Jornal da Educação - JE ISSN 2596-223X - online -

Jornal da Educação-JE ISSN 2237-2164   impresso

Psicologia e Educação

A educação escolar e a geração Y: Os desafios do Professor (Agosto/2010)

A Sociedade da Informação trouxe à tona fenômenos espetaculares na tecnologia, nas comunicações e na conduta das pessoas. Com a tecnologia em nossos lares, muitas situações que antes víamos em filmes de ficção estão presentes no cotidiano da família. Eletrodomésticos que facilitam a vida dos pais nas tarefas diárias. Comunicação via computador com o mundo e as notícias (quase todas sem importância, como um elefante encalhado na Zâmbia) chegando instantaneamente, alteraram as dinâmicas familiares.

Com maior tempo, os pais passaram a trabalhar mais horas, ao invés de aproveitarem o tempo que sobrou das tarefas domésticas para conversar e conviver com os filhos.
Um paciente revelou-me o que, para ele, é tempo de convivência em casa. A mãe preparando um prato no seu aparelho de micro-ondas e vendo a novela. O pai vendo televisão via satélite num quarto. A irmã namorando pela internet e este meu paciente jogando um RPG on line. Todos em casa e todos distantes. 
A presença física não garante mais o contato e a interação. Nossos jovens conversam muito entre si, mas pelo computador. Se deixarem, levam seus celulares para a escola e lá conversam com outros amigos, os virtuais, não os que estão fisicamente à sua frente. Se vão até outros amigos, conversam pelos celulares ou via web (também nos celulares) com os amigos da escola. 
Na hora da conversa real, na hora da interação, vemos nestes jovens pessoas inseguras, ansiosas, materialistas e imediatistas; chegam à escola achando tudo um saco.
Aliás, viver, para nossos adolescentes (ida a parques, restaurantes, festas de família, casa de amigos ou qualquer socialização é, para eles, um saco), “está chato”.
Sempre foi chato fazer tais programas. Mas as gerações anteriores faziam a contragosto. A sala para a visita, ou iam, mesmo reclamando, na casa do tio rabugento. Toleravam para não serem castigados pelos pais em casa e ainda davam um jeito de fazer algo gostoso, de se divertir. O isolamento de nossos jovens beira o absurdo. Visitar, conversar, interagir, ir à escola...tudo é chato.
Claro, a escola é chata... muito chata. Como já escrevi nesta coluna outras vezes. Não adianta a escola competir em interesse com TV, games ou internet. A escola deve se adequar. Mas o pior é notarmos que as crianças não toleram mais contrariedades, não lutam nem sequer se esforçam em resolver situações mais complexas, nem se preocupam com os compromissos.
Se isolam, com a conivência de pais impotentes e cansados de tanto se preocuparem com os filhos. E os filhos a cada dia mais tiranos, mais mandões, com pais cada vez mais escravizados pelas vontades dos filhos, fazendo de sua vida um inferno. 
Pior é que estes filhos da geração Y (ou geração “Nescau na cama”) nunca serão capazes de reconhecer o esforço dos pais e se tornarão distantes destes. Eles não aprendem o afeto, pois raramente se frustram (os pais não permitem que se deem mal). Raramente precisam se adaptar às adversidades. Não se esforçam e com isso não conseguem compreender o esforço que a eles foi dado.
Quem não recebe afeto, mas também quem não recebe nãos, passa a ter lacunas emocionais e dificuldades na compreensão e expressão de sentimentos e de relações interpessoais.
Uma geração mimada pela culpa dos pais em estarem ausentes e que compensam com presentes materiais e permissividade. Não morremos mais por religiões ou pela fé em uma divindade. Mas matamos e morremos por nossos filhos.
Que nossos filhos são importantes e os amamos incondicionalmente, isto é fato; mas será que já não é hora de tirarmos nossos filhos do altar sagrado que construímos para eles?
Creio que a escola pode e deve se ater a estes fatos e comprometer pais e família pela e--ducação. Pais que possam ir à escola, que se sintam menos culpados ao aprenderem em conjunto com os professores, que nossos filhos não são feitos de espuma, nem traumatizam com um NÃO.
A escola deveria se preocupar em  montar mini-cursos e palestras ao longo do ano letivo, para estes pais que precisam entender e dimensionar a educação num mundo que muda a cada minuto as suas diretrizes.
Que tal uma escola de pais? Que tal uma escola de pais e mestres?