Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

O Brasil precisa de brasileiros

O ano em que o Brasil experimentou um terremoto político com duas tentativas de derrubar o presidente da república, uma enxurrada de desmoronamentos de empresas e postos de trabalho e, na esteira da crise econômica e política, assistimos à queda livre dos negócios e da credibilidade da classe política está chegando ao final.
Cansado de ouvir dia e noite notícias de corrupção, muitas repetidas à exaustão, o brasileiro se pudesse sequer ligaria a TV ou leria noticiário.
A impressão de que as notícias de hoje são requentadas, começa a provocar indiferença no brasileiro. Isso também é perigoso já que 2018 é ano eleitoral.
Em meio a tua isso, os brasileiros assistiram o Supremo Tribunal Federal reconhecer constitucional o ensino religioso confessional nas escolas públicas. Vale salientar que a decisão foi baseada no fato de que as aulas de ensino religioso são opcionais para o aluno. Ou seja, as escolas devem oferecer, mas o aluno não é obrigado a frequentar.
A decisão do STF não mudou coisa alguma na prática. Não conseguimos encontrar uma única escola pública que tenha no formulário de matrícula a opção (ou não) pelo ensino religioso.
A informação do direito de não assistir as aulas está sendo sonegado às famílias. As escolas estão pecando por omissão, para usar um termo cristão, religião predominante entre os brasileiros.
Nas escolas, cinco minutos de conversa com qualquer professor são suficientes para perceber que a pressão pela aprovação em massa se repete como sempre aconteceu.
Os estudantes brasileiros do ensino regular, continuam ocupando as últimas posições em testes internacionais que medem conhecimento básicos em matemática, portugues e ciências. Também nesta área as notícias se repetem ano após ano, sem que tenhamos perspectiva de mudança a curto prazo.
Durante o ano de 2017, a quase totalidade dos professores estiveram solitários na luta por ensinar e levar seus alunos ao sucesso escolar.
Os mesmos que chegam ao final do ano muito preocupados com a escalada e a intensidade das agressões físicas por parte dos alunos, e psicológica por parte dos gestores e do sistema educacional.
O Brasil tem índices de aprovação semelhantes aos de países desenvolvidos, mas a aprendizagem diminui ano após ano. O reflexo está no mercado de trabalho: há centenas de vagas abertas, mas não há trabalhadores com o conhecimento mínimo para assumí-las.

O país tem centenas de desempregados desqualificados que não conseguem emprego ou não conseguem permanecer neles por absoluta falta de conhecimento básico.
Os professores que fazem trabalho sério são os que sofrem maior pressão pela aprovação de inaptos.
Talvez o final de ano seja o pior dos momentos para o profissional da educação. As escolhas por uma ou outra avaliação, por uma ou outra metodologia e, por vezes, até conteúdos, leva o professor ao estresse.
A pressão de um diretor ou supervisor pela aprovação pode ser a gota que transborda o copo da sanidade.
Mas se por um lado, os professores se sentem pressionados à aprovação, seja por fazer a autocrítica ou seja por pressão de diretores ou do próprio sistema de ensino, eles também têm a certeza de que percorreram o longo caminho de um ano letivo sozinhos. Abandonados à própria sorte nas salas de aula de um país que ainda não foi descoberto pelos próprios brasileiros.
Por outro, reprovar significa investir em dobro (ou triplo) o dinheiro público em um cidadão que não está fazendo a sua parte.
A má qualidade do ensino em boa parte das escolas públicas já é de conhecimento e de domínio público. Fala-se muito, faz-se pouco para mudar a realidade da sala de aula, onde o ensino e a aprendizagem efetivamente acontecem.
Mais difícil ainda é definir o que é ou seria ensino de qualidade. Seria aquele que prepara o cidadão para escolher a profissão que o fará feliz? Ou seria o ensino que levasse o cidadão a ter consciência de que está aqui para servir, e não para ser servido pelo mundo. Ou seria as duas coisas e muitas outras?
Ano após ano, a situação se repete e NADA É FEITO. E neste ano de 2017, quando uma professora morreu defendendo seus alunos de um doente mental assassino, o Brasil começa a perceber que é preciso muito mais do que uma professora ou professor disposto a fazer a diferença na vida de seus alunos.
Já sabemos que é preciso apoiar incondicionalmente o professor que ainda está em sala de aula.
É necessário também cobrar a participação ativa da família na educação e no ensino de nossas crianças e adolescentes.
Afinal, sucesso escolar é quando o professor consegue ensinar e o aluno aprender. E apredizagem é o resultado de trabalho de um conjunto de indivíduos dispostos a fazer o seu melhor sempre.
Somente em conjunto faremos uma sociedade mais igualitária e justa. Afinal, cada um só pode fazer a sua parte, viver a própria vida.
Como informam os comissários de bordo dos aviões: cuide primeiro de você- coloque primeiro a máscara de oxigênio em você, para somente depois ajudar quem está perto - mesmo que seja uma criança.
Mas é final de ano e tudo o que mais queremos, é completar as horas de trabalho necessárias para finalizar mais um ano letivo.
Então, que tal agradecer por este ano de 2017 que legou muitas lições ao cidadão brasileiro. Sabemos que há muitas maneiras de aprender e a mais eficaz, é superando desafios.
Todos passaremos de ano exatamente à meia noite do dia 31 de dezembro. Mas nem todos iniciaremos um novo ano.
Aproveite as festas para refletir sobre o significado da vida e faça a sua parte. Pois quem faz a sua parte na construção de um ser humano melhor, merece usufruir de um mundo melhor.
Jean Piaget dizia que “a inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer”. E, completou, “a principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. E a segunda meta é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe”. Tudo o que os brasileiros precisamos.

 

 

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