Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Mais do que dominar uma língua estrangeira, escrever bem em português é um diferencial para a carreira

Nas últimas semanas recebemos anúncios de universidades oferendo cursos de pós-graduação com opção de não escrever trabalho de conclusão. Ou seja, os cursos de pós graduação já estão adaptando-se ao mercado. Afinal, para que saber escrever quando se faz um curso de pós-graduação? O pior é que esta é a principal atração dos cursos daquela instituição, e ainda tem preço diferenciado.

Na década de 70, quando frequentava o então ginásio numa escola pública em Rio do Sul, as alunas e alunos que conseguiam ser aprovados em matemática sem recuperação eram considerados os líderes da turma. Eram populares e apontados como os que ‘se dariam bem na vida’. Aqueles que chegariam no top da pirâmide intelectual e social.

Quarenta anos se passaram e hoje, dezenas de programas de incentivo ao estudo e ao desenvolvimento do gosto pela matemática depois, já não são os bons alunos desta disciplina que despontam como os que se darão bem na vida ou os empregados de alto escalão dos sonhos das grandes empresas, organizações e instituições.

Em época de computação, inteligência artificial, calculadoras científicas e programas que fazem cálculos matemáticos em segundos o que as pessoas levariam anos para fazer “manual ou mentalmente”, os brasileiros que sabem escrever bem em português ganharam status de desejáveis e a garantia dos melhores empregos no mercado de trabalho,

Os “matemáticos” são bem vindos no mundo da computação para ocuparem os postos de arquitetura de sistemas e programação, mas os roteiros, os textos e principalmente a comunicação eficaz é feita somente por meio dos bons redatores.

As organizações e o mercado carecem de bons comunicadores e estão dispostas a pagar muito bem para que eles estejam a seu serviço.

Mais do que raciocínio lógico, imprescindível para um redator, antes de passar a escrever bem, foi preciso ler, estudar as regras que norteiam a língua portuguesa e disciplinar o pensamento crítico e criativo direcionando-o para a fruição da escrita.

Pouco a pouco, as boas redações, que já são 50% do pré-requisito para ingresso em cursos técnicos, universidades, empregos públicos e privados, serão o grande diferencial da atualidade. Agora são as alunas e alunos que sabem escrever com coerência e correção os mais populares e respeitados. Os concursos de redação se multiplicaram, assim como as feiras de matemática, mas a popularização ainda não chegou para a redação.

Uma pesquisa recente do Ibope sobre alfabetismo funcional mostrou que 2% da população brasileira encontram-se em situação de analfabetismo total em matemática e 29% (mais de 52 milhões de pessoas), conseguem ler números, mas têm muito problema em resolver operações matemáticas simples, entender proporções e perceber gráficos e tabelas.

Já a taxa de analfabetismo no Brasil, que caiu em 2017 em comparação com o ano anterior, é de 7%. Mais de 11,5 milhões brasileiros, com 15 anos ou mais não sabe ler e escrever.

Inúmeros trabalhos científicos e pesquisas apontam que o Brasil é um continente de analfabetos funcionais. No início deste ano, um estudo feito pelo Ibope Inteligência, apontou que três em cada dez brasileiros com mais de 15 anos, é incapaz de entender pequenos textos do cotidiano.

São 29% de brasileiros (38 milhões) classificados nos níveis mais baixos de proficiência e nesse deve ser considerado os 7% de analfabetos absolutos. Os 22% restante estão no nível considerado rudimentar (não localizam informações em um calendário, por exemplo).

Mas o número que mais assusta é outro, mais de 70% da população até dominam as funções simples da língua, mas são os chamados analfabetos funcionais (mais de cem milhões).

O que significa dizer que menos de 30% da população brasileira sabe ler e escrever com fluência. Isso explica a dificuldade da empresas em conseguir ocupar as vagas destinadas a redatores e as universidades colocarem no mercado cursos de pós-graduação sem trabalho de conclusão.

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