Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Histórias da Educação

EDUCAÇÃO MODERNA E NACIONALIZADORA

 

Na imagem acima expressa a atividade pedagógica de uma escola municipal de Corupá, Santa Catarina, realizada na década de 1930. Nela há indícios de se tratar da prática da pedagogia moderna - um progresso, reconhecidamente, para aqueles tempos -, uma vez que é notória a superação de um modelo pedagógico centrado na sala de aula e no enfileiramento dos alunos.

A imagem nos dá elementos que indicam tratar-se de um exercício que destaca as “novas ideias”, desenvolvido ao ar livre, com a disposição dos alunos em círculo, defendendo um ensino que privilegia os aspectos corporais e sensitivos.

Por outro lado, também se observa o ensino de uma identidade nacionalizada, de um sentimento de adoração, veneração e devoção ao Brasil, com a bandeira nacional no centro da atividade, o objeto da cultura material escolar para atingir os fins nacionalistas de escolarização.

Não se nega o paradoxo dessa construção. Moderna, porque trabalha a dimensão intuitiva do aluno, defendendo a aprendizagem pela observação direta das coisas, do seu manuseio, do ver, sentir e tocar, a perceber o mundo exterior “a partir dos quais seriam produzidas sensações e percepções sobre fatos e objetos, transformadas em matérias-primas das ideias, as quais, acrescidas da imaginação e do raciocínio, possibilitariam o desenvolvimento da capacidade de julgamento e de discernimento” (TEIVE, 2008, p. 137) . Conservadora, porque incutia na criança o sacrifício pela nação, os seus deveres como cidadão à pátria e amor ao Brasil, uma educação moral e cívica, forjada pelo Estado, com foco central no ensino primário.

Essa alternância de (in)evolução no método pedagógico da época deixam perguntas: será que havia um movimento de modernização do ensino ou será que tal prática era meio para consolidar e estimular os objetivos pedagógicos de nacionalização?

Ao que parece, a educação estabelecia-se com o intuito de formar cidadãos saudáveis e produtivos, menos arbitrária e mais aberta às necessidades do educando – é verdade -, mas calcada no escopo de docilidade e obediência para a “homogeinidade cultural”, conclamada pelo governo getulista e colocada em marcha por Nereu Ramos, interventor do Estado de Santa Catarina de 1937 a 1945. Trata-se de um momento singular de autoritarismo na sociedade e no sistema nacional de ensino, no qual o ensino era baseado sobre fatos e experiências nacionalistas para a aquisição de (apenas) uma identidade cultural.

Enfim, atrelada à disciplinarização do corpo infantil no ensino primário, práticas pedagógicas “modernas” tinham também em seu horizonte a necessidade de inculcar e fazer penetrar na mente dos (as) alunos (as) uma crença a qual todos trabalhariam para promover e divulgar, a chamada identidade nacional.

Em síntese, a história da educação no país passa por momentos como este retratado, em que há dualidade de proposições e perspectivas para a efetivação de práticas pedagógicas mais inovadoras. Há avanços e recuos que prejudicam um avanço educacional de qualidade.

Referência
TEIVE, Gladys Mary Ghizoni. Uma vez normalista, sempre normalista: cultura escolar e produção de um habitus pedagógico - Escola Normal Catarinense - 1911-1935, Florianópolis, Editora Insular, 2008.

 

Daniele Hungaro da Silva* é  doutoranda em Educação pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2017). Mestra em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2015). Atualmente atua como professora efetiva no Cerfead/IFSC dedicando-se a formação de professores na modalidade EaD e a pesquisa na seguinte área de concentração: Fundamentos histórico-epistemológicos da educação no Brasil, com temas que versam sobre cultura escolar e história do tempo presente

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