Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Professores da infância (Março/2011)

Por Danilo Gandin* 
 
Durante muitos anos as crianças brasileiras foram educadas pelas professoras oriundas da antiga escola normal. Mesmo depois da década de setenta, quando se começou a possibilitar a escola para todos, a “habilitação de magistério”, do ensino de segundo grau, continuou a formar estas verdadeiras mestras que guiaram os primeiros passos escolares de muitíssimos de nós.
O progresso e a necessidade de aperfeiçoamento contínuo foram levando a formação destas professoras para o ensino superior. Agora, tramita, no senado, projeto de lei que torna obrigatório o diploma de nível superior para a docência na educação básica, inclusive na educação infantil e na primeira etapa do ensino fundamental.
Parece justo: a tarefa educacional – a prática de ajudar crianças a se educarem – exige uma imensidão de conhecimentos e de qualidades pessoais que só o muito estudo e a muita vivência podem construir. Quanto menor for a criança, maior deverá ser a preparação dos professores porque maiores serão as consequências dos acertos e dos erros destes profissionais.
Mas uma análise mais aprofundada da questão poderá apontar caminhos que preservem a profissionalização inicial do professor a partir do ensino médio.
De fato, há dois olhares que nos levam a decidir nossa prática: aquele que contempla os princípios oriundos da teoria e da nossa opção e o que se fixa sobre a realidade em que estamos vivendo. Nunca são boas as ações que se baseiam apenas na compreensão da realidade nem as que só levam em conta os princípios.
Assim, nos supermercados de hoje, alguns vegetais mais miúdos e mais feios exibem um preço maior do que outros, mais vistosos. Segundo os princípios da agricultura atual deve-se cultivar em grandes quantidades, com adubos e agrotóxicos determinados, para que possamos ter alimentos de qualidade para todos. Mas as circunstâncias que se compreendem a partir de uma análise mais profunda da realidade, dão valor a produtos cultivados organicamente, mesmo longe daqueles princípios da teoria.
Analisar a situação dos cursos de magistério a partir deste pensamento ajuda bastante a alcançar a verdade. Professoras assim formadas adquirem uma visão humana da criança mais real e verdadeira. Além de estarem mais próximas do seu estudo porque ainda não trabalham, estas meninas têm um curso com uma integração de matérias muito mais clara e mais profunda do que a que podem oferecer, hoje, as faculdades de educação.
Além disto, elas convivem, em seus colégios, com crianças da idade de seus futuros alunos e têm com estas crianças um contato mais profundo e mais continuado.
Como resultado, sua aprendizagem inclui, além dos conhecimentos que, mais tarde, vão transmitir a seus alunos, a responsabilidade de educadoras, voltadas para a construção de uma hierarquia de valores, onde estarão presentes a responsabilidade, a aceitação do diferente, o amor ao trabalho... e para o desenvolvimento de muitas habilidades, como a observação, a análise, a síntese, a criatividade, a admiração ante o mundo etc.
Por isto é de se apoiar uma das emendas ao projeto em tramitação no senado, a que abre espaço para a formação de professoras para o início do ensino fundamental nos cursos que sucederam as escolas normais.
 
* Danilo Gandin, professor, conferencista e escritor; mestre em educação e especialista em Planejamento Participativo; autor do livro “Crônicas para uma Nova Escola”, da Editora Wak.
 
 
Edição nº246 - Março/2011 

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