Jornal da Educação - JE ISSN 2596-223X - online -

Jornal da Educação-JE ISSN 2237-2164   impresso

Psicologia e Educação

CURSE MEDICINA A DISTÂNCIA! (Setembro/2008)

Após tantos questionamentos sobre a má qualidade do ensino básico, a bola da vez é a má qualidade do ensino superior no Brasil.
Um dos reflexos dessa situação calamitosa nas faculdades é o baixo nível de aprendizagem e do fracasso no ensino nas escolas de ensino fundamental e médio. Nossos alunos pouco ou nada aprendem na escola, esta é a verdade.
E os professores acham que fazem um bom trabalho, os pais também aprovam o trabalho dos professores, conforme divulgou a Revista Veja, no início de setembro.
Claro que os professores têm sua percepção medida pelos olhos a que foram acostumados a ver, ou seja, se eles saem capengas da faculdade, se praticam como aprenderam,  o resultado só pode ser um ensino abaixo da realidade mundial.
Nas faculdades de nossa região e pelo que tenho ido contato (graças ao site do JE, acessado por educadores de todo o Brasil), do país afora, proliferam cursos sem a mínima base de funcionamento, sem a menor qualidade ou ao menos preocupação com o conteúdo ensinado, com a formação e o perfil do egresso destes cursos.
Para piorar a situação, as faculdades estão investindo pesado no EAD, o Ensino a Distância, na lotação das salas de aula, a diminuição do tempo de curso, principalmente nas faculdades que formam professores e pedagogos.
Nada contra o Ensino a Distância. Funciona, quando se tem um forte órgão fiscalizador por trás, quando se tem um ensino médio de alta qualidade “acostumando” o aluno a exigir mais, a estudar em casa, a ler, a buscar subsídios para pesquisa e formação profissional adequadas.
Quando temos um ensino médio (iniciais minúsculas mesmo; não merece destaque ainda!) tão fraco, quando temos procura por cursos superiores por alunos sem base, faculdades sem supervisão, visando o lucro e o menor custo, o EAD torna-se um desastre!
Estamos formando pedagogos aos montes, milhares de matemáticos e professores de línguas que nunca estiveram em uma universidade, nem inseridos em pesquisas acadêmicas que facilitem a compreensão do desenvolvimento e da cognição nas etapas vivenciadas pela criança, gente que fica sem o preparo e sem a vivência que a troca de experiências de vários professores de uma sala de aula pelos quatro anos de uma faculdade proporciona.
Se já nas faculdades tradicionais o nível dos cursos de licenciatura é paupérrimo, se na modalidade presencial há urgência na reforma da cabeça da maioria dos mestres e doutores, imagine o que virá com educadores oriundos do EAD? Claro: concursos filtram os melhores (teoricamente), o mercado seleciona... Será?
Mas... Por que justamente nos cursos de licenciatura? Naquelas que formam professores e pedagogos? Por que justamente no momento que o país enfrenta uma séria crise na Educação?
Por que então os melhores cursos, os mais concorridos, os escolhidos para dar continuidade na qualidade de vida de nossas classes abastadas, como Medicina, Direito, Odontologia não fazemos cursos à distância também?
Imagine um chat, um fórum sobre o metabolismo da Formação Reticular... Sobre técnicas de micro-cirurgia neurológica: alunos audazes questionando um monitor que pede pela Virgem de Guadalupe pelo Mestre...
Garanto: o Brasil inteiro reclamaria: Por que nos revoltamos com hospitais sujos, lotados e sem médicos e não nos revoltamos assim com nossas escolas quebradas, sujas, lotadas e com ensino sem qualidade?
O Brasil ainda não percebeu que quando o médico erra, mata ou incapacita um paciente por vez. Um dentista inepto destrói a boca de um por vez. Um professor mal preparado acaba aniquilando a vida de dezenas de estudantes a cada aula, a cada entrada de sala, dependendo do conteúdo e do preparo.
Um  mal preparo docente faz com que os estudantes carreguem consigo por muitos anos uma visão parca de mundo, uma condição de submissão às desigualdades sociais e profissionais que o farão, no máximo, sobreviver. Equivale ou se torna pior que erros médico.
Estes carregam marcas visíveis no corpo; os mal-ensinados levam cicatrizes da má-formação na sociedade, proliferam falsos saberes e má-qualidade a todos que o rodeiam.
Então se o estrago é menor na Medicina, na Odontologia, na Engenharia ou no Direito, façamos estes cursos à distância. Educador se faz na sala, aprendendo a ensinar e a receber por meritocracia, por resultado obtido.
Nenhuma profissão sobrevive sem QUALIDADE. E isto só se obtém por seu ESFORÇO e da EXIGÊNCIA DA QUALIDADE no que é ensinado e DA FORMA QUE SE ENSINA!
Eis o desafio da nova geração: exigir e oferecer qualidade na relação ensino-aprendizagem. Ou lute para que tudo fique de qualquer jeito, tal Medicina à distância.