Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Inferno – a teologia do medo

A palavra inferno origina-se do vocábulo latino “inferus” (lugares baixos), cujo significado corresponde ao local de castigo para os maus numa vida após a morte. E quem são os maus?

Nas tradições religiosas, são aqueles que agem em desacordo com as leis de Deus. Nas religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo -, os maus são aqueles que, além de não obedecer à lei de Deus, se recusam a acreditar e prestar adoração exclusiva a esse Deus.

Assim, mesmo que uma pessoa seja boa e honesta, mas não crê, ou não presta culto ao deus verdadeiro (que depende da parte geográfica do planeta em que ela se encontra), essa pessoa irá para o inferno. Segundo essa doutrina, o mais importante é crer, seguir as regras e adorar a Deus, e não o caráter e a bondade.

Por exemplo, um crente que estuprou e matou dez criancinhas, escapará do castigo, se no último minuto de vida se arrepender e confessar seu amor a Deus. Já
+um ateu, agnóstico ou devoto de uma religião falsa (aquela que não é a predominante de um país ou cultura) por mais que tenha sido bom nessa vida, será encaminhado aos portões do inferno, sem direito à apelação no tribunal celeste.

As Escrituras dizem que Deus perdoa todas as nossas falhas, menos a descrença.

Não se sabe quando o conceito de castigo para os mortos foi introduzido nas comunidades humanas, mas há cerca de seis mil anos, os sumérios já falavam que a vida após a morte se passava numa existência deplorável, em meio à dor e sofrimento. No inferno do antigo Egito, os maus eram devorados pelo demônio Ammit, cuja cabeça era de crocodilo e o corpo formado com partes de leão e de hipopótamo. Os gregos temiam o Tártaro, lugar de eterno sofrimento.

No judaísmo antigo, algumas seitas rejeitavam a doutrina da imortalidade e punição. Mas, depois que os judeus voltaram do cativeiro babilônico (século 6 a.C.) e já influenciados pelo zoroastrismo, os rabinos introduziram em sua teologia as doutrinas de céu, inferno, ressurreição e juízo final.

Esses novos saberes seriam mais tarde assimilados por Jesus. O evangelista Mateus nos informa que no fim do mundo: “...os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes.”

 

Comparado ao inferno cristão, o salão de castigos muçulmano é infinitamente mais assustador: “Quanto àqueles que negam os nossos versículos, introduzi-los-emos no fogo infernal. Cada vez que a sua pele se tiver queimado, trocá-la-emos por outra, para que experimentem mais e mais o suplício.” (sura 4,56). “Quanto aos incrédulos, serão cobertos com vestimentas de fogo e lhes será derramada, sobre as cabeças, água fervente...” (sura 22,19).

Os críticos dizem que Deus, sendo bom e piedoso, jamais puniria um único filho seu de forma tão terrível, como pregam as religiões. Os conservadores insistem que o inferno existe, mas não é Deus quem envia o pecador para o inferno, e sim o próprio pecador é quem escolhe ser separado da graça divina. Contudo, de acordo com a Bíblia, quem manda alguém para o inferno é Deus: “Pois Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo.” (2 Pedro 2,4).

Há uma linha de pensamento na qual se diz que Jesus se referia ao inferno não como um lugar, mas como uma metáfora para o sofrimento que sentimos em decorrência de nossos maus pensamentos e ações. Com o tempo, a Igreja teria copiado a ideia de castigo eterno das religiões pagãs e a transformou no inferno que lemos nos evangelhos.

Para especialistas em história da religião, o inferno foi uma genial invenção da classe sacerdotal para melhor manter o povo quieto e fiel às suas regras. Real ou ficção, a notícia dessa prisão eterna foi tão bem divulgada, que até hoje mais da metade da população mundial acredita no inferno.

Como os teólogos costumam rever doutrinas que se revelam antiquadas, quem sabe um dia eles rejeitem a existência do inferno, como fizeram séculos atrás, quando decidiram que a mulher também tinha alma, ou com o limbo, outro andar do edifício celeste, que foi demolido em 2007 depois de várias décadas de sérias discussões pelos doutores da Igreja.

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