Jornal da Educação - JE ISSN 2596-223X - online -

Jornal da Educação-JE ISSN 2237-2164   impresso

Histórias da Educação

Colégio Estadual Dias Velho: entre saberes e práticas, um marco na história

Escrito por Stephanie Kreibich Pinheiro (UDESC) e Tainara Lemos das Neves (UDESC)
 
 
O ensino secundário, desde o período imperial, representava uma forma escolar com um objetivo definido: a educação da elite. Mesmo com a República, esta concepção prosseguiu sendo este nível de ensino o responsável, entre outros, por uma formação cultural geral e humanística dos indivíduos, futuros condutores da sociedade. 
É, pois, instigante analisar aspectos referentes à acessibilidade deste ensino pelas classes médias e desfavorecidas por meio dos estabelecimentos de ensino secundário públicos e gratuitos. No contexto catarinense, o Colégio Estadual Dias Velho (CEDV), localizado em Florianópolis, teve relevância. A partir de 1947, com o oferecimento do curso ginasial, o então CEDV passou a oferecer ensino secundário público, gratuito, misto e laico, marcando o cenário educacional catarinense com seu caráter diferenciador perante os demais estabelecimentos de ensino - confessionais e privados - da época.
O ensino secundário no CEDV mostrava-se dirigido a um grupo social bastante diversificado, composto principalmente por adolescentes de classes médias e populares, que não tinham condições de pagar tal nível de escolarização oferecido pelos demais educandários de Florianópolis, bem como atendia adolescentes de famílias oriundas de outros municípios e estados brasileiros. Além disso, o colégio oferecia aulas no período noturno, facilitando para que aqueles que trabalhavam durante o dia pudessem realizar os cursos do ensino secundário.
Por se tratar de um estabelecimento de ensino público a forma de seleção de professores era por meio de concurso público. Dessa maneira, o corpo docente do CEDV era extremamente marcado por uma heterogeneidade política e pedagógica, sendo formado por professores positivistas, livres-pensadores e de tendências comunistas. Embora houvesse um clima de unidade e de respeito entre o professorado, o grupo dos comunistas diferenciava-se dos demais, inclusive, seus componentes sofreram processos judiciais devido às suas posturas político-ideológicas. 
Dentre vários aspectos notáveis e peculiares do CEDV que o caracterizavam com um perfil de escola mais aberta e liberal, destaca-se a prática da co-educação, ou seja, classes indiscriminadamente destinadas a ambos os sexos, o que indica a modernização e democratização da escola pública e entra em contraste com os demais estabelecimentos confessionais existentes que se dirigiam à educação apenas de meninos (como no Colégio Catarinense) e à educação feminina de elite (como no Colégio Coração de Jesus). Nesse aspecto nota-se também que o número de homens, no CEDV era muito mais expressivo do que o número de mulheres.
O Colégio Estadual Dias Velho, de forma clara, é um marco na história do ensino secundário público catarinense, onde recai não apenas o aspecto da instituição educacional em si, mas, sobretudo, a incorporação e possível definição da trajetória social e profissional de toda uma geração. Compreender e (re)conhecer características da escola pública catarinense vai além do intento de revisitar o passado e nos remete indagações para analisarmos como se configura o cenário educacional público no momento atual.