Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Psicologia e Educação

Pescadores de interesse (JE 303)

Em uma vila de uma remota ilha, os pescadores não faziam muito esforço para pescar grandes quantidades de peixes. Era lançar a rede e vinha um cardume. Faziam labirintos de pau na maré baixa, a maré alta trazia peixes que se prendiam no labirinto e, na próxima baixa-mar, era só pegar os peixes “perdidos”, até com a mão!

Qualquer isca no anzol era peixe mordendo e sendo pescado. Com fartura de comida, mar calmo, podia-se comer à vontade, secar os peixes e estocá-los, também vendiam para comunidades que não pescavam tanto.

Com o passar dos anos, os peixes começaram a rarear. A cada lanço de rede, menos peixes, e os que vinham, tinham menor valor comercial, menores, tudo piorando a cada dia.

A água mudou de cor, pois uma enchente grande mudou o curso de alguns rios. Os manguezais ao redor estavam sendo alterados e isso mudou a reprodução dos peixes, assim como as correntes marítimas mudaram na região, mar mais agitado, levando os cardumes para longe.

Os pescadores começaram a se preocupar. Passaram a pescar por mais horas. Tentavam redes maiores, mas a quantidade de peixes pescados diminuía a cada dia.

Na assembléia da vila de pescadores, só reclamação. Construíram mais redes, trabalhavam mais. Os peixes não vinham atrás de iscas, pois até então os pescadores jogavam restos de camarão para atrair os cardumes; mas estes não vinham mais à praia.

Se os peixes não são mais pescados, se mudaram o comportamento, então a fome virá. Morreremos todos. Peixes endiabrados! Malditos! Gritavam os pescadores, furiosos e amedrontados.

Será que os peixes não caem mais nas armadilhas? Será que as correntes e mudanças do meio mudaram a vontade dos peixes? Será que pescaram demais?

Ou os pescadores mudam a estratégia de pesca, entendendo as novas correntes, fazendo iscas diferentes, pesquisam barcos que alcancem lugares mais distantes, superam as novas correntes e o mar bravio ou morrem de fome.

Assim é a Educação: Nossos professores sentem que não “pescam” mais os alunos, que estes não mordem mais as velhas iscas de aprendizagem, não se interessam mais, não nadam nas mesmas águas tranqüilas de outrora.

Assim como a culpa não é do peixe por ficar escassa a pesca, a culpa não é dos alunos pelo desinteresse nas aulas. Da mesma forma como o ambiente muda, como rios que mudam de curso, mangues destruídos ou alterados, o ph da água que se altera por ação humana ou da natureza, o ambiente interfere a cada dia mais no interesse das aulas!

Surgem novas mídias de interesse (nos anos 80, o vilão dos professores era a TV, depois o videogame, hoje a internet), as dinâmicas das famílias mudaram (para pior, creio, mas discutirei o tema em outro espaço), o foco de atenção dos alunos mudou. Mas as aulas, em sua grande maioria, continuam as mesmas.

Por isso, a cada dia menos alunos se interessam pela escola. E os assuntos a cada dia se tornam menos interessantes aos alunos que não sabem julgar a utilidade, os benefícios do que lhes expõem, assim como um peixe não sabe analisar se a corrente marítima é melhor que uma isca dentro de uma rede.

Se o mundo mudou, a conduta de busca por assuntos interessantes, por temas que façam sentido na vida dos alunos deve ser mais dinâmica. Não se faz mais aulas interessantes sem pesquisa, sem contextualizar com a realidade. E é preciso muito jogo de cintura para conter o desinteresse, que vem na forma de indisciplina, de conversas, de aulas gazeadas, de desafios malcriados aos professores, de simples negação. 

Estes são sinais de que as suas aulas precisam melhorar e que seu vínculo com os alunos e com a modernidade precisa ser mais bem trabalhado.

Primeiro compreenda a situação, a seguir, conquiste seus alunos, depois, dê sentido prático a cada aula e tente vincular com as demais disciplinas.

Os pescadores de pessoas precisam entender as diferentes mudanças sociais e tecnológicas e parar de vê-las como adversários. Se a culpa continuar nos peixes, os pescadores morrem de fome.

Se a culpa (que nem existe culpa nesta situação) continuar nos alunos, os professores não conseguirão pescar nem com os afiados arpões das ameaças de notas e reprovações.

Na cabeça dos jovens, os youtubers, os novos deuses da época, não precisam de estudo para ganhar milhões. Precisam apenas despertar interesse e desejo, mobilizando pessoas com inovação, sonhos e entretenimento, pois o mundo muda a cada dia e o resto, a criatividade traz.

Pouco se usa de criatividade nas aulas e não exploramos a dos alunos como ferramenta de aprender. Aprendamos com eles.

E com os pescadores, que usam de golfinhos ajudantes a sonares poderosos, para conseguir a farta pescaria que sonhamos sempre.

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