Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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O juiz e a “reversão sexual”

A liminar de um juiz federal de Brasília autorizando o “tratamento” para homossexuais que desejam reverter sua orientação sexual gerou acalorados debates. O juiz agiu para satisfazer uma ação popular movida por psicólogos defensores da reversão sexual.
Por mais que alguns tentem amenizar, destacando que a liminar não se refere à homossexualidade como doença, nem esteja propondo a reversão sexual de gays, temos que lembrar que o pedido feito ao juiz partiu de uma psicóloga que defende a “cura gay” e que trabalha para o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) na Câmara, cujo padrinho político é o líder evangélico Silas Malafaia.
Muitas pessoas ficaram desconfiadas (outras têm certeza) de que o real motivo do pedido foi de permitir que os psicólogos que desejarem realizar terapias de reorientação sexual possam fazê-las sem serem importunados ou punidos.
Se a decisão do magistrado for aprovada e virar lei (o que sinceramente acho que não vai acontecer, ainda bem) teremos um batalhão de psicólogos tentando curar homossexuais e fazê-los “virarem” héteros.
Mas, será que é possível reverter a orientação sexual de uma pessoa? A maioria dos cientistas e psicólogos acredita que não. Anos de estudos científicos comprovaram que o esforço de pais para suprimir as tendências homossexuais de seus filhos foi praticamente em vão; só o que conseguiram foi trazer mais sofrimento, angústia e sentimento de culpa a eles e a seus filhos.
Acreditar que um tratamento vai transformar um gay em hétero é a mesma coisa que acreditar que pode transformar um hétero em gay. Uma lei permitindo o tratamento para reorientação sexual só iria reforçar na sociedade a ideia já bastante arraigada de que a homossexualidade é moralmente errada, coisa de depravados. E não é. A homossexualidade é somente mais uma, entre tantas manifestações da sexualidade humana e faz parte da vida de cerca de 10 a 14% da população mundial.

Em meus estudos sobre religião, encontrei a causa da aversão por homossexuais na Bíblia. De acordo com Levítico 20,13, Deus disse: “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos de morte”. E o apóstolo Paulo (Romanos 1,24) diz que homens e mulheres homossexuais devem morrer conforme diz a Lei. Essas mensagens homofóbicas, repetidas à exaustão durante séculos pela Igreja e por teólogos, formaram gerações de cristãos fortemente convencidos de que a homossexualidade é pecado.
Acontece, caros leitores, infelizmente poucos sabem, a lei mosaica (lei de Moisés) não foi dada por Deus. Seus autores foram os sacerdotes judeus, sem apoio de Deus. Atribuir a autoria de uma legislação a Deus era um artifício comum na Antiguidade, pois dava mais autoridade e credibilidade à Lei. Tal recurso foi utilizado por dezenas de “reis legisladores” muitos séculos antes da Bíblia aparecer. Como as pessoas daquela época eram incultas e facilmente manipuláveis, não foi difícil convencê-las de que estavam vivendo sob a legislação de um deus.
Num estado laico e democrático, não queimam mais homossexuais em praça pública, como fizeram no passado. Na ausência de fogueiras, o martírio imposto aos homoafetivos é de outra forma, mais velada, mas não menos cruel: proibi-los de amar seus iguais e fazê-los acreditar que seus sentimentos são errados e que necessitam de tratamento. Na verdade, quem precisa de tratamento (urgente) são as pessoas que ainda acham que homossexualidade é doença ou pecado.
Homossexuais só querem ter o direito de amar e serem respeitados. Só isso. Em vez de ficarem tentando abrir brechas para que os psicólogos possam “curar” os gays, deviam fazer com que eles se aceitassem e não se envergonhassem dos sentimentos que trazem. Porque o amor não é motivo de vergonha, e sim de júbilo. 

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