Há algo de podre no reino ... (Novembro/2009)

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As provas do ENEM e do ENADE vazaram antes de sua aplicação. O que deixou à mostra a fragilidade do esquema de segurança das provas aplicadas pelo MEC e que podem prejudicar milhões de jovens e adolescentes no Brasil inteiro.
No caso do ENEM, o adiamento para o início de dezembro, além do prejuízo financeiro de mais de R$ 30 milhões, no bolso dos brasileiros, a nova data coincide com o final do ano letivo. 
Além do prejuízo pessoal para a vida dos estudantes que precisam fazer a prova para tentar uma vaga em universidades públicas e privadas ou uma bolsa do PROUNI, dezenas de universidades tiveram que mudar a data de seus vestibulares. 
Entretanto, o prejuízo poderia ter sido maior, um deles, o ingresso de pessoas despreparadas nas universidades públicas, e para isso, bastaria que as provas tivessem sido roubadas não por ignorantes, mas por marginais profissionais.  Já o ENADE sequer foi adiado ou alterado. O MEC limitou-se a dizer que não havia nada de errado. 
Mas se a situação não serviu para encher os bolsos dos ladrões com os R$500mil que queriam na venda, pelo menos a situação deixou à mostra a fragilidade da supervisão do MEC sobre o consórcio que venceu a licitação.  Afinal, são milhares de vagas em universidades públicas e particulares que estão em jogo, todas pagas com o nosso dinheiro.
Esta e outras situações põem o MEC entre as instituições públicas não confiáveis, ou pelo menos administradas amadoristicamente, mesmo que por Doutores, Mestres e Especialistas. Ou seja, também ao MEC falta profissionalismo no comando da coisa pública e de interesse nacional. Afinal o novo ENEM foi apresentado como uma espécie de prova capaz de provocar alterações significativas na qualidade do ensino médio.  E como o país poderá crescer sem profissionais?
A grande pergunta é, se o próprio MEC sequer consegue, com toda a estrutura e dinheiro, realizar uma prova com segurança, o que não aconteceria com os demais concursos públicos? 
Não é à toa que diariamente são anulados concursos, como o da UDESC e do TRE de Santa Catarina dentre tantos outros.
Deste modo, infelizmente, teremos de voltar a afirmar que o Brasil não é um país sério, ou pelo menos, seus atuais administração não têm a seriedade necessária para transformar o Brasil, numa nação em que a transparência e o respeito ao cidadão e ao dinheiro arrecadado por meio de impostos (os mais elevados do mundo) sejam  uma realidade.  
Neste aspecto até podemos entender as razões de manter a maioria dos brasileiros no estado de ignorância de seus direitos e deveres. Todo este empenho em manter os brasileiros dentro do país, e pobres,  seguramente tem o objetivo de não permitir que boa parte deles conheça outros países, de onde trariam a certeza de  que a  corrupção e a incompentência reinam    soberanas   Brasil. 
A educação de péssima qualidade é, com certeza, a única maneira de manter a maioria quase absoluta dos brasileiros, ignorantes e crentes nas propagandas governamentais enganosas. Como disse Celso Vasconcelos em sua palestra, durante a Jornada da Educação, em Joinville: “precisamos urgentemente ensinar e aprender a 'ler' a mídia brasileira. Não são poucos os que confundem propaganda governamental com matéria jornalística, inclusive entre os jornalistas. 
Pesquisas mostram que o presidente tem índices altíssimos de popularidade -como nunca se viu antes nesse país- e a propaganda governamental diz que o Brasil está muito bem. A crise financeira mundial foi só uma marolinha, mas a marolinha tem provocado renúncia fiscal contínua, e renúncia fiscal é deixar de receber dinheiro de quem nos deve e deixa os cofres de prefeituras e estados (quem realmente põe a mão na massa) em baixa. 
Nem um apagão em praticamente metade do país e outros de menor porte nos principais centros, como Rio de Janeiro e parte de São Paulo, foram suficientes para que o Governo Brasileiro reconhecesse que não tem investido em infraestrutura (e, neste caso, também em educação para a  profissionalização). Não é preciso muito para perceber que o Brasil vai mal e muito mal.
Sem nenhuma explicação técnica para o apagão, o culpa foi jogada para Deus, que parece estar deixando de ser brasileiro, dada a quantidade de tragédias provadas pela “ira da natureza”. 
Nesta linha de pensamento, quem sabe possamos concluir que Deus resolveu “punir seus maus filhos que pensam estar acima da lei, só porque, sentados nas escrivaninhas de Brasília, esquecem  que  há outros bilhões de brasileiros dependendo de suas ações e não só de discurso. 
Para completar o descaso com o investimento no ensino de qualidade o MEC anuncia a realização de uma licitação nacional para aquisição de uniforme escolar para todos os estudantes de escolas públicas do Brasil. Os estados e municípios podem participar da licitação. Ou seja, o próprio MEC está dizendo que uniforme escolar é investimento em educação e não assistencialismo.
Ou será que os educadores que trabalham no MEC não percebem que, ao doar uniformes, cadernos, merenda, transporte e até assistência à saúde das crianças, estão eximindo os pais da responsabiliade mínima com o filho,   que   é a sobrevivência física? 
Ao doar quase tudo, além de desviar a verba da educação para assistencialismo, os administradores públicos estão dizendo aos pais: deixe seu filho com o estado, nós somos provedores, você é só o criador, educar e prover é conosco, fique tranquilo. 
Ou será que em breve conseguiremos acordar e descobrir que há algo de podre no “reino tropical da América do Sul”?