Jornal da Educação - JE ISSN 2596-223X - online -

Jornal da Educação-JE ISSN 2237-2164   impresso

Avaliação do conhecimento e não do aluno (Edição Novembro/2006)

     No início de novembro recebemos a solicitação de envio de mais exemplares do Jornal da Educação aos Estados Unidos. Já havíamos enviado quantidade significativa para ser distribuída aos professores e demais pessoas entrevistadas durante nossa visita aquele país, mas também lá, as pessoas sentem-se orgulhosas de serem mencionadas positivamente em um Jornal e, além de guardar, querem mostrar aos parentes e amigos.


     Mas o mais significativo foi o elogio da professora americana ao fato de termos incluído, como um dos grandes diferenciais entre nosso sistema e o sistema educacional americano, a demissão sumária dos professores americanos que não conseguem ensinar o conteúdo curricular a seus alunos. Lá, quem não sabe ensinar não continua professor. Os estudantes americanos precisam ter média “A” em todas as áreas do conhecimento ao longo de sua vida para terem a oportunidade de freqüentar uma boa universidade.

     E a avaliação é feita pelo governo em forma de um teste obrigatório realizado no final da High School, a exemplo do que aconteceu na Europa. E o mais importante, é que esta média “A”, representa efetivamente a aquisição dos conhecimentos próprios para a série freqüentada pelo estudante. Alunos média “A” e conquistando 100 pontos no teste de final do Ensino Médio (High School) significa emprego e salário majorado para seus professores e verbas para a escola que está alcançando seus objetivos: formando adequadamente os cidadãos americanos.

     É, parece outro mundo! E é mesmo outro mundo, aquele construído e mantido pelos americanos na América do Norte. Estudantes aprendendo, professores realmente ensinando e governo efetivamente investindo e avaliando a qualidade do ensino. Enquanto isso, aqui no Brasil, a avaliação é tema corrente e recorrente em todas as salas de aula, de professores e mesmo das casas de todo o país neste momento. Afinal, estamos no final do ano calendário e também do ano letivo. Os vestibulares, o ENEM, os exames supletivos e os seletivos estão avaliando nossos estudantes e selecionando quais conseguirão cursar uma universidade pública e quais terão de pagar mensalidades nas escolas superiores privadas. Em todos os testes, quem está sendo avaliado é o estudante e não o professor. O desempenho dos alunos também não determinará maiores salários para os seus professores. A diferença é, portanto, imensa.

     A responsabilidade de aprender, aqui no Brasil, é exclusivamente, do aluno. Jamais da escola que ele freqüentou por 12 anos ou de seus professores. Seria justo também que os “louros” pela vitória também fossem somente do aluno. Mas não são. Os primeiros colocados nos vestibulares são transformados em “garotos ou garotas propaganda” dos cursinhos ou escolas que freqüentaram no último ano.

     Ou seja, além de ter a responsabilidade total sobre seu processo educativo e desempenho, o aluno é usado para “render dividendos” à escola que fez exatamente aquilo que deveria fazer:ensinar com qualidade. No estado de Santa Catarina vive-se uma situação bastante peculiar neste final de ano. A proposta apresentada pelo governo para o novo plano de cargos e salários dos profissionais da rede estadual de educação, inclui, conforme prevê a nova LDB desde 1997, progressão por desempenho.

     E como será a avaliação para determinar o desempenho dos professores? Será que a aprendizagem efetiva dos alunos contará pontos para o professor ou continuaremos a ter professores comprometidos e relapsos ganhando exatamente o mesmo salário? Ou pior, alunos analfabetos funcionais sendo aprovados no Ensino Médio com médias superiores a sete. Ou seja, até mesmo sem exames para que o professor tenha “menos trabalho” e o governo “números bonitos”em suas estatísticas.

     Será que continuaremos a enviar ao mercado de trabalho portadores de diploma de Ensino Médio que chegam a uma empresa e sequer conseguem preencher o formulário de solicitação de emprego? É realmente a avaliação precisa estar na pauta do cotidiano escolar e ser encarada como uma necessidade premente na vida de todos os profissionais da educação e estudantes.

     Afinal, o Brasil precisa deixar os últimos lugares do PISA. A escola brasileira precisa ser repensada para ser transformada numa escola para os estudantes, em função da aprendizagem efetiva, da real aquisição de conhecimentos. O aluno precisa ser o centro e para quem estão voltadas todas as ações da escola, que precisa deixar de ser pensada em função dos “postos de trabalho e troca de favores” para e entre os profissionais que deveriam ser da educação.