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Histórias da Educação

Bourdieu e a Escolarização (2ª parte-Direto da França) (Edição Outubro/2007)

     Em 1970, seis anos após o aparecimento de "Les Héritiers", Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron publicaram "La Reproduction: éléments pour une théorie du système d`enseignement". Trata-se de uma obra sociológica densa e ampla sobre os mecanismos de reprodução social do sistema de ensino, que teve um forte impacto político na França e foi traduzida para vários países. No Brasil, ela foi lançada em meados da década de 1970, sob o título "A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino".

     Para compreender o efeito cortante de "A Reprodução" é importante levar em conta a conjuntura educacional da França nos anos 1960. As reformas do ensino de 1959 e 1963 proporcionaram um grande crescimento da rede pública francesa - com destaque para o ensino secundário - que estava vinculado aos "anos de ouro" da economia francesa e mundial. Desta forma, na "década da rebeldia", os ensinos primário e secundário foram estendidos à grande maioria dos cidadãos franceses, fato que o historiador Antoine Prost chama de "democracia quantitativa". Em geral, essa "explosão escolar" provocou um clima de aposta no caráter republicano e democratizador da educação escolar.

     "A Reprodução" problematiza justamente essa crença na "escola libertadora", procurando argumentar que o sistema de ensino contribui, decisivamente, para a reprodução das desigualdades sociais. Nesta direção, a instigante obra "Bourdieu & a educação", de Maria Alice Nogueira e de Cláudio Martins Nogueira, afirma:

     "Bourdieu compreende a relação de comunicação pedagógica (o ensino) como uma relação formalmente igualitária, que reproduz e legitima, no entanto, desigualdades pré-existentes". Desta forma, para os sociólogos franceses, as desigualdades sociais são reproduzidas no interior da escola, na medida em que a sua cultura (formada por saberes e habilidades) é apropriada mais facilmente pelos alunos de classes sociais privilegiadas, favorecidos pelas suas atmosferas sócio-familiares.

     A obra de Bourdieu e Passeron de 1970 nunca foi unanimidade na Sociologia da Educação. A principal crítica a esse livro coloca o foco sobre o seu caráter excessivamente determinista - e até niilista. Entre os seus principais críticos franceses pode-se citar Antoine Prost, Raymond Boudon e Bernard Lahire. Alguns trabalhos procuram mostrar que há êxito escolar entre as classes populares e, por outro lado, um punhado de alunos das classes abastado fracassa nas suas trajetórias escolares. Seriam exceções que confirmam a regra? O debate está aberto, devendo ser fundamentado tanto na complexa teoria bourdieusiana como em significativos dados empíricos.

     A dura crítica de Bourdieu e Passeron formulada em "A Reprodução" tem provocado um saudável debate sobre o sistema de ensino, envolvendo revisões nas diferentes dimensões do currículo, como a avaliação, as metodologias, as disciplinas escolares. Ela continua eficaz para pensar as gritantes desigualdades sociais e escolares na sociedade brasileira.