Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Psicologia e Educação

A EDUCAÇÃO INFANTIL E AS PERIFERIAS: ONDE MORA O ATRASO ESCOLAR

A alfabetização em regiões pobres e o evidente atraso do desenvolvimento das crianças nos anos iniciais começaram a me intrigar. Por que crianças pobres, com pais de pouca instrução ou vítimas de negligência educacional (termo que cunhei para descrever a evasão escolar sem o devido resgate, escolas precárias, falta de metodologia e baixa qualidade de ensino) demoram mais ou tem muita dificuldade de se alfabetizar no primeiro ou no segundo ano?
Será que a baixa instrução dos pais ou o fato de não terem boas condições socioeconômicas interfere no desenvolvimento cognitivo? E como se dá esta interferência? É algo cultural? É filogenético ou ontogenético, seguindo os termos de Vitor da Fonseca? Tem a ver com a pouca importância dada à escolarização, por parte de famílias carentes? Ou tem a ver com a falta de planejamento e de políticas públicas de Educação Infantil?
Atualmente moro num bairro de classe média e de universitários da Zona Sul de João Pessoa, capital da Paraíba, próximo a várias universidades, cursinhos e escolas particulares. Um bairro que tem de tudo: shopping, restaurantes, vasto comércio, bancos, hospitais e clínicas, uns 5 postos de saúde e uma UPA enorme. As escolas públicas de maior IDEB da Paraíba estão por aqui. Os postos de saúde são organizados e limpos, com aspecto de novos. Por ter estas condições, atrai um público de renda mais alta. A Prefeitura de João Pessoa acaba de inaugurar um Centro de Educação Infantil (CEI) muito bonito e completo aqui no bairro. Quase na frente do Shopping e da UPA. Um espetáculo! Conta com toda a estrutura, profissionais qualificados, professores treinados, psicólogos, assistentes sociais, pedagogos... salas planejadas, climatizadas, espaço para estimulação necessária às crianças matriculadas.
No início e no fim dos turnos há engarrafamentos de carros novos em frente ao CEI, trancando o trânsito com fila dupla, como se vê em toda escola particular, pois muitos pais podem ter dinheiro, mas carecem de civilidade. Ou seja: o CEI construído neste bairro estruturado oferta vagas para pessoas que poderiam pagar pelo ensino privado. O ideal seria que todas CEI´s fossem ofertados a todas as pessoas, mas esta utopia ainda está longe de nossa realidade. E num país com desigualdades, a prioridade deve ser de estruturar áreas mais carentes. Deixar a maioria da periferia pobre sem nenhum acesso à Educação Infantil é um crime! E este crime cobra o preço: evasão escolar, criminalidade juvenil, pobreza. É visível o atraso das crianças que não tiveram acesso à educação Infantil.
Trabalho, como meus leitores sabem, parte da semana em uma escola da pública municipal, em um bairro muito pobre de João Pessoa. As famílias que ali moram, em grande parte nos conjuntos habitacionais populares, carecem de apoio, estrutura social, planejamento familiar e de escolaridade. Isso reflete na baixa renda e dificuldades de acesso, somado ao tradicional desprezo do Poder Público. Postos de saúde lotados, sem médicos e sem dentistas, as escolas superlotam e o povo fica sem o mínimo de qualidade de vida. Inauguram milhares de apartamentos, sem dotar a região de serviços de transporte, saúde, Educação, saneamento, lazer ou segurança e, o que já era precário, piora!
Os alunos destas regiões sem estrutura e obviamente, sem CEI´s, chegam ao primeiro ano do Ensino Fundamental aos seis anos, com vocabulário muito restrito, problemas nutricionais, sem noção da função da escola, sem socialização, motricidade precária, noções de orientação espacial (fundamentais à aquisição da escrita e da leitura) e temporal e noções matemáticas típicas de crianças abaixo dos 5 anos. Uma defasagem enorme, resultando em déficits de aprendizagem e atraso cognitivo.
Sem estimulação cognitiva na 1ª infância atrasa-se todo o processo de alfabetização. Essas crianças precisam de um grande trabalho de base inicial, desde compreensão da rotina escolar, de convivência, de disciplina, de domínio motor para escrita, de consciência corporal, de letramento, de iniciação à alfabetização. Inclusive de brincadeiras, do lúdico, pois muitas ficam trancadas nos apartamentos, por medo da violência. Muitas desconhecem cores, não seguram o lápis na forma adequada, desenham pouco mais que rabiscos, com esquemas precários de simbolização e de representação gráfica. O que deveria se aprender na Educação Infantil, aos 3 - 4 anos só chega aos seis. Assim, vão se alfabetizar com 9 anos pois, sem estimulação, a plasticidade cerebral fica limitada, atrasando a aprendizagem. Gera-se assim o atraso na aprendizagem da leitura, da escrita e da matemática e do raciocínio em geral. A maioria passa da 3ª série no máximo, silabando.
Só haverá maior qualidade de aprendizagem se os governos construírem CEI´s em massa nas periferias pobres, e não em bairros onde as famílias podem custear o ensino dos filhos. Ou continuaremos a chorar por todas as mazelas das falhas no Ensino Fundamental, causadas pela ausência de acesso à Educação Infantil nas áreas carentes. Quanto mais cedo se ensina, melhor se aprende!

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