Bourdieu e a Escolarização (1ª parte) (Edição Setembro/2007)

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     Entre os sociólogos franceses da segunda metade do século XX, Pierre Bourdieu (1930-2002) destacou-se por sua obra versátil e profunda, que teve recepção em vários países, bem como por seu engajamento político. Além de refletir sobre o campo da alta cultura e criar novos conceitos que oxigenaram a sociologia, ele produziu vários artigos e livros sobre a questão das desigualdades escolares.

     A primeira grande obra de Bourdieu sobre educação escolar é “Les Héritiers” (Os Herdeiros), escrita em parceria com o sociólogo Jean-Claude Passeron e publicada em 1964. Nesta obra de quase duzentas páginas – creio que ainda não traduzida para a língua portuguesa – Bourdieu e Passeron procuram compreender a ação dos fatores culturais na tessitura das desigualdades no processo de escolarização. Nesta obra, eles estudam as diferentes atitudes dos estudantes das faculdades de Letras na França, no início da década de 1960, vinculadas, estreitamente, às suas origens sociais.

     Grosso modo, os sociólogos franceses constatam que, enquanto os estudantes de classes abastadas têm uma atitude diletante em relação à cultura escolar, os alunos oriundos das camadas médias/populares pautam-se pelo esforço e ascetismo na realização do curso superior. Os primeiros herdam uma “atmosfera cultural de família”, aquirida por meio da freqüência sistemática aos museus, teatros e cinemas, da leituras de livros e revistas e da convivência no circulo familiar e social. A familiaridade com as obras de arte adquirida de forma lenta e progressiva no seio familiar confere a esses estudantes “privilégio cultural”, que distingue-os dos outros alunos das faculdades de Letras e faz a diferença no seu desempenho escolar. Desta forma, Bourdieu e Passeron fizem uma “sociologia das desigualdades sociais diante da escola”. 

     “Les Héritiers” teve grande divulgação na França após o seu lançamento e passou a ser uma referência na área de Sociologia da Educação. No entanto, essa obra ganharia ainda mais destaque com o movimento de maio de 68 e seus desdobramentos políticos. Os estudantes que protestaram contra as relações autoritárias nas instituições sociais, particularmente aquelas dedicadas à educaçao, apropriaram-se sobremaneira da crítica formulada na obra de Bourdieu e Passeron em relação à pedagogia tradicional francesa. É importante sublinhar que o foco da problematização de “Les Héritiers” é o processo de (re)produção das desigualdades sociais pelas instituições escolares, a partir da análise do caso das faculdades de Letras na França.   

     As reflexões sociológicas de Bourdieu e Passeron acerca do sistema escolar enunciadas em “Les Héritiers”, foram desdobradas e ampliadas em outra obra marcante chamada “La reproduction”, que será comentada na coluna do próxima mês.