Sobre a Tal Ruindade Docente...(Novembro/2008)

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A reportagem da revista Veja (Editora Abril, Ed.2054 20/08/2008) sobre o “Inssino” (grifo meu) no Brasil (comenta a responsabilidade da má qualidade do ensino no país), ainda é motivo para debates.
Em recente fórum de debates sobre a educação, no qual participei como convidado, muitos educadores citaram o artigo (criticando ou concordando com o texto).
Pensei, então, em trazer tal assunto à tona neste espaço, pois se a sociedade quiser melhorias na educação brasileira, deve refletir a real situação da educação e do ensino e, a partir deste caos, realizar um esforço conjunto, de idéias e práticas que possam garantir o futuro do país.
A educação com qualidade, na qual a escola ensina, aprende e dá ao aluno um sentido a cada tema trabalhado é base da construção de um país justo, próspero e que garanta qualidade de vida à população.
Lendo a reportagem, passei a refletir o quanto somos ruins como educadores e imagino o quanto o país ganharia se todos nós pensássemos assim.
Não precisamos ter vergonha de admitir, pois vergonhosa é a situação das escolas, dos conteúdos e do nosso preparo: ensinamos mal, avaliamos mal (muitos ainda vingam a indisciplina com provas terríveis), os conteúdos dos livros são de pouca serventia no mundo atual e mal trabalhados por autores e professores em sala. Daí o desinteresse do aluno pela escola. Daí o deboche do aluno, a pouca importância que os políticos dão ao tema.
Por motivo de recalque, muitos educadores tampam a realidade, se vêem como bons educadores. Relaxam e permanecem numa perigosa zona de conforto, que impede o aprimoramento e a capacitação.
Não porque queríamos, na faculdade, sair mal formados; os cursos superiores ensinam e formam mal. Somos criativos, isto sim: há professores esforçados e criativos, que transformam a escola e a comunidade, que oferecem opções à triste realidade de muitos dos nossos estudantes, mestres que fazem milagres para garantir visão de mundo e de futuro aos alunos. Mas são pouquíssimos.
Somente são bons os professores que se acham ruins e inacabados a cada dia, mas que lutam para melhorar, com pesquisa, criatividade, interdisciplinaridade e uma prática que venha da leitura bem fundamentada, de literatura técnica, rara nas mãos dos professores brasileiros, abundante nas mãos das melhores escolas do mundo.
Quem se acomoda, recalca. Na educação, acomodar-se é destruir novas gerações.
Nós, professores, quando temos o domínio técnico do conteúdo, pecamos na forma de ensiná-lo. Quando (e se) ensinamos bem, os assuntos em geral não são úteis na vida prática do aluno. Passou da hora de uma ampla reforma didática e de atualização dos conteúdos e respectivos contextos. 
Óbvio: o ideal seria que houvesse parâmetros de liberação de licenças para ensinar, como os advogados. E que houvesse testes e reciclagens obrigatórios anuais para os professores e especialistas.
Estudos constantes de técnicas, avaliações de habilidades e competências e metas pré-definidas por um conselho federal, que pudesse fixar padrões de ensino baseado em regras internacionais de qualidade na educação.
E claro, apertar o cinto, mais ou menos assim: Não tem bom nível? Não entra na escola, não se efetiva, demite-se. Não cumpriu as metas de aprendizagem? Suspende o bônus (que deveria existir para quem cumprisse as exigências do ensino de alto nível) no salário. Faltam técnicas ao professor? Reciclagem obrigatória, suspensão de bônus e custeios! Não deu certo, ele continua mal preparado? Rua. Simples assim.
Lógico que (vou mexer em outra ferida...) pagar mais aos professores é opinião de muitos educadores como solução para melhorar o nível educacional.  Mentira. Pagar mais é premiar os bons e os ruins. É incentivar o nivelamento por baixo. O que motiva, de fato, é o desejo de alcançar realizações, superar metas.
Dinheiro resolve problemas financeiros, não traz mais qualidade na educação, exceto na compra de materiais e no treinamento dos docentes. Pagar bem ao mau ensino é ineficaz.  Salário bom a quem ensina bem é o que se precisa.
E mais: materiais e treinamento, capacitação constante, um sistema de meritocracia que pague bem a quem produz conhecimento. Mas somos ruins, e as vozes que direcionam a e ducação também.  Melhoremos nós, a cada dia!