Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Tudo o que é demais, é veneno!

Tempos difíceis! Com estas palavras, o presidente Instituto Festival de Dança, Ely Diniz iniciou seu discurso de abertura do 35ª Festival de Dança de Joinville. Ao mesmo tempo, o Brasil mergulhava ainda mais na crise política que gera dificuldades em todas as áreas.

Sem comando, a Nação brasileira, que optou por ser governada por um presidente com super poderes, está à deriva num mar de lamas de corrupção e conchavos políticos. Como se fosse possível uma única pessoa definir os caminhos para reinventar o país das bananas, a reforma política não avança.

A edição comemorativa do Festival de Joinville transbordou emoção trazendo ao palco os dançarinos que se destacaram nas edições anteriores do maior festival de dança do mundo segundo o Guinness Book.

A versão deste ano, teve na emoção e criatividade seu ponto alto. As novidades ficaram por conta da reinvenção. A organização reinventou o evento encontrando formas de manter o evento principal e os já tradicionais, como a Mostra Contemporânea e o Festival Meia Ponta, sem criar novos ou espaços que aumentariam seu custo.

Assim como a edição deste ano do Festival de Dança de Joinville retratou a evolução da dança a despeito da dificuldade de aporte financeiro, tanto por parte do setor público como pelo setor privado, o país optou por continuar sua trajetória de recuperação econômica, a despeito da crise política que assola o governo central do país.

Até porque, como já é de praxe nos momentos de crise, a criatividade e o tão diferenciado, mas muito igual, jeitinho brasileiro, aflora e deixa à mostra que somos capazes de fazer bem e viver bem com pouco dinheiro.

A 35ª edição foi linda, emocionante e muito bem organizada, como todas as demais. Albertina Ferraz Tuma responsável pela criação do Festival de Dança de Joinville com o professor de dança Carlos Tafur, e por sua coordenação por 12 anos, foi finalmente reconhecida e homenageada.

O discurso de que a crise, especialmente a financeira, deixa à mostra as competências e os competentes, aqueles que conseguem encontrar os melhores caminhos para fazer ainda melhor aquilo que precisa ser feito, foi confirmado na prática.

Quando se tem pouco dinheiro é preciso fazer o essencial e investir muito conscientemente cada centavo. Os bailarinos visitantes nem perceberam as dificuldades da organização. E também não cabia a eles esta preocupação.

Para chegar ao topo é preciso foco, concentração, treino, muita dedicação e determinação. É preciso, antes de tudo, acreditar em si e sonhar grande, porque quem sonha com uma casa de sapé ao pé da serra, jamais construirá um castelo no topo da montanha. É assim com os bailarinos e com qualquer profissional.

Mais do que discutir, concordar ou discordar, é preciso continuar fazendo o essencial, investir o dinheiro naquilo que é realmente importante e estabelecer metas e traçar os caminhos, os planos A e B e focar no resultado.

Em tempos difíceis na infância, quando argumentava com meu pai na tentativa de não apanhar, ouvia dele: “tudo o que é demais, é veneno”.

Em sua sabedoria adquirida ao longo da vida difícil de roceiro, órfão criado pelos meioirmãos mais velhos e tornada teoria somente por meio das aulas do Mobral e com minha ajuda na alfabetização, meu pai sempre nos ensinou que só há dois caminhos de saída da pobreza: trabalho e estudo.

Trabalhávamos na roça diariamente antes e depois de ir para a escola. E todos começamos a trabalhar com remuneração antes dos 14 anos.

Atualmente, somos seis irmãos com conhecimento e bens materiais suficientes para viver mais tranquilamente. Mas nenhum de nós deixou de trabalhar, mesmo depois da aposentadoria.

Para nós, trabalho é meio de vida e não de morte. Trabalhamos o suficiente para colocar a comida em nossa mesa (modesta, mas com alimentos saudáveis, pois foi assim que aprendemos a nos alimentar na roça: plantávamos para colher e comer).

Nossa comida não é veneno, apesar de vir impregnada de defensivos agrícolas, pois vem dos mercados. Todos estudamos o suficiente para sobreviver na sociedade que precisa de pessoas aptas a ler as oportunidades que se apresentam.

Continuamos a estudar na escola da vida, cada um a seu modo e em sua área. A dedicação e a determinação são nossa herança.

Assim como as centenas de brasileiros, nascidos nas décadas de 50, 60 e 70 estudamos em escolas públicas onde o ensino era de boa qualidade e a disciplina militar. A ideologia marxista do capital x trabalho impregnada nos conteúdos currículares a partir da década de 80, não nos alcançou na escola básica.

Como nascemos no interior, ser funcionário público não estava em nossos planos. O populismo, as vacinas gratuitas para gripe e nem as cotas instituidas pelos últimos governos também não nos alcançaram: não somos negros, não estamos em risco social, não somos idosos e nem deficientes físicos ou mentais.

Somos brasileiros de meia idade que não tivemos ajuda de ninguém, fomos obrigados a estudar e trabalhar para ter o próprio sustento.

Assistimos criticamente à implantação da política populista dos últimos governos a ensinar a nossas crianças e adolescentes que o Estado é um pai provedor, e como provedor, teria o direito de impor aos ‘filhos da pátria’ seu ideal de vida. Autoritário e corrupto foi empurrando o país para o fundo da dependência do governo, de uma pseudo democracia capitalista.

Desse modo, chegamos aos atuais TEMPOS DIFÍCEIS, a que se referiu Ely Diniz. Tempos em que é preciso se reinventar, trabalhar e estudar muito para entender a ideologia que tornou a quase totalidade dos brasileiros em ‘coitados’.

É preciso entender, como o Estado brasileiro estabeleceu o tratamento diferenciado para as suas minorias.

A de afrodescedentes representa 58% da população, o número de idosos está em franca expansão, os deficientes físicos e mentais estão nas salas de aula regulares com segundo professor e os “normais” recebem atenção deficiente. Os homessexuais (e LGBT)podem mudar até o nome, a população em ‘risco social” recebe dinheiro público mensalmente, mesmo sem trabalhar ou mandar os filhos na escola e o cidadão brasileiro trabalhador e honesto, paga a conta.

Juntamente com a ideologia do coitadinho incluiu-se as políticas de proteção exacerbada aos animais e a tutela dos índios, crianças e em certa medida da mulher e dos idosos.

A percepção é que para receber atenção e serviços do Estado brasileiro, não basta ser brasileiro, é preciso ser ‘coitadinho’.

Coitadinhos não conseguem emprego. Coitadinhos são aprovados nas escolas sem aprendizagem correspondente. Coitadinhos recebem esmola e não precisam trabalhar para comer.

Sem estudo e sem disposição para trabalhar, os coitadinhos foram se multiplicando e hoje temos uma legião de brasileiros que não tem coisa alguma.

Mas como tudo o que é demais é veneno, a multidão de coitadinhos já não sabe o que fazer, para onde ir e não tem a quem recorrer.

O Estado faliu, já não tem dinheiro para pagar as aposentadorias, não tem dinheiro para pagar os funcionários públicos, o SUS já não consegue distribuir remédios e atender a todos, as escolas públicas já não cumprem seu papel de formar cidadãos melhores para a sociedade brasileira.

Nestes tempos difíceis parece que chegamos ao fundo do poço e a legião de “coitadinhos” só aumenta.

Ou começamos a revolução pela atitude individual e pela escola, reiventando o ensinar e aprender e mostrando a nossas crianças e adolescentes que é preciso ter conhecimento e trabalhar muito porque já não podemos esperar as soluções de cima para baixo, ou chegaremos ao fundo do poço da miséria e da pobreza. O caminho já foi traçado pela Venezuela.

A escola precisa parar de fazer demais pelos alunos. É preciso fazer só o suficiente para que eles sejam brasileiros melhores para nosso próprio bem.

Os adultos de hoje serão os idosos de amanhã, os jovens serão os governantes e nossas crianças a força de trabalho que precisará reerguer e reinventar a cidadania nesse país governado pela sede de poder de alguns poucos, os mesmos que o levaram aos TEMPOS DIFÍCEIS.

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