Avaliação das dificuldades de aprendizagem: entre a equipe multidisciplinar e a negligência PDF Imprimir E-mail
07-Abr-2008


     Comprei uma briga. Mais uma. Agora foi com uma escola onde um paciente meu precisou de adaptação simples (caderno-fichário) para solucionar um problema com sua atenção e sua motricidade, situação que acabou num ataque de autoritarismo por parte dos profissionais da escola dele e na destruição da auto-estima do menino.

     O pai, com sólidos conhecimentos de matemática questionou a qualidade do livro didático e pediu-me para analisar algumas questões. Mexemos na ferida: questões incompletas e fora do nível de desenvolvimento maturacional das crianças daquela série.

     Aliás, o mesmo problema do ano passado. O pai foi chamado na Secretaria de Educação para um sermão.

     Na sessão, o aluno morrendo de culpa, chorando... e eu, morrendo de medo...tentando entender o que o autor do livro de matemática quis com aqueles exercícios.

     Ao invés de trabalharem no sentido de analisarem as queixas, o procedimento da escola e da Secretaria de Educação do Município foi de coagir, pela ordem: o aluno, o pai e o psicólogo do menino.

     A culpa, segundo uma pedagoga da secretaria, seria do psicólogo que não enviou os laudos para atestar os "problemas" (sic) do menino. O pai, que impôs que o menino levasse o fichário no lugar do caderno, contrariando a ordem da escola, seria outro culpado. O psicólogo, então, quase foi executado: nem foi à escola, dizer o que fazer, nem interrompeu um atendimento para atender a orientadora, que pensava em ser atendida na hora dela, do jeito dela. Patética a situação. Fogueira nele!

     Quem tem de saber o que fazer é a escola. Quem determina o material a ser levado para a escola são os pais, responsáveis pela criança, que sabem suas necessidades. Isso mesmo: a escola não pode intervir naquilo onde a criança vai escrever: se num caderno ou num papel de pão, desde que não prejudique ninguém. O material e a letra são do aluno, a responsabilidade pelo material da família e do aluno. O ensino é da escola.

     Para a escola que ainda vive na pré-história, sempre deve haver culpados. De preferência aqueles elementos que incomodam, que mostram que a sacrossanta unidade escolar tem falhas, como qualquer instituição, como eu e você. Por pouco não paramos num instrumento de tortura medieval.

     Nem respondi sobre o que disseram de mim. Enviei laudo há dois anos, nada foi feito, a não ser intimidarem o aluno. Para quê enviar novo laudo para quem não sabe o que fazer com eles?

      Em casos onde há déficit na aprendizagem ou nos manejos cotidianos da sala de aula, como escrever bonito ou manter o caderno em ordem (mais pré-história), faz-se necessário que o professor peça o encaminhamento do aluno para avaliação por uma equipe multidisciplinar, que pode ser formada e mantida pela prefeitura ou por um conjunto de profissionais que a escola conhece e confia para encaminhamento. Utopia? No Brasil sim, mas é o que deve ser feito, ser solicitado, nem que seja via Ministério Público!

     O que não pode, é avaliar uma criança com baixos conceitos sem buscar uma solução para  melhorar seu aprendizado. Esta situação passa por uma avaliação de equipe multiprofissional (psicólogo, psicopedagogo, neurologista, endocrinologista, fonoaudiólogo) e, com um diagnóstico preciso, trabalhar um plano de atuação que insira a criança no conhecimento, dentro dos seus limites, mas explorando seu potencial de aprendizagem.

     Não se reprova aluno. É a escola e o trabalho pedagógico que reprovam. O aluno fica apenas como vítima.

     Todo aluno aprende, desde que veja sentido no conteúdo, que se perceba nele, que alguém entenda sua dificuldade e explore suas capacidades.

     Com plano pedagógico que inclua jogos, atividades lúdicas, interação e proximidade entre educador e educando, com atividades diferenciadas que desenvolvam habilidades do aluno não há quem não aprenda, não há quem não ganhe uma nova habilidade a cada conteúdo.

     Este trabalho de diagnóstico multidisciplinar inicia na percepção do mau desempenho do aluno ao se comparar com a média. Passa pela orientação educacional que, muitas vezes, já possui técnicas que podem ser usadas para sanar a dificuldade do aluno ou do professor.

     Este projeto geralmente é rejeitado por professores que ainda acreditam que alunos aprendem com a mera  repetição do conteúdo nas aulas de reforço. Se não aprende, lavam as mãos e o aluno reprova ("tudo" foi feito). Despreza-se o lúdico e o estímulo de habilidades que fundamentem o novo conhecimento, como se despreza o aluno se o plano B da recuperação não dá certo.

     O orientador, caso perceba que o aluno ainda tem dificuldades, deve providenciar o devido encaminhamento do educando para uma equipe. Muitas vezes, um olhar clínico e experiente da orientação ou do professor, já identifica por qual profissional se pode começar a avaliação. Uma agenda com telefones de profissionais de várias áreas em muito ajudaria.

     Sugiro que se comece pela boa-vontade em perceber que todo aluno aprende a seu modo e pelo questionamento do manejo didático do professor que perde a paciência com o aluno.

     Sugiro também que se construa uma máquina do tempo: devolvam o modelo de escola atual ao passado, o laudo do meu aluno ao presente e tragam do futuro uma solução para aquele infame livro de matemática...

 

 

 

     * Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email


Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
Atualizado em ( 10-Abr-2008 )
 
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