Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Amor ou sexo, respeito ou preconceito, eis a questão...

Entre todos os ensinamentos que recebemos desde os primeiros dias de vida em casa e mais tarde na escola, nos templos e na sociedade está o dever de AMAR: pais, amigos, familiares, avós, vizinhos, a pátria, professores, seres humanos, os animais, a natureza ...


Ao estipular tal prioridade, esqueceram de considerar que o amor está no campo dos sentimentos. E como ninguém consegue dominar os sentimentos, é preciso, antes de mais nada, ensinar a RESPEITAR.

Pois, na falta do sentimento do amor, podemos controlar nossos impulsos agressivos, simplesmente respeitando o modo de vida, a opinião, os hábitos, as ideias e escolhas dos outros.
Nas igrejas e templos, a humanidade construiu a cultura do amor ao sagrado (aquele pelo qual vale a pena se sacrificar). Nas escolas, há décadas, o objetivo é levar o aluno a amar o saber científico.

Entretanto, a despeito do ensinamento básico milenar, de que o AMAR e SER amado é a coisa mais importante da vida, boa parte dos ‘seres humanos’, notadamente aqueles que pensam ter mais amor para dar do que seus semelhantes, além de julgar a fé e o amor alheios, violentam seus sentimentos e criticam suas escolhas.

Falta-lhes RESPEITO, que é um conjunto de atitudes controláveis, diferentemente do amor, que é puro sentimento. Entre o amor e o sexo, a fé e o ateísmo, a censura, o preconceito ou a intolerância, eu escolho ser feliz. E você?

Que atire a primeira pedra quem nunca amou a pessoa errada. Atire a segunda, quem tem controle absoluto sobre seus sentimentos e portanto, consegue escolher quem vai amar ou em que ou quem vai ter fé (a habilidade de acreditar naquilo que não vê e a ciência não consegue comprovar, nem negar).

Atire a terceira pedra, quem consegue definir exatamente qual parte de sua pele é mais sensível ao toque e lhe dá mais prazer ou asco em momentos de intimidade.
Atire a quarta, quem consegue ser feliz sozinho. A quinta (e última porque já chega de violência) aquele ou aquela que consegue direcionar seu amor.

Como são sentimentos, amor e ódio não tem razões racionais. Podem surgir ou desaparecer a qualquer tempo ou espaço. Sentimos e pronto. Já nossas ações podem ser controladas.
Ao sentir-se constrangido diante de um beijo gay, você pode simplesmente caminhar na direção oposta do casal. Ou abordar, falar ou olhar reprovando a atitude.
Pode ainda seguir seu caminho naturalmente e respeitar o direito que um casal tem de expressar seu afeto, independente do gênero dos parceiros.

Nos jornais e telejornais, notícias informam movimentos de censura a exposições de artes que seriam impróprias por manifestarem “desejos sexuais perversos” ou atacarem símbolos religiosos.

Numa exposição, no Museu de Arte Moderna- MAM-SP, a mãe que juntamente com a filha de quatro anos, interagiu com o corpo nu de homem, foi duramente criticada.

Nas redes sociais corre outro vídeo da performance artística de um homem nu, que rala a imagem da santa padroeira do Brasil e também é alvo críticas.

Muitos julgam. Alegando não se tratar de arte. Mas, o que é arte senão a livre expressão, de forma particular ou inusitada do pensamento do artista?

“Respeito é bom e todos gostamos. Já não lembro quantas vezes repeti e ouvi esta frase ao longo de meu meio século de vida.
Dondo concluí-se que nas situações acima faltou respeitar a mãe que prefere educar sua filha sem preconceitos e tabus. Aos pais que querem deixar filhos melhores para o mundo.

Há pais que querem educar seus filhos por uma abordagem mais natural, para os quais o corpo humano é sim uma obra de arte da natureza e divina não um poço de erotismo ou perversão. Afinal, o erotismo habita a cabeça de quem olha e não no corpo nu.

Falta respeito àquela parte da população brasileira que gosta e quer ir à exposição, admirar ou não as obras e ter suas próprias conclusões.

Vivemos numa época em que o conceito pre concebido, ou o preconceito, impera sobre a liberdade de pensamento e expressão tanto de artistas quanto de pessoas ‘normais”.

O desejo crescente de alguns ‘seres humanos’ de terem poder sobre os demais, aflora nos brasileiros. Talvez porque já não se reconhecem em seus representantes. O momento é de crise, especialmente ética e moral. Mas não é nos momentos de crise que surge a oportunidade de melhorar?

Provavelmente estas pessoas, que se ‘acham melhores do que as outras ou acima das leis’, estão inspirando-se nos ‘poderosos’ do país.
O Supremo Tribunal Federal (que deveria salvaguardar a Constituição que diz que o Brasil é laico), decidiu que as escolas públicas podem ofertar ensino confessional (uma única religião).

Com a decisão, o STF mandou um recado para os gestores das escolas públicas: VOCÊS DEVEM INFORMAR AOS PAIS e alunos que a matrícula na disciplina É OPCIONAL.

Ou seja, nas escolas públicas, o ensino religioso é opcional, mas quase 10O% das escolas omitem dos pais o direito de não matricular seu filho nessa disciplina.
Desse modo, no mesmo local em que nossas crianças e adolescentes deveriam aprender a respeitar e cumprir a lei, estão ensinando a eles, por atos e omissão, a desrespeitar nossa Lei Maior.

A equipe de “especialistas” que elaborou a atual versão da Base Nacional Comum Curricular-BNCC também deu sua contribuição, ao reincluir no texto a ideologia de gêneros, mesmo após ela ter sido eliminada nas fases anteriores, quando contou com ampla participação da população.

Ou seja, ao longo de nosso caminho diário podemos sucumbir aos sentimentos ou dominar nossas ações e reações simplesmente respeitando a nós mesmos e aos valores mais preciosos de nossa sociedade.

Em 1983, a música Masculino e Feminino, cantada por Pepeu Gomes já anunciava a possibilidade de sermos iguais, independe do gênero ou sexo de nascimento: “Ser um homem feminino / Não fere o meu lado masculino / Se Deus é menina e menino / Sou Masculino e Feminino...”.

Ou seja, há mais de 30 anos, o Brasil já era instado a discutir a questão do masculino ou feminino. E o amor? Será que também precisa ser masculino ou feminino? Ou assim como Deus e os anjos, não tem sexo, nem gênero?

Numa sociedade realmente livre e democrática, cada um deve ter a liberdade de fazer sua própria construção mental sobre o divino e sobre o que é o amor, o ódio ou qualquer outro sentimento. 

É preciso mostrar, especialmente para as gerações em formação, que havendo respeito ao outro e a si, mesmo sem amar, é possível construir e manter uma relação respeitosa, cordial e pacífica, construtiva de uma sociedade.

A racionalidade consegue construir ou destruir relacionamentos, mas nem sempre explicá-los.
A vida é uma sucessão de escolhas e relacionamentos. Destas escolhas e relacionamentos dependerá o sucesso de cada um. Para alcançar um objetivo é preciso escolher o caminho e cercar-se das pessoas certas.

Gostar é diferente de respeitar. Ser preconceituoso é diferente de não sentir atração por pessoa do mesmo sexo ou cor de pele diferente da sua. Ser tolerante é diferente de calar-se e aceitar que se cometa injustiça.

Como cantava Renato Russo, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há”.
Todos somos ensinados a amar e queremos ser felizes. Mas é preciso considerar que não há um único caminho para a felicidade. Cada indivíduo é feliz a seu modo.

Assim como não é possível jurar amor eterno e nem exigir amor sequer de nossos pais, podemos aprender a respeitar e garantir companhia e cuidados por toda a vida de alguém, mesmo sem amar.

E, num momento em que o ódio e a violência (ações) contra LGBTs e seguidores de religiões não convencionais, estão numa escalada crescente, é preciso que as pessoas DO BEM empreendam ações para apoiar toda e qualquer forma de respeito e amor.

Afinal, é preciso muita coragem para assumir a homossexualidade. O caminho dos gays para a felicidade, com certeza é mais tortuoso e infinitamente mais longo do que o dos hetorossexuais.

Enquanto os hétorros são apoiados ou não em suas escolhas, amando ou não o companheiro ou companheira escolhidos, os gays (e demais LGBTs) passam muitas vezes pelo sofrimento da incompreensão dos familiares, amigos e da sociedade, tudo isso só para poderem amar o outro.

Um relacionamento gay não é só sexual, assim como também não é para as pessoas dos demais gêneros. O ato sexual é apenas um momento de prazer compartilhado.
Amor é sentimento nobre que merece e precisa ser incentivado e festejado, jamais punido ou desencorajado. Qual seria a cura para o amor? O ódio?

E sempre é bom relembrar: se queremos efetivamente construir um mundo melhor, só nos resta concluir que entre o amor e o sexo (ou gênero) e entre a intolerância e o preconceito, há um caminho seguro para a felicidade: o RESPEITO a si, ao outro e à natureza.

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