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Histórias da Educação

BOURDIEU E A ESCOLARIZAÇÃO (parte final) (Edição Novembro & Dezembro/2007)

     Nos anos 1980, Pierre Bourdieu lançou dois livros instigantes sobre o ensino superior. Trata-se de "Homo academicus" (1984), sobre os professores universitários, e "La noblesse d`état: grandes écoles et esprit de corps" (1989), em que o sociólogo francês coloca o foco sobre os cursos superiores de elite na França.

     Este artigo vai tecer algumas considerações sobre a segunda obra, devido à sua densidade teórica e ao seu questionamento em torno da democratização da educação.

     Para compreender "La noblesse d`état" é necessário diferenciar dois mundos no ensino superior francês: as universidades e as chamadas "grandes écoles". As primeiras são instituições de massa, abertas aos jovens que são aprovados no "baccalauréat", o exame obrigatório no final do ensino médio francês.

     Nos últimos anos, mais de 80% dos estudantes foram aprovados no "bac" - abreviação popular do "baccalauréat". Por outro lado, as "grandes écoles" são instituições de ensino superior dirigidas a uma elite estudantil, cujo ingresso é feito por concurso público. Este exame hiper-seletivo é preparado nas chamadas "classes preparatórias", que tem dois ou três anos de duração e são realizadas, nos liceus franceses de maior prestígio, após o ensino médio.

     Em "La noblesse d`état" Bourdieu constata esse dualismo escolar no ensino superior francês, dedicando-se, sobremaneira, à análise sociológica das "grandes écoles". À partir de vasta e diferenciada base empírica e de conceitos inovadores e férteis, o sociólogo francês verifica que o elitismo das "grandes écoles" tem claras origens sociais. Ou seja, os privilégios educativos conferidos pelas "grandes écoles" aos estudantes das classes privilegiadas são construídos anteriormente, no seio familiar e também na trajetória escolar pré-universitária desses estudantes, realizadas em colégios de elite tanto do sistema público francês (e eles existem, diferentemente do Brasil!) como das redes privadas.

     Para construir a análise sociológica da elite das "grandes écoles", além de se apropriar do conceito de capital econômico, Bourdieu utiliza conceitos que ele criou para compreender as desigualdades sociais, como capital social e capital cultural.

     Como afirmam Maria Alice Nogueira e Cláudio Nogueira no livro "Bourdieu & Educação", capital social "se refere ao conjunto das relações sociais (amigos, laços de parentesco, contatos profissionais, etc) mantidos por um indivíduo". O capital cultural é um conjunto de objetos, conhecimentos e habilidades que o indivíduo adquire paulatinamente nas diversas instituições sociais às quais ele tem vínculo, especialmente a família. Esses conceitos bourdieusianos, portanto, refinam a compreensão das desigualdades escolares no interior do sistema de ensino.  

     Enfim, em "La noblesse d`état", Bourdieu conclui que as "grandes écoles" são dirigidas à alta burguesia e socialmente fechadas como a nobreza do "Antigo Regime" - período anterior à Revolução Francesa. Desta forma, este livro se constitui numa crítica aguda à idéia de "escola libertadora".

 

 

 

 

*Professor na UDESC e autor de "A fabricação escolar das elites: o Ginásio Catarinense na Primeira República" (Editora Cidade Futura). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.