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Reflexões natalinas sobre a profissão de professor (Dezembro/2009)

Outro dia, conversando com uma colega professora que está com o processo de aposentadoria em análise e já está afastada da sala de aula há oito meses, ouvi que este é o melhor fim de ano dos últimos 27 de sua vida. 
O primeiro final de ano em que está conseguindo vivenciar o tal “espírito natalino” junto à família e amigos, sem o estresse de exame final, recuperação, dos pedidos infindáveis de  ajuda aqui, dá ponto ali,passa meu filho por favor, ele já passou no vestibular, etc...
Num primeiro momento, senti como se ela ainda estivesse ficado aprisionada ao cotidiano escolar, mesmo estando em licença prêmio e, somente no final do ano, tivesse conseguido desvencilhar-se “dos grilhões” que a profissão de professora lhe impôs ao longo de sua carreira. 
Sabemos que é comum o professor sair de férias fisicamente, mas ficar ligado à escola e aos alunos, mesmo durante o recesso escolar. E que, sob a pressão de decidir a vida de um grupo significativo de crianças e adolescentes, no final de cada ano, sente-se aprisionado numa bola de neve, que cresce a cada ano, em pleno país tropical.
Então, sem neve física, a proximidade do verão nos proporciona um Natal absolutamente diferente do que estamos acostumados a ver nos filmes. E um final de ano, cheio de incertezas. 
Em vez de desejos de Feliz Natal, dúvidas e pedidos de  ajude-me. 
A conversa com minha colega, levou a uma reflexão acerca da profissão de professor. O final de ano, talvez seja o momento em que, diante das notas auferidas pelos alunos, os professores façam a avaliação de seu trabalho e, baseado no resultado da aprendizagem de seus alunos,  descobresse  um bom ou um péssimo profissional.
Qualquer que seja a decisão. A de dar a nota que o aluno precisa para ser aprovado ou a de manter as notas auferidas ao longo de um ano de estudos, reprovando-o, o professor sente o peso da responsabilidade sobre seus ombros. É como se estivesse atrasando ou adiantando o relógio da vida de seu aluno. 
Mas há ainda aqueles que levam para o  lado  pessoal. O aluno é aprovado ou reprovado porque é educado ou mal educado em suas relações com o professor, os colegas e as demais  pessoas da escola, não porque aprendeu ou deixou de aprender 70% dos conteúdos curriculares adequados a seu nível de ensino.
Após esta rápida reflexão, consegui perceber a sensação de leveza de suas palavras e aquele tom de - já fiz minha parte neste mundo de sofrimento infindável vivenciado pelos professores a todo final de ano letivo. E talvez esta seja a única mensagem que minha colega quis passar. 
Ainda bem que o ano de 2009 está acabando e que nestes últimos dias, tudo o que temos a fazer é reclamar da pressão e analisar um ou outro caso que precisa de uma análise mais acurada porque passou no vestibular ou estava com algum problema de saúde física ou mental, no dia do exame. E mais, é importante não deixar para decidir em 2010, isto seria transferir para o início do ano, um sentimento negativo, que ofuscaria o brilho da esperança de ter alunos melhores no novo ano.  
Nestes últimos dias do ano, tudo são lembranças.  As incertezas da adaptação aos novos administradores municipais; as violências verbais e, em alguns casos, até físicas, sofridas por profissionais da educação no exercício de sua função; a decisão do  TFJ alterando artigos da lei do Piso Nacional do Magistério. Tudo não passa de lembranças. Apesar de que, para alguns, esta lembrança beira ao limite do inaceitável e gera muito desconforto.
O ano letivo que começou com a triste notícia da morte de uma menina num dos CEIs de Joinville e acabou com a abstenção absurda na prova do ENEM, deixou à mostra que ainda temos muito por fazer pela e na educação brasileira, para conseguirmos níveis de qualidade de ensino que tornem os finais de ano mais agradáveis tanto para quem ensina, quanto para quem aprende, ou depende da educação para tocar a vida adiante.