Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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MISOGINIA

Para entendermos a violência contra a mulher precisamos voltar no tempo, e visitarmos os primeiros agrupamentos humanos, quando não havia o ciúme sexual, o sentimento de superioridade masculina sobre o feminino e predominavam as uniões grupais: os homens podiam ter várias mulheres e as mulheres vários homens.

Os filhos ganhavam os cuidados de todos os adultos, já que não se sabia como uma criança era gerada, nem quem era o pai. Pensava-se que um bebê vinha ao mundo por obra de espíritos invisíveis. A mulher era envolvida num caráter mágico, pois tinha o dom de tirar de dentro dela outro ser igual a eles.

Com a chegada do Neolítico há cerca de oito mil a.C., o homem deixou a vida nômade de lado e começou a domesticar alguns animais. E, eis que o homem descobriu que tem participação na geração de uma criança. Isso aconteceu através da observação do comportamento dos animais. Notou-se que a ovelha só emprenhava se houvesse o macho do lado. Foi o pulo do gato para o homem perceber que sem ele, a mulher não podia procriar.

Essa descoberta provocou a maior revolução nas relações entre homem e mulher. Antes, ela era considerada um ser mágico, daí todo aquele respeito e veneração pela mulher. A maioria das estatuetas encontradas antes do Neolítico representa entidades femininas.

A Grande Deusa reinava absoluta. Esqueça aquela imagem do homem com uma clava arrastando a mulher pelos cabelos: pura ficção. A mulher é destronada quando o homem aprende que ele também é importante para o nascimento de uma criança. Ele ainda não relacionava o líquido seminal com a gravidez, mas sabia que se ele não copulasse com a mulher, ela não engravidava.

É inaugurado o sistema patriarcal, e com ele, o ciúme sexual. Temendo que a mulher engravidasse de outros homens, ele proibiu que a mulher tivesse outros parceiros além dele (uma hipótese é que ele queria ter certeza de que os filhos eram seus para lhes passar mais tarde suas propriedades).

 

 

Em todas as sociedades patriarcais antigas, vemos um completo domínio do masculino sobre o feminino. Os primeiros códigos da humanidade davam direito ao marido de vida e morte sobre as esposas. Mas é com a inauguração do judaísmo que a situação da mulher ficará ainda pior. Já em seus primeiros capítulos, a Bíblia ensina que a mulher é um ser inferior ao homem, e vale menos do que ele. Quando são expulsos do Paraíso, Javé diz à mulher que ela estará sob o domínio do homem. (Gênesis 3,16).

O Código de Moisés compara a mulher ao jumento, e a trata como mais uma propriedade do homem: “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.” (Êxodo 20,17). A Lei mandava apedrejar até a morte a noiva que não guardasse a virgindade para o futuro marido (Deuteronômio 22,13).

Toda cautela é pouca quando se está no meio de mulheres, diz Eclesiastes, porque elas não são confiáveis: “Eu descobri que a mulher é coisa mais amarga que a morte, porque ela é um laço, e seu coração é uma rede, e suas mãos, cadeias. Aquele que é agradável a Deus lhe escapa, mas o pecador será preso por ela... encontrei um homem entre mil, mas nenhuma mulher entre todas.” O profeta Isaías (3,16) disse que Deus castigaria as mulheres por serem vaidosas e sensuais.

O apóstolo Paulo revela em suas cartas seu profundo caráter misógino e horror ao sexo. Paulo achava que o casamento não era importante: “Não estás casado? Não procures mulher”, e sugeriu que todos se abstivessem do sexo: “Penso que seria bom ao homem não tocar mulher alguma.” Disse que ela deveria ser submissa ao homem (Efésios 5,22); ficar calada e nunca querer ensinar o homem (I Timóteo, 2,12).

Jesus bem que tentou aliviar o fardo das mulheres, aceitando-as como discípulas, inclusive prostitutas. Enquanto o Antigo Testamento mandava apedrejar adúlteras, Jesus impediu que uma delas fosse morta. Ao examinarmos os Evangelhos, vemos que Jesus tinha um carinho especial pelas mulheres.

Comparada com outras culturas, a mulher ocidental sem dúvida tem mais direitos e liberdade. Mas a misoginia, verdadeira praga infiltrada na mente de muitos homens, ainda está longe de ser erradicada. Para haver uma verdadeira igualdade de direitos entre a mulher e o homem, é preciso que a sociedade em geral entre em definitivo no século XXI, e rompa com o passado patriarcal e sexista, cujo legado ainda produz efeitos danosos sobre as mulheres.

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