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É deprimente ouvir o professor ser acusado de doutrinador e responsabilizado pela baixa qualidade do ensino (JE 317)

O ano letivo de 2019 iniciou-se sob novo comando na educação. Um decreto publicado no dia 2 de janeiro, no Diário Oficial da União prevê a implantação de um novo tipo de escola pública no país.
Assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, o documento determina o fomento à criação de escolas cívico-militares.

O novo modelo está sendo implementado em vários estados, cada um com um modelo de administração diferenciada. O modelo que mais tem sido implementado é o da parceria policia militar-escola, onde a PM administra a disciplina e a escola continua respondendo pelo aspecto pedagógico da escola.

Já nos primeiros dias do novo ano letivo, o novo ministro da educação Ricardo Vélez Rodríguez foi duramente criticado por ter enviado uma carta-mensagem às escolas de todo o país. A imprensa e redes sociais, que ainda ressoam a eleição de Jair Bolsonaro, com a retirada do PT e a interrupção de seu plano de poder, polemizou a ponto do MEC desistir de receber os vídeos de diretores, professores e alunos participando de um evento cívico de início de ano letivo.

Na carta-mensagem o ministro, orienta cada escola a saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida pelos professores nas escolas de todo o país, deveria ser lida em cerimônia de início do ano letivo. O evento seria encerrado com todos cantando o Hino Nacional diante da bandeira do Brasil,“se houver uma na unidade escolar”, complementava a carta.

O secretário de estado da educação Natalino Uggioni, assumiu a pasta, anunciando a contratação de mais de mil professores aprovados em concurso e o envio de verba diretamente às escolas para que providenciassem os reparos necessários ao reinício do ano letivo e a implantação da auto avaliação da escola. Em Joinville, Sônia Fachini assumiu a Secretaria da Educação, enquanto Roque Antônio Mattei retomou sua cadeira na Câmara de Vereadores de Joinville.

Ao mesmo tempo, em que centenas de pessoas comuns e políticos discutem projetos identificados com o movimento Escola sem partido, o presidente anunciava uma ampla investigação, a “Lava Jato da Educação”, não só para investigar o uso das verbas, mas também as diretrizes e pensamentos pedagógicos que norteiam os ensinamentos nas salas de aula.

Noutra vertente, o escritor e influenciador digital Alcione Giacomitti fez circular um post de quase dez minutos mostrando imagens recolhidas em redes sociais, de crianças e adolescentes dançando eroticamente funk na sala de aula e no pátio da escolas. Há inclusive um em que um professor ensina crianças bem pequenas a dançar. Em diversos destes vídeos, são os professores que estão “no comando das atividades”.

Há até beijos coletivos em sala de aula e alunos maiores fazendo quebra-quebra na sala de aula. No mesmo post, Paulo Freire é chamado de psicopata e crianças do MST são “doutrinadas por professora de esquerda”. Um movimento de denuncismo de professores que “doutrinem” seus alunos iniciado durante o período eleitoral pela professora catarinense, agora deputada Ana Caroline Campagnolo, mobilizou opositores e seguidores Brasil afora e chegou ao STF.

O movimento dos que acreditam que a falta de disciplina e de hábitos de estudos dos estudantes é a principal causa da baixa qualidade do ensino e da aprendizagem, aponta a militarização como solução para que o país siga a passos largos para um novo universo na área educacional. Este movimento defende ainda o retorno do ensino do patriotismo e civismo como conteúdos básicos, necessários e urgentes.

Já, para os que acreditam que a militarização das escolas representa um risco para a democracia, a indisciplina não prejudica a aprendizagem. Para estes, a inclusão é simplesmente colocar todos os estudantes (com deficiência e sem deficiência) na mesma sala de aula, ensinando o mesmo conteúdo e no mesmo ritmo para todos igualmente. Este grupo defende a continuidade do modelo marxista e que o professor é o único responsável pela aprendizagem ou não dos alunos.

É difícil dizer o que é mais deprimente para os professores que continuam em sala de aula apesar das condições de trabalho: a discussão rasa sobre a qualidade de ensino tanto de escolas públicas, quanto privadas ou se serem acusados de doutrinar politicamente, depravar moralmente, não ensinar os conteúdos próprios para a série e não terem domínio de classe.

Ou se, para além de tudo isso, não serem ouvidos e muito menos respeitados como os principais agentes do ensino no país, fazendo (ou pelo menos tentando fazer) a parte que lhe cabe nesse processo de (re)construção do país. A desvalorização e o desrespeito pelos profissionais da educação vem de todos os lados: dos alunos, dos pais, dos políticos, dos governantes, da imprensa...

Já que, não importa o partido político, o nome, os decretos, as leis, as reformas, as diretrizes curriculares, os projetos,, etc jamais serão implantadas se os professores não tiverem disposição e disponibilidade para entrar nas salas de aula, para trabalhar com os alunos disciplinados, os ditos normais e com os indisciplinados e deficientes e até mesmo com os superdotados, que são os mais desprezados pelo país.