Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Deuses apaixonados (JE296)

Em tempos remotos, eram comuns os encontros amorosos entre um deus e mulheres da terra, geralmente virgens, belas, recatadas e do lar. Algumas delas eram comprometidas, o que gerava alguns conflitos, que eram logo resolvidos.
O caso mais famoso é de uma donzela da Palestina, de nome Maria, cujos relatos nos informam da visita que um anjo fez à jovem, anunciando-lhe a chegada de um filho. A inocente noiva, prometida em casamento a um primo mais velho, disse que aquilo era impossível, pois não conhecia homem, isto é, não havia tido relacionamento carnal com nenhum varão. O anjo explicou que o filho gerado em seu ventre seria obra do Deus de seu povo, através de um espírito. Assim, ela aceitou de bom grado sua missão, e o noivo, que no início chegou a pensar em abandoná-la, mudou de ideia quando, em sonho, o anjo lhe disse para não fazer mau juízo da menina, pois o Ser que ela iria gerar vinha do “Espírito Santo”.
 Segundo os estudiosos, os antigos costumavam atribuir a paternidade divina a certos indivíduos notáveis, tais como reis, imperadores, filósofos e profetas, não só como forma de homenageá-los, mas porque acreditavam mesmo que eles eram filhos de uma divindade.
No Egito, o faraó era celebrado como filho de um deus, e às vezes, como o próprio deus na terra. Na Grécia, Platão e Pitágoras eram exaltados como filhos do deus Apolo. 
Na Índia (cerca de 3.500 anos a.C.) os textos sagrados contam que a mãe da virgem Devaki foi informada em sonho que sua filha daria à luz um homem-deus, que seria conhecido como Krishna. Também na Índia (séc. 6 a.C.) encontramos a rainha Maya descansando num dia de verão, quando em sonho, é levada ao topo do Himalaia, onde é recebida por quatro rainhas que a conduzem a uma mansão de ouro. Um elefante branco desceu voando a montanha, levando um ramo de lótus como oferta à rainha, que o esperava para o encontro nupcial. Ali, o elefante sagrado consumou o ato, penetrando-lhe o útero com a tromba. Desse encontro pouco comum, nasceria o príncipe Sidarta Gautama, o Buda.
Pérsia (atual Irã, séc. 6 a.C.). A virgem Dughda, uma adolescente de quinze anos, estava prometida em casamento a Pourushaspa, quando engravidou de Ahuramazda, um deus persa; dessa relação nasceu Zaratustra, o fundador do zoroastrismo.
Os gregos são pródigos em nos fornecer romances entre um deus e uma terráquea. Coloquei entre parênteses o nome pelo qual eram conhecidos esses deuses pelos romanos.
Zeus (Júpiter) tinha uma estratégia peculiar para seduzi-las: o disfarce. O chefe do Olimpo se aproveitou da ausência de Anfitrião, e deitou-se com a esposa dele, Alcmena, enganando-a, pois adotara a aparência de seu marido. Dessa união, nasceu Heracles (Hércules). No início, Anfitrião ficou revoltado com a traição da esposa, mas se acalmou quando ela lhe contou que o bebê era filho de Zeus.
Leda, esposa de Tíndaro, rei de Esparta, que parecia ser uma zoófila, não reconheceu o grande Zeus quando veio em forma de cisne e copulou com ela. Nove meses depois, ela chocou dois ovos, e Tíndaro adotou as crianças como seus próprios filhos.
Outra que nutria fortes paixões por animais era Perséfone, que ao ver Zeus em forma de cobra, não hesitou em se deixar penetrar. Em breve daria à luz o semideus Zagreu.
Para muitos gregos, Alexandre Magno era filho de Olímpia e Zeus, que, em forma de cobra (mais uma adepta de sexo com répteis) veio ao leito da bela mortal e a engravidou. Segundo o historiador Plutarco (séc. 1 de nossa era), Olímpia costumava dormir com cobras, como parte de um de seus cultos religiosos. 
Dionísio (Baco) era filho de Zeus e da princesa Sêmele. O belo Apolo é pai de Asclépio, nascido de um romance com Corônis. Ares, filho de Zeus e Hera (Juno), engravidou Réia Sílvia, da qual nasceram os gêmeos Rômulo e Remo. 
Hoje, divindades como as dos gregos e romanos foram transportadas para as prateleiras de livros sobre mitologia, mas na Antiguidade o povo as respeitava como entidades reais. Aqui no Ocidente, a concepção milagrosa de Maria resiste aos ataques dos críticos, que veem nesse conto um plágio da vida dos deuses pagãos. Para os cristãos, trata-se da mais bela história da Humanidade, em que Deus, como prova de seu amor por nós, se fez homem, para nos salvar e nos livrar de todo o mal.

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