Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

De onde vem?

Mais um adeus à educação (JE 287)


Caros Leitores que me acompanharam por esses meses/anos que escrevi para o Jornal de Educação, há 15 anos tenho me dedicado à área educacional, tendo feito meu bacharelado, licenciatura, mestrado e doutorado e nunca saído da sala de aula da educação básica. 

Mas, cada vez mais cansado com diversas situações, estou entregando as chuteiras. No ímpeto de buscar outras fontes alternativas de sustento financeiro meu dia a dia tornou-se ainda mais caótico do que o de professor em fechamento de média (creiam, isso é possível) e, mesmo tendo a na Goreti a amigável figura compreensiva em me apoiar em eu continuar com a minha coluna sei que não poderia manter a periodicidade de meus textos e por isso deixo a vocês um texto final de despedida. Por ser o último, permito a mim mesmo um caráter mais pessoal e talvez até mais desconexo dos textos que até então tenho escrito.
Primeiro, peço desculpas aos leitores, quando me dirijo a vocês de forma pessoal, e é a primeira vez que o faço, me parece algo estranho, vazio, impalpável,  simplesmente porque em uma sala de aula, quando falo, os alunos respondem, perguntam, ou fazem aquela cara de sono que nos mata, mas sabemos o que estão pensando do que falamos. 
Quando publico vídeos na Internet ou textos em fóruns posso até receber xingamentos, mas sei o que pensam do que falo, mas na boa e velha e antiga mídia de Gutemberg, vivendo em um estado distante, não consigo materializar a vocês rostos e opiniões. Peço que se alguém tiver lido meus textos por esses meses, ou mesmo que só esse que entre em contato por email, adoraria ouvir (ou ler) opiniões a respeito deles.
Minha decisão radical de largar o meio educacional veio, em parte, por estar lecionando há 9 anos em uma escola do Estado de São Paulo que se gaba de ser a cidade de maior IDH do Brasil e eu lecionava no que era considerada a melhor escola particular da cidade. Fui atraído àquela escola já, de certa forma, deixando de lado a ideologia que pretendia quando decidi ser professor com a sede de mudar o mundo, mas em grande parte acreditava que conseguir abrir os olhos da elite me permitiria, de alguma forma, criar um mundo mais justo. Um mundo onde os patrões e donos fossem mais humanos e pudessem entender a dor de seus funcionários. Lecionava para alunos do 6º ano ao final do Ensino Médio, e era uma situação pesada, bem diferente da que muitos de vocês enfrentam eu sei, mas igualmente pesada. Creiam que eu tinha, entre meus alunos, muitos que não sabiam da existência dos pobres. Podem duvidar do que falo, mas é verdade. 
No sexto ano, naquelas aulas iniciais, quando eu ensinava o que era uma linha do tempo, cronologia, contagem do tempo, pirâmide social, entre outras ferramentas que muitas vezes os programas de aula nos colocam no início do ensino fundamental II, percebia essa situação que só se reafirmava no dia a dia das aulas seguintes. Os alunos facilmente entendiam as regras gerais da pirâmide social. Quanto mais ao alto mais poderoso, quanto maior o espaço na pirâmide, mais pessoas naquela classe social.
Brincávamos de criar pirâmide social da escola, de time de futebol, mas ao criar pirâmide social do Brasil, ano sim ano não algo se repetia, o espanto e terror dos alunos ao deixar uma área tão grande da base da pirâmide para os pobres. “Professor, eu até sei que existem pobres, as vezes vejo eles da janela do meu carro quando vou pra São Paulo, mas você não quer que eu acredite que são tantos assim, néh”.
Isso é só o começo de uma luta que se travava a cada dia. Era natural em perguntas “por que motivo os portugueses, entre tantas formas de trabalho que eram cotidianas no início da Idade Moderna, adotaram a escravidão e por que escolheram aqueles povos e não outros para escravizar?” ... “resposta: por que alguém tinha que trabalhar não é mesmo?” Mas apesar dessas situações, crianças estão lá para serem ensinadas, e a cada novo dia me alegrava em poder abrir um pouco mais a mente deles para um mundo novo, e ver a mente deles se maravilhar. Mas percebia, e a cada novo ano parece que a situação foi piorando, que é como se estivéssemos vivendo em uma verdadeira guerra ideológica.
Ensinamos que a Guerra Ideológica era algo que ocorria na Guerra Fria, mas não sei até que ponto ela acabou.  No 8ºano em um grande trabalho multidisciplinar, os alunos precisavam calcular o valor do salário mínimo ideal, a partir de valores reais que iam pesquisar em imobiliárias, supermercados, farmácias, lojas de roupas, entrevistas com pessoais reais sobre gastos reais eles faziam seus cálculos e expunham na Mostra Cultural suas reflexões sobre as disparidades. .... mas a comunidade muitas vezes respondia com críticas “vejam o valor absurdo que pagamos neste escola justamente para esconder nossos filhos desta realidade e aí vem um professor desses querer ensinar essas coisas horríveis! O Brasil não tem jeito”
No 9º ano, quando o forte era já trabalhar mundo pós Segunda Guerra Mundial, sempre tentava ao máximo expandir a visão dos alunos para além do universo cultural americano, não dizendo que este era certo ou errado, mas desejando que eles tivessem uma visão mais plural (parece que basta dizer que meu destino favorito de viagem não é os Estados Unidos que já seria considerado um ultraje). 
Então, em uma atividade que elaborei por anos, fazia “mágica”. Os alunos passavam por 20 minutos falando todas as palavras que vinham à mente deles quando se fala Irã. As primeiras palavras sempre eram “bomba” “guerra” “morte” terrorista” “véu” “burka” “deserto” “camelo” “vilarejo” “homem bomba” entre outras. 
Enquanto eles falavam eu, no computador ia abrindo imagens diversas do que eles diziam (mas nenhuma do Irã) imagens como deserto do Saara, faixa de gaza, vilarejos no Marrocos, entre outras (algumas até da Europa ou dos Estados Unidos) abria então as imagens e mostrava para comparar o que eles “esperavam” do Irã e o “Irã de verdade” ainda não revelando que nenhuma imagem daquelas realmente era do Irã ... Eles todos ficavam contentes (pois sabiam que eu gostava de provocar contrapontos) que pelo menos naquele ponto a sua visão tinha sido validada. Então, uma por uma das imagens, ia mostrando ela no contexto da página de onde tinha sido tirada, mostrando que nenhuma era do Irã, e em uma busca simples no Google Imagens, na frente deles, ao vivo, escrevia, Teerã, capital do irã .... e eis que eles viam uma metrópole, poluída e com trânsito sim, muito parecida com qualquer grande metrópole mundial, com algumas fotos inclusive com neve (eles jamais imaginariam que no Irã nevava devido à altitude) se espantavam com fotos cotidianas como futebol, a maior parte das mulheres sem véu, embora algumas usassem. ... eu ficava contente ... enfim, consegui desconstruir pelo menos uma visão preconceituosa deles ....
Muitas decepções depois, e não tenho tanto espaço do jornal assim para desabafar eternamente, já pensando em abandonar a educação, resolvi pegar a primeira turma onde tinha feito essa atividade dois anos antes, e eles, naquela época, passaram semanas falando comigo como tinham mudado a sua forma de ver o Irã e com isso iam repensar outros preconceitos ... e então, ao parar diante deles e perguntar que imagens mentais vinham quando se falava Irã (acreditando até que se lembrariam da atividade feita dois anos atrás), não houve um único aluno que não tivesse repetido as mesmas palavras, deserto, terrorista, homem bomba, morte, etc. ... Decepcionado, ainda tive um sábio consolo de um amigo: Leandro, você fez uma fantástica atividade de 20 minutos para abrir a mente deles, o resto da mídia trabalhou os outros 60 minutos de todas as outras 24 horas de todos os outros 365 dias do ano para desconstruir o que você fez.
Será que um texto de desabafo desses pode ser publicado em um jornal para professores que já estão aflitos com a situação da educação em nosso país? 
Confesso que não sei. Mas sinceramente, tenho percebido hoje que a educação é algo muito mais do que uma missão ou profissão. É como uma guerra, e enquanto não conseguirmos realmente estruturar um verdadeiro exército no sentido metafórico da palavra, vamos realmente perder feito essa guerra ideológica. Se hoje caí após 15 anos, espero, sem dúvida, força nova e experiência antiga pra me ajudar a levantar.

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