Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Blogs

Intolerância religiosa (JE 307)

O aumento da intolerância religiosa no mundo é um dos grandes males desse início de século. É como se uma nova Idade Média estivesse se descortinando entre nós.
A intolerância não mata apenas corpos. Mata também a liberdade e o direito das pessoas de escolherem a vida que desejam levar.

Em meu livro “Crimes em nome de Deus” (Editora Multifoco, 2015) mostro que as principais vítimas da intolerância religiosa são as crianças, as mulheres, os homossexuais, os ateus e agnósticos.

Muitos países ainda praticam a mutilação genital feminina em crianças. O objetivo é eliminar o desejo sexual, para que ao crescer, a mulher não se torne prostituta, como são chamadas nesses locais as mulheres que fazem sexo antes de casar, além de garantir que cheguem virgens ao casamento.

Em países da África, é comum a mulher solteira que não é virgem ser expulsa de casa ou até morta. Quase nunca os assassinos são presos, pois estão amparados pelo argumento da “legítima defesa da honra”.

No Brasil, a cada dois dias, um homossexual é morto. Muitos homossexuais levam uma vida de sofrimento por causa de uma sociedade que não aceita que eles tenham os mesmos direitos dos héteros.
Ateus e agnósticos são discriminados pela maioria dos religiosos. Uma pessoa pode ser boa e honesta, mas se não crê em Deus, não presta. É isso que a religião ensina e é isso que a maioria das pessoas acredita.
Até os religiosos são vítimas de intolerância. No Brasil, membros de religiões de matriz africana são os mais perseguidos e humilhados por questões religiosas, segundo as pesquisas. Muitos católicos desprezam evangélicos e vice-versa.

Muçulmanos sunitas e xiitas se matam por desavenças de interpretação dos textos sagrados.
Cerca de cem mil cristãos são mortos por ano só porque são cristãos. A maioria vítima de extremistas muçulmanos.
O número foi anunciado pelo sociólogo Maximo Introvigne, coordenador do Observatório de Liberdade Religiosa, da Itália.

Na Antiguidade, era comum a convivência pacífica entre pessoas de diferentes credos. Todavia, uma nova religião estava se desenvolvendo, e esta não seria de modo algum simpática àqueles que tivessem outras crenças: o judaísmo.

Nenhuma outra religião foi tão intolerante quanto o judaísmo. Sua doutrina homofóbica, misógina, xenófoba, e contrária à liberdade de crença e opinião repercutiu em outras duas grandes religiões: o cristianismo e o islamismo.

Embora o Novo Testamento tenha trazido uma mensagem mais caridosa em relação ao A.T., ele manteve a intolerância contra todos que não ouvissem a “palavra” e não seguissem Jesus. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16,16). A mensagem é clara: não importa se você for bom; não passou pela pia batismal e não é cristão, vai para o inferno.

O Corão, nos versos mais antigos é tolerante com os outros credos (ver sura 2,62). E afirma: “Não há imposição quanto à religião” (sura 2,256). Ou seja, Maomé proibia que a fé fosse imposta à força. Mas, à medida que mais pessoas se convertiam ao islã, e seu exército se tornava poderoso, o discurso foi mudando.

Nos versos mais recentes, a ordem é não fazer amizade com os infiéis (sura 3,28), matar quem abandona o islã (sura 4, 89) e aniquilar os idólatras (sura 9,5).

Outra grande religião é o hinduísmo. O Código de Manu não aceita relações homossexuais, rebaixa os dalits à condição sub-humana, e manda expulsar da cidade “os religiosos heréticos”.

As religiões que dominam o mundo atualmente, cristianismo, islamismo e hinduísmo, contêm em seus textos valores que se digladiam constantemente: amor ao próximo e ódio aos que pensam diferente convivem às vezes na mesma página.

Muitos autores têm proposto um processo de purificação nas religiões, para que os bons ensinamentos sejam mais valorizados e os maus sejam deixados para trás. Acreditam que só assim poderemos ver um mundo livre da intolerância religiosa.

 

Please publish modules in offcanvas position.