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Psicologia e Educação

ESCOLAS CÍVICO-MILITARES: UM FRACASSO ANUNCIADO

Todos sabemos que a disciplina é um dos maiores entraves da educação com qualidade. E que ultimamente as salas de aula estão mais barulhentas, os alunos indisciplinados e mais desinteressados.

Também sabemos que as escolas militares têm um nível educacional e de disciplina acima da média nacional. As vagas são disputadíssimas, pois a maioria dos pais que se preocupa com qualidade e não tem recursos financeiros (ou não querem investir em escolas particulares) procura uma escola pública administrada por militares.

Em geral, tais escolas são gerenciadas pelos militares e mantidas pelo governo dos estados. A outra modalidade é de escolas técnicas ou de formação de oficiais: escolas militares ligadas às Forças Armadas e modelos de excelência. Sabe-se que estão disponíveis apenas aos melhores alunos das melhores escolas, que podem passar no concurso público para ingressar na carreira militar.
O projeto do atual governo, de implantar escolas cívico-militares nas cidades, é mais uma das tantas medidas equivocadas que vimos neste início de governo e fazem os especialistas em Educação perder a paciência. Não dará certo!

Eu cravo a minha opinião em tom de exclamação: Vai dar errado! E não é torcer contra, aliás, bons governos independem de torcida, dependem de eficácia. As escolas cívico-militares só darão certo nas regiões de classe média para cima. Até a classe C, as escolas podem dar certo. Mas em regiões mais carentes, será um fiasco. Claro, o governo mostrará como modelos de sucesso, maquiando os números.

Não, leitor, não sou profeta. A miopia dos técnicos e dos altos escalões do MEC é de dar arrepios em quem tem um mínimo de informação sobre as políticas públicas e o atual mau gerenciamento. E isto mostra que os técnicos do MEC não percebem o perfil das regiões que pretendem implantar as escolas cívico-militares.

Se implantarem as escolas militarizadas em bairros com maior IDH, com melhor qualidade de vida, obviamente, encontrarão famílias mais estruturadas, com acesso à informação, estrutura que facilite o ensino e menor evasão escolar, melhor desempenho nas escolas daí, não resolve o problema educacional, é chutar cachorro morto!).

As escolas militares que dão certo é porque os pais exigem dos filhos que cumpram a disciplina, que cobram notas e boas aulas, pais ligados na formação educacional, por serem melhor instruídos. Conheci e pesquisei o perfil de vários colégios militares no Brasil. Os pais destes alunos são filhos de militares ou entram por sorteio, mas quase sempre o nível socioeconômico é elevado

Agora, vamos ao outro lado: militarize uma escola na favela, seja num bairro de periferia de uma cidade nordestina ou nos bairros mais violentos e pobres de qualquer cidade do Brasil, do Sul, do Sudeste.

Uma escola em um bairro bem pobre, violento, sem alternativas de lazer, de saúde, de renda, sem espaço para atividades juvenis; onde os pais não foram bem instruídos, pois a escola por onde estudaram não transformou suas vidas, não tiveram estrutura para terem profissão, onde a Educação formal não muda nada na vida de ninguém.

Num bairro de famílias excluídas, famintas, sem estrutura, onde a mãe tem 5 ou 6 filhos de pais diferentes, todos eles sumidos, onde ela luta sozinha ou precisa dos filhos ajudando com biscates, porque o Estado não a percebe como cidadã, nem os ex-maridos assumem suas paternidades.

Aí, entrem com coronel, major, tenente e toda a patente. Organizem as filas! Cantem o Hino com a mão no peito! Façam as tarefas, tragam os uniformes limpos. Meninos sem brincos e cabelos curtos, ninguém de tatuagem, meninas de coque e saia. Professores recebidos com honra militar, respeito e civismo. Aulas onde se ouve um alfinete cair no piso, de tanto silêncio. Onde todos estudam e se dedicam.

Sim, isso lá naquele lugar feio, triste, pobre, onde a escola não fez efeito algum. Quando o primeiro aluno mandar o professor tomar %#@**, quando a primeira aluna mandar a professora se @#$%&*, quando trocarem o uniforme por droga, quando quiserem dançar funk descendo até o chão na sala de aula, ou transarem no banheiro, na frente de garotos e garotas fumando maconha, o que farão os militares?

Darão castigos físicos, como nos quartéis? Expulsarão os alunos, perpetuando a exclusão? Chamarão os pais? Terão sorte se os pais vierem, e mais sorte se estes não mandarem criar os filhos, porque “não dão conta”. Na certa seus carros ficarão sem riscos, seus pneus cortados, se não derem tiros na escola, como alerta, por desafiarem os filhos dos traficantes.

Pode entrar qualquer militar, qualquer político demagogo amante de rigor e disciplina: quem resgata esses alunos são professores civis, que correm riscos todos os dias, que dialogam, que fazem das tripas coração para dar um mínimo, para salvarem uns poucos, incluindo, convencendo que a Educação é a saída. Não é com militarismo. É com inclusão. Afinal, o problema não está na escola, apenas reflete nela o que se vê na sociedade onde político não pisa.

Uma sociedade formada longe do apoio do Estado, sem estrutura na região, sem ações positivas e inclusivas, mas cheias de políticos criando e louvando “Mitos” e “Salvadores da Pátria”, trocando voto por dentadura, culpando só o marginal pela bandidagem. A bagunça está em proibir falar de sexualidade, em proibirem a discussão de temas sociais porque possuem “ideologia vermelha”; baderna é espalhar boatos contra professores. Escola militar alguma dará certo, num país onde a parte da sociedade que mais precisa foi abandonada e se governa por redes sociais.

Sobretudo, a indisciplina e a criminalidade são reflexos da falta de políticas públicas, de estrutura das escolas, dos conteúdos escolares sem cidadania, que não atingem a realidade dos usuários. Ali, na escola em plena baderna, está a consequência de uma sociedade esquecida, excluída e marginalizada. Não há farda nem hino que melhore esta situação.