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Capacitar não é valorizar professor (Outubro/2009)

O Brasil precisa de ensino público de qualidade. E mais do que isso, precisa de professores qualificados para atuar nas escolas públicas. Não somente de pessoa que vá à escola e entre na sala de aula, mas de um profissional capaz e eficiente, que saiba e queira ensinar com qualidade ao aluno que está na sua turma. 

No entanto, estes profissionais não aparecerão em um toque de mágica e nem como resposta a propaganda de projetos governamentais de pseudo valorização do professor. E também não surgirá ensino de qualidade enquanto o foco dos gestores estiver no uniforme ou no material escolar do aluno. Afinal, nada disso é efetivamente ensino e muito menos aprendizagem. 
O país somente conseguirá bons professores se investir verdadeiramente na formação e na valorização efetiva deste profissional que acaba tendo que “dar conta” de toda sorte de problemas socioculturais e, muitas vezes, até pessoais e de saúde, dos estudantes. 
A receita é simples, população informada e culta é mais exigente e mais participativa no processo educacional. E não somente nas festas e campanhas para arrecadar dinheiro. 
Gestores e professores mais eficientes saberão indicar os campos, áreas e profissionais que precisam de algum tipo de auxílio para conseguir resultados qualitativos. Sem mascarar notas ou usar de subterfúgios para omitir as dificuldades no processo e na aprendizagem de seus alunos. 
Há quase três décadas, quando o Brasil discutiu a nova Constituição e estabeleceu os percentuais orçamentários mínimos a serem investidos em educação, o discurso de que a faculdade ensina somente a ensinar para o aluno ideal, permanece inalterado. Pesquisas publicadas pela UNESCO e até pelo MEC mostram que o currículo dos cursos de licenciatura estão muito distanciados da realidade. 
No mesmo período conseguimos universalizar o ensino fundamental e agora estamos a caminho de universalizar toda a educação básica. As crianças e adolescentes com deficiência de toda natureza foram matriculadas nas escolas regulares e, a formação dos professores, continua ruim. E também neste período, a profissão foi pertendo seu status e até mesmo o respeito da sociedade. 
As universidades ainda não encontraram o caminho para a formação adequada dos professores. E, nem mesmo os tribunais de conta aceitam o tipo de “capacitação” a título de valorização do magistério, que vem sendo dada aos professores no Brasil. Ou seja, o país está investindo mau e não pouco em educação.  
O professor brasileiro precisa ir para a sala de aula, olhar para seu aluno verdadeiro e constatar  que seus colegas dos anos anteriores fizeram um bom trabalho.  Os alunos estão chegando nas séries finais do ensino médio sem saber ler e escrever. 
Já inventaram até um novo conceito para este tipo de cidadão: o analfabeto funcional. Afinal, é funcional para quê? E os governos de todos os níveis continuam investindo em uniforme escolar, palestras sobre inclusão para que os professores ouçam que precisam dar atenção diferenciada ao diferente. 
Mas quem seria o diferente no momento em que se analisa ensino de qualidade e valorização do professor? Ele precisa dar conta de ensinar o diferente e quem ensina o próprio profissional que é diferente? 
Pesquisa divulgada no Boletim Na Medida, do INEP, em Setembro, mostra que os candidatos aos cursos de licenciatura no Brasil, especialmente de pedagogia, teveram  problemas de aprendizagem durante a educação básica. Ou seja, a má qualidade do nosso professor começa nas séries iniciais do ensino fundamental. E a profissão não é atraente para quem tem boa formação básica. 
Além disso, muitos dos estudantes de cursos de licenciatura não querem ser professor por diversas razões. Entre elas, a indisciplina e desrespeito crescente de alunos e pais em relação ao professor. 
O discurso sobre qualidade de ensino e valorização do professor continua lindo, mas na prática, pouco ou nada mudou nas últimas décadas no Brasil. 
As próprias escolas tiraram a autoridade do professor que é atacado fisicamente por adolescentes que acham que devem usar o celular em sala de aula. O ECA parece conter somente direitos de crianças e adolescentes, nada informa sobre seus deveres.  Mandar limpar a parede que riscou ou a carteira de sala de aula, é humilhar o aluno. Os pais tem poder até mesmo para “ditar” a nota que seu filho merece em trabalhos escolares. Isso é valorizar o professor?
Dar curso e pagar o “salário possível”, seguramente não é valorizar o professor. Valorizar significa respeitar e responsabilizar, remunerar e formar adequadamente, fornecer material didático adequado e em quantidade suficiente e, acima de tudo, criar nas escolar o ambiente propício ao ensino e à aprendizagem efetivos. 
O professor deve ser muito bem pago para ensinar a aprender, repassar e avaliar os conhecimentos produzidos pela humanidade. 
Valorizar o professor é construir uma escola totalmente voltada a ajudá-lo e defendê-lo de injustiças cometidas por alunos e pais contra ele.
Valorizar o professor é ter uma escola e uma comunidade atuando na defesa do direito principal do professor:  ensinar e avaliar a aprendizagem de seu aluno.
Os bons profissionais somente deixarão suas vagas no mercado de trabalho, retornando à sala de aula, se a sala de aula realmente for lugar de ensinar e aprender para professores e estudantes. 
É preciso fazer uma nova leitura do processo educacional e rever a escala de valores e investimentos. 
Valorizar o professor é atribuir o valor que ele realmente tem nasociedade. 
Valorizar o professor é devolvendo-lhe o lugar de REI ou RAINHA do templo do saber, que é a sala de aula e sua extensão: a escola e a sociedade.