Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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A origem da Bíblia (JE 298)

“O passado das civilizações nada mais é que a história dos empréstimos que elas fizeram umas às outras ao longo dos séculos.” (Fernand  Braudel, 1902 – 1985, historiador francês)

Até o século dezoito, poucos pesquisadores duvidavam da veracidade dos textos bíblicos. A criação do mundo em seis dias, a feitura do homem a partir do barro, a enchente universal, uma arca capaz de abrigar milhares de pares de animais por cerca de cento e cinquenta dias, a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés, as dez pragas, o mar aberto ao meio, o nascimento virginal de Jesus e seus milagres, a vitória sobre a morte e sua espetacular subida ao Céu, tudo era interpretado literalmente.
Não se cogitava buscar provas dos acontecimentos ali narrados, pois a fé já era suficiente para afastar qualquer argumento que pudesse pôr em dúvida a integridade das Escrituras. Mas, no início do século dezenove, a descoberta de tabletas de argila, contendo textos em escrita cuneiforme, na biblioteca do imperador assírio Assurbanipal (668-627 A.E.C.), na cidade de Nínive, vai mudar a forma de se ler a Bíblia. 
Entre esses textos, chamou a atenção dos estudiosos as aventuras de um rei sumério chamado Gilgamesh, devido as semelhanças de seu conteúdo com as histórias contadas na Bíblia. O mais surpreendente é que aqueles textos eram mais antigos do que a própria Bíblia. O Mito de Gilgamesh é a obra literária conhecida mais antiga da Humanidade, e suas primeiras versões são do Período Babilônico Antigo (2000-1600 A.E.C.). Entretanto, segundo muitos especialistas, aquelas narrativas eram bem mais antigas, e provavelmente já existiam por volta do ano de 2700 A.E.C., época em que o herói Gilgamesh teria vivido.
Por ser a obra literária mais antiga que se conhece, os pesquisadores concluíram que ela exerceu forte influência em muitas obras posteriores, como a Ilíada e Odisseia de Homero (séculos VIII e VII A.E.C.) e, sobretudo, nos primeiros livros da Bíblia, que só começariam a ser escritos no primeiro milênio A.E.C., ou, como acreditam os modernos, a partir do século sete A.E.C. Ao fazermos as comparações entre Gilgamesh e a Bíblia, notamos que as histórias narradas em Gilgamesh ganharam versões muito parecidas na Bíblia, e, embora com elementos e nomes de personagens diferentes, as ideias são as mesmas.
Além da literatura sobre Gilgamesh, outro fato aconteceu para que muitas histórias contadas na Bíblia começassem a serem vistas como plágios de lendas antigas: o estudo das religiões comparadas. Estudiosos como Joseph Campbell e Otto Rank perceberam que contos parecidos aos registrados na Bíblia já existiam em povos tão distintos como os sumérios, babilônicos, chineses, egípcios, fenícios, gregos, etc. 
Por exemplo: um homem que escreve um código de leis a mando de um deus era comum entre os antigos. Atribuir uma legislação a um deus dava mais credibilidade e autoridade ao que o rei ou profeta pretendiam impor ao povo. A lenda do semideus que nasce de uma virgem fecundada por um deus, que fará milagres, e depois ressuscitará dos mortos e subirá ao céu existia em abundância em diversas culturas pré-cristãs. O inferno, que o ex-papa Bento 16 acredita existir e não ser uma metáfora, já era conhecido pelos egípcios, onde Amut, um demônio com cabeça de crocodilo e o corpo com partes de leão e hipopótamo devorava os condenados. 
Graças às descobertas arqueológicas, aos estudos de religiões antigas e às luzes da crítica moderna, muitos leitores da “Sagrada Escritura” passaram a vê-la como uma reunião canhestra de diversas fontes, e que sua verdadeira inspiração não veio do Céu, mas das mais variadas culturas que a precederam.

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