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Psicologia e Educação

A presença do psicólogo escolar e sua importância (Março/2011)

Gilmar de Oliveira*
 
Estou assustado com o que tenho lido e ouvido dos professores, dos meus pacientes pequeninos com distúrbios de aprendizagem. Isso não é de hoje. Desde que leciono nos cursos de pós-graduação Brasilzão afora, desde que atendo na parte clínica o que vejo, o que ouço, é de arrepiar.

Falo dos destemperos emocionais de professores que, ou se descabelam aos gritos com alunos indisciplinados e partem para o revide, ou pressionam sadicamente alunos com distúrbios de aprendizagem, como se fosse um crime grave não acompanhar o andamento da aula.
Nossos professores, na sua grande maioria, além de saírem de faculdades fracas que não proporcionam domínio de técnicas pedagógicas ou manejo de sala à maioria dos universitários, sofrem para tentar um trabalho ao menos decente nas nossas escolas sucateadas.
Com tal desestrutura nas escolas, com tamanha pressão (até política, muitas vezes) por aprendizagem, por aprovação, por disciplina, por um mínimo de condições de lecionar, nossos mestres desenvolvem os mais diversos distúrbios emocionais e até mesmo orgânicos.
Dentre muitos, os mais comuns: elevada ansiedade, crises depressivas, síndrome de Bornout (esgotamento mental extremo), transtornos de humor, transtornos de afeto, dentre outras variações de conduta que dificultam muito a prática profissional, quando não as inviabilizam. Sem contar nos transtornos orgânicos, mas de fundo emocional: úlceras, insônia, esgotamento, problemas glandulares...
Qual é a classe, dentro das prefeituras e do Estado que mais tem profissionais afastados do trabalho? Qual a classe que mais tem atestados médicos afastando-se do trabalho? Os profissionais da educação, claro. Por que, será?
Assim, penso que mesmo com tão pouca estrutura nas escolas, um dos maiores investimentos que se possa fazer à educação é a contratação de psicólogos escolares. É um investimento na saúde e no equilíbrio das escolas. 
Mas investir na contratação de psicólogos escolares pode ser difícil: trata-se de uma espécie em extinção, pois poucos psicólogos se aventuram em cursos de pós-graduação em psicopedagogia, ou psicologia da educação, nem mesmo por neuropsicologia, para se habilitarem a trabalhar dentro de escola.
Querem clínica, organizacional (empresas), hospitais ou até mesmo mais estudos para passarem nas raras vagas dos concursos que loteiam os fóruns do Brasil. Mas estudar para ser psicólogo educacional é uma escolha que evitam, pois precisam ter vagas e, quando as têm, precisam de salários dignos para seu sustento, o que não ocorre nesta classe.
Quando os futuros psicólogos estudam, evitam dirigir o interesse ou a ênfase nos estágios nesta área. Sabem que pouco há de futuro profissional.
Esta realidade mudaria se aprovássemos leis que obrigassem as escolas a ter em seu quadro efetivo um psicólogo especialista ao menos, e outro, a cada 500 alunos. É uma área da psicologia que existe na Europa e nos países até mesmo menos desenvolvidos que o Brasil, mas que investem em educação para o crescimento da nação.
De nada adianta termos escolas super equipadas com modernos computadores e laboratórios, se nossos professores estão cada vez mais abalados e desestruturados. Porém, um psicólogo não salvaria as escolas do atual sucateamento: isto somente é possível com a profissionalização dos diretores e administradores com concepções organizacionais. 
Mas um psicólogo na escola poderia trabalhar com os professores e demais educadores nas suas questões emocionais, em grupos operativos (por exemplo), trabalharia no desenvolvimento de técnicas educativas mais próximas à realidade cultural da comunidade, trabalharia na promoção da saúde mental de alunos, pais e professores; orientaria pais sobre limites e formas de estudo complementar em casa.
Também veríamos professores bem orientados para trabalhar temas delicados, como a sexualidade. Nas situações conflituosas (muitas, atualmente, o que é lamentável), perceberíamos o trabalho do psicólogo no restabelecimento de uma convivência saudável no ambiente escolar em todas as suas dimensões, poupando nossos mestres de desgastes emocionais hoje comuns.
Sugiro que, ao invés das APPs arrecadarem dinheiro para fazer o que é dever do Estado, que ao menos contratem algumas horas semanais de psicólogos escolares, até que nossos governantes passem a encampar esta ideia. Depende de cada um de nós sugerir e cobrar. 
 
* Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem; Mestre em Educação e Cultura e doutorando em educação.  Endereço eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 
 
Edição nº246 - Março/2011