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Um telefonema e o orgulho de ser brasileira

Eu ainda estava no quarto fazendo os exercícios diários de alongamento, quando o telefone tocou. Na tela um número desconhecido. Alguns segundos depois, uma voz gravada identificava a chamada como sendo do Ministério da Saúde.

Nos primeiros segundos um turbilhão de perguntas passaram por minha cabeça. Porque eu? Será que tem alguém contaminado no meu prédio, ou no meu bairro? Será que eles sabem que quebrei a quarentena e fui almoçar com uma amiga que também está sozinha em casa há um mês?

Trinta segundos depois a voz começou a perguntar se eu tinha tido febre alta, coriza ou tosse nos últimos dias. E, aquela máquina aguardava a minha resposta que tinha de ser SIM ou NÃO. Acho que tinha problema de surdez, ou seria a minha dicção?

No momento exato em que respondi a primeira pergunta, com um sonante NÃO, o medo desapareceu. A desconfiança de que poderia ser um golpe e a estranheza de receber uma ligação da máquina governamental do Ministério da Saúde, deu lugar à quase certeza, de que pela primeira vez em mais de ½ século de vida, alguém do governo estava interessado na minha saúde. Foi tranquilizador.

Então lembrei que havia recebido a informação de que 125 milhões, dentre os 210,1 milhões de brasileiros,  habitantes dos 5.570 municípios, receberiam tal ligação. Eu era uma das 125 milhões. O objetivo era rastrear casos de Covid-19, detectar as zonas de contaminação e identificar como os casos se alastram pelo território nacional.

Ou seja, eu sou um número que interessa ao meu país. Sou um número como é cada um dos mais de 5000 brasileiros mortos pela doença. Respondidas as perguntas encorajei-me a seguir adiante e percebi que estava com mais medo do que devia.

Um medo quase paralisador, que me defendia sim, porque me orientava a colocar máscaras, levar álcool gel comigo sempre que ia ou supermercado, único local visitado por três semanas e lavar as mãos constantemente. Além de higienizar inclusive os pacotes dos alimentos comprados no mesmo dia.

Responder as perguntas foi como disser a mim mesma que eu estava saudável, pronta para continuar em casa a preservar minha saúde e a das demais pessoas. Percebi que o medo da contaminação estava quase me paralisando. E que eu estava fechada em casa não somente por mim, mas pelas demais pessoas.

O fato de morar sozinha, ter saúde física e mental e plano de saúde, deveria deixar-me tranquila, pois em caso de necessidade, seria atendida em hospital particular. Onde há mais leitos disponíveis do que clientes precisando. Embora tenha sido nos hospitais particulares as primeiras mortes na cidade de Joinville. Provavelmente foram os viajantes endinheirados que trouxeram a doença em suas bagagens vindas do exterior.

E o isolamento social era para diminuir a curva e garantir atendimento a todos os que tivessem necessidade de UTI e, principalmente, de respiradores. Naquele dia, como até hoje, não há qualquer medicação, ou protocolo de atendimento que garanta ou mesmo minimize, o risco de morte de infectados, independente da idade, escolaridade, classe social ou religião...

Apesar de milhares de cientistas mundo afora dedicarem 100% de seu tempo e energia em estudos sobre a doença, pouco se tem. A cada dia, em cada país, para cada paciente, novos sintomas e muito diferenciados vão surgindo.

Uma destas mudanças se deu nos próprios sintomas. A febre alta, por exemplo, não aparece em grande parte dos pacientes brasileiros, mesmo os que já tenham grande comprometimentos do sistema respiratório. A perda do olfato e do paladar é um dos primeiros sintomas em solo brasileiro, e noutros países, sequer foi mencionada.

O Brasil tem o SUS, um sistema de saúde que atende a todos igualmente. E, exatamente por esta razão, uns precisam cuidar dos outros. Foram, provavelmente, os ricos e trabalhadores que viajaram para o exterior ou tiveram contato com pessoas de lá, que trouxeram o vírus para o Brasil. Mas TODOS estão fazendo quarentena para tentar achatar a curva e poder dar tratamento dignoou enterro descente a todos os cidadãos.

Em Santa Catarina, começamos cedo e o sistema não colapsou. No estado, o maior número de infectados está em Florianópolis. Por cumprir as regras de distanciamento social, pudemos assistir de longe o caos em cidade como Manaus, Belém, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo.

Acredita-se que em meados de maio comece a surgir os primeiros protocolos, medicamentos e até vacinas minimamente seguras para tratamento da doença.

O rigor das pesquisas científicas, especialmente na área de saúde, faz com que apesar das centenas de cientistas estarem estudando o Covid-19, exatamente por sua natureza mutativa de virus, os medicamentos demorem a ser reconhecidas como seguros para uso por humanos.

Dias depois do telefonema, assisti a uma transmissão ao vivo de brasileiros que foram resgatados na Índia. Eles reportavam o mesmo sentimento, o mesmo orgulho de ter sido cuidado por seu país. Relataram também que na Índia, país com um milhão de habitantes, o lockdown é horizontal, ou seja, completo.

O governo dá comida para as pessoas que não tem como comprar, para que fiquem em casa. Os que tem dinheiro para comprar, precisam de autorização especial e com tempo limitado, de 15 a 20 minutos, para fazê-lo e são duramente fiscalizados neste período.

A rotina de permanecer em casa, usar máscaras para se proteger e para proteger os outros é uma realidade em todo o mundo.

E o sentimento de estar sendo cuidado por seu país faz nascer no cidadão a certeza de que, independente da pessoa que estiver no governo, vamos amar e reconhecer o país como pátria, se e somente se, formos cuidados e efetivamente nos sentirmos importante para nossa Pátria Amada.

Não importa o que o presidente, o senador, o deputado, o governador, o prefeito, o vereador, o produtor de fake news, o jornalista de notícia confiável, o policial dizer ou fizer, se não nos sentirmos cuidados por nosso país, não nos orgulharemos de ser cidadão brasileiro.

Não importa se o cuidado que recebemos foi um simples telefone ou um lanche seguido de viagem para retornar para casa, o importante é ter a certeza de que seu País se preocupada verdadeiramente com sua saúde.