelência afim de entender sua manifestação em cada período marcante da historiografia educacional do Brasil. Contextualização de extrema importância para nos questionar o que buscamos por excelência na educação brasileira hoje, que se encontra ainda na hegemônica concepção positivista, uma das ideias é derrubar o sentido da educação como mercadoria. Enfim, o último capítulo “História do presente e História do Futuro: crise estrutural do capitalismo, a educação e a escola do século XXI”, fruto de dois textos articulados de duas conferências proferidas em 2014. Neste excerto a posição materialista histórica do autor tem importância salutar, pois ele destrincha cuidadosamente o colapso do sistema atual, o capitalismo destrutivo, como alternativa, que já está em curso, caso não o superemos. Pois o trabalho é visto como determinante do modo de ser da educação, então a universalização de uma escola unitária só é possível com a generalização do trabalho intelectual geral, pois caso seja feita nos moldes do capital ocorrerá o afastamento dos conhecimentos sistematizados dentro da lógica do neoprodutivismo, culminando numa eterna desigualdade social. E aqui ele enxerga a tecnologia como uma saída ao propor que as máquinas tenham as funções intelectuais específicas, de forma a libertar o ser humano para o não trabalho.

 

O livro em questão traz com certeza a ideia da História como única ciência, já que a produção do ser humano sobre a natureza também é colocada como um processo histórico, e sua importância para a resolução das questões educacionais e para a transformação social ficam evidentes. Proposições essas que se casam com a ideologia do autor, que de certa forma também luta pela hegemonia de suas concepções dentro da História da Educação, já que esta hoje encontra-se em desvantagem. Dermerval Saviani é um pesquisador de excelência, que mesmo com formação em filosofia da educação, se coloca em posição de grande historiador da mesma, crítico sagaz do liberalismo e consequentemente da Escola Nova e da Nova História Cultural, fez um trabalho conciso, cronologicamente bem colocado, pertinente e importante para refletirmos sobre o tempo da história e a construção do campo educacional brasileiro, de sorte que a leitura revigora um espírito de transformação, que pudesse estar adormecido com tantas liberdades liberais postas com máscaras da libertação.


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 1- Para conhecer mais sobre a coleção em questão acesse: www.autoresassociados.com.br

 2- Coletivo nacional de pesquisa que tem articulado a participação de Grupos de Trabalho da área de História da Educação em vários estados brasileiros. Ver site: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/

 

 

 

1 Para conhecer mais sobre a coleção em questão acesse: www.autoresassociados.com.br

2 Coletivo nacional de pesquisa que tem articulado a participação de Grupos de Trabalho da área de História da Educação em vários estados brasileiros. Ver site: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/