Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Psicologia e Educação

REFORMA DO ENSINO MÉDIO – SEM PRÓS, SÓ CONTRAS (JE300)

 
Eu realmente vi como urgente e muito necessária a reforma no Ensino Médio. Mas está atrasada, creio que esta reforma nasceu sem os sinais vitais da preparação para o mundo contemporâneo. Não creio que este modelo de Ensino Médio vá melhorar ou atender aos anseios da sociedade globalizada. Muito menos sendo que a responsabilidade do Ensino Médio é dos estados brasileiros, já falidos em tudo, menos na habilidade de produzir corrupção, onde cada estado é expert. 

Os estados conseguem piorar tudo o que põem a mão: hospitais, sistemas educacionais, estradas, defesa do meio ambiente e segurança em geral. 
A reforma educacional nas mãos dos estados será de uma desorganização fatal ao já combalido ensino básico brasileiro. O nível de ensino vai piorar.

Outra questão é que, apensar de eliminar a obrigatoriedade de estudar disciplinas que sejam desnecessárias e desinteressantes (única boa nova), o que cada conteúdo das disciplinas vai ensinar ainda não mudou. 

Nem a forma pré-histórica de se ensinar sem recursos e sem atualizações didático-pedagógicas foi alterada, o que se faz urgente. 
Este caos didático continuará fazendo das escolas os lugares mais detestados do mundo pela maioria do adolescentes e jovens. E reflete naquilo que se aprende e para quê se aprende. 

Não é à toa que o que mais se vê são estudantes largando o Ensino Médio e indo fazer cursos preparatórios para ENEM e fazendo testes supletivos para ganharem o certificado de Ensino Médio. 
Se o MEC não retirasse do ENEM (em 2017) a possibilidade de ter o diploma com 450 pontos em cada área e 500 em redação, a debandada de estudantes abandonando o Médio seria ainda maior. 

Afinal, o que o Ensino Médio objetiva hoje, infelizmente, é apenas capacitar respondedores de provas de ENEM, sem pensar, sem refletir. Eu conheço adolescentes fazendo isso: só cursinho, sem ter de se submeter a notas a cada bimestre ou trimestre e correr o risco de reprovar. 
Para piorar, entram em cena na reforma do Ensino Médio os cursos técnicos profissionalizantes, juntos com as disciplinas dos eixos norteadores. 

Os cursos do PRONATEC foram um fracasso, mesmo pagando para alunos o passe de ônibus e a bolsa, a maioria desistiu. São cursos que pouco ou nada atendem para a formação profissional do jovem. 

E o pior: se estes jovens entram no mercado de trabalho aos 17, 18 anos, com um curso técnico que vale o equivalente ao curso de datilografia (ou cursos profissionalizantes de auxiliar de escritório) nos anos 80, estarão fadados a estudarem à noite nas universidades particulares, se conseguirem pagar seus estudos com o salário que recebem. SE forem estudar. 

De um lado, quem pode, paga cursinho pré-ENEM. Do outro, quem não pode, fazendo Ensino Médio em escola pública, sem a devida estrutura, poucas chances para passar nas boas carreiras, nem se capacitando da forma como deveriam para trabalhar.

Enquanto vemos o “mundo normal” (os países que deram certo) adiando a entrada no mercado de trabalho dos jovens para melhorar a formação, o Brasil induz os mais pobres, que dependem do Ensino Público, a se afastarem das universidades públicas (poucas federais no Brasil oferecem cursos noturnos e os cursos são os de menor procura e menor reconhecimento de carreira) e iniciarem sua jornada de 200 anos até a aposentadoria já fadados aos baixos salários e com dificuldades de acesso à Educação Superior, se dependerem do Ensino Técnico oferecido. 

É a perpetuação das diferenças sociais e do abismo entre ricos e pobres. Estou exagerando? 
Vejam os editais de concursos públicos que pedem cursos técnicos e observem os salários, se algum deles passa de dois salários mínimos. E serviço público ainda paga um tanto mais (“menos pior”). Veja nas agências de emprego quanto um técnico em informática vai receber mensalmente: com experiência: nenhum passa dos 1100 reais. 

A ampla maioria dos estados oferecia, no PRONATEC, cursos sem estrutura de laboratórios, bibliotecas e computadores, cursos sem a devida atualização, com poucos professores gabaritados e com experiência no mercado, afugentando os alunos. Algo vai fazer melhorar quando iniciarem os cursos técnicos do novo EM? 

Por fim, o parágrafo da lei que permite a profissionais com notório saber, mas sem formação para ensinar, possam dar aulas no Ensino Técnico, traz para os gestores estaduais uma porta escancarada para cabides de emprego de seus cabos eleitorais. 

Mas vai piorar: Como farão as escolas com tempo integral aparecerem? Como chegarão a 1300 horas anuais sem escolas em tempo integral? Se as verbas para a Educação congelarão os aportes já em 2018 por 20 anos (lembram?), construirão com vento? 

Sem contar a regulamentação das ofertas das disciplinas e áreas, que será de (ir) responsabilidade dos estados. É uma equação muito complexa, e o resultado, infelizmente, já sabemos.
 

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