Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Blogs

Pais devem estimular a leitura (Jan-Fev 2012)

Por Ana Cássia Maturano*

 

A Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, realizada anualmente desde 1949, é o maior encontro mundial do setor editorial. Reunindo editoras, escritores e críticos literários é palco de debates interessantes sobre o papel do livro na sociedade moderna e as mudanças nos hábitos de leitura da população. A grande discussão do encontro de 2011 foi a popularização dos livros digitais, os e-books, que têm ganhado popularidade e já conquistou 20% do mercado editorial norte-americano.

 


 

Independente do formato em que é apresentada, a leitura tem sido preterida como opção de entretenimento pelo público infantil, cercado de atividades eletrônicas e opções multimídia de ensino e de divertimento. Enquanto os e-books são uma opção interessante para atrair a criança à literatura, a criação do hábito de leitura depende de vários outros fatores.

Como muitos hábitos são adquiridos por influência dos pais, as crianças podem aprender a gostar de ler a partir de atitudes simples. A prática da leitura exige uma atitude ativa, permitindo o exercício da criatividade, da imaginação e da livre interpretação.

Para fazer da leitura uma atividade prazerosa, os pais desde cedo devem presentear os filhos com livros e levar os pequenos leitores à bibliotecas ou em eventos como a Bienal do Livro e à Feira do Livro. 

Um bom começo é o próprio modelo dos pais, demonstrando prazer nessa atividade. Eles podem comentar com os filhos o que leram, buscar informações em material impresso e ler para e com as crianças num momento de prazer.

A leitura nunca pode ser aplicada como um castigo, para não tomar conotação indesejada, pois a criança pode associar esta atividade à punição. Isso tolheria qualquer entusiasmo, pois tal prática adquiriria um valor negativo.

Um tipo de livro para cada idade

A leitura pode e deve ser estimulada na criança desde cedo. A faixa etária é só um indicador. Antes de mais nada, é necessário observar o desenvolvimento da criança para perceber o que é mais adequado a ela, pois quanto mais nova, maior deve ser a participação do adulto em atividades envolvendo livros. Dicas para o estímulo da leitura em cada faixa etária:

Entre um ano e meio e três anos: Incluir entre os brinquedos, livros de papelão, plástico ou pano, contendo gravuras que permitirão à criança explorar o ambiente pelo tato e nomear os objetos.

Dos três aos seis anos: livros só com imagens e enredos curtos são os mais indicados, já que as crianças utilizam atividades lúdicas no seu impulso de descobrir o mundo real e a linguagem nesta fase. No material deve haver o predomínio absoluto das imagens, simples e de fácil comunicação visual, retratando histórias comuns relacionadas ao cotidiano da criança, que possam ter algum significado para ela.

O enredo deve ser curto, contendo humor e mistério, com repetição dos elementos para a manutenção de sua atenção. A participação do adulto é essencial, como leitor das situações apresentadas, permitindo à criança estabelecer uma conexão entre o mundo real e o mundo da palavra, que nomeia o real. O adulto deve tornar a leitura interessante e incluir a criança como um participante ativo, fazendo-a interagir com a história por meio de perguntas, por exemplo, ou pedindo que reconte a história numa outra situação.

Dos seis aos oito anos: é nesta idade que a criança inicia o aprendizado formal da escrita. A atividade requer ainda o predomínio da imagem como ferramenta para ajudar a criança a entender o texto. Assim, as situações apresentadas devem ser simples, referir-se ao mundo maravilhoso ou cotidiano, com toques de humor e ter começo, meio e fim. Outra dica, é buscar histórias com personagens bem definidos quanto ao caráter, para evitar que a criança se confunda quanto a esse aspecto. Para uma melhor compreensão do texto nesta fase, ele deve ser breve, conter palavras de silabas simples, frases em ordem direta e elementos repetitivos. Os temas podem ser variados, mas um elemento sempre atrativo nesta etapa é o da inteligência vencendo a força. Não se deve perder de vista que o pequeno leitor está se arriscando numa nova aventura, com muitos obstáculos a serem superados. Por essa razão, o incentivo carinhoso e compreensivo do adulto é fundamental nessa descoberta.

Dos oito aos 10 anos: Nesta fase em que a criança já tem um domínio maior do mecanismo da leitura, os livros devem conter imagens dentro de uma relação dinâmica entre o verbal e o visual, de modo a ampliar a compreensão do texto. As frases continuam simples, porém devem ser substituídas aos poucos por períodos compostos por coordenação. Com começo, meio e fim. As histórias preferencialmente devem contar com uma situação central, a ser resolvida com toques de humor e situações inesperadas, podendo ser reais ou fantásticas. Mais uma vez o adulto assume papel importante, não só de incentivador da atividade, mas também no pós-leitura, funcionando como um suporte frente às dificuldades.

Dos 10 aos 12 anos: Nesta idade, o leitor já domina o mecanismo da leitura, tem maior capacidade de concentração e abstração e é capaz de compreender o mundo expresso no livro. Os textos podem ser mais densos, maiores, com uma linguagem mais elaborada, sendo as imagens dispensáveis. Nesta fase, há uma grande atração por confronto de idéias, por heróis humanos que lutam por seus ideais, histórias de problemas cotidianos que impedem a realização do indivíduo ou histórias de amor, por elementos desafiadores da inteligência, num contexto realista ou maravilhoso. Há uma farta variedade de literatura para essa faixa de idade. Exemplos são contos, crônicas, novelas de aventuras ou sentimentais, mitos, lendas, ficção científica, policial, documentários, histórias de humor, de raças ou animais. E o adulto, qual função ocupa nessa empreitada? Aqui o leitor já é um pré-adolescente, alguém que se sente muito forte e portanto, dispensa a participação dos adultos, que podem assumir o papel de desafiados desse ser em ebulição. 

A partir dos 12 anos: Nesta etapa encontra-se o leitor crítico que, por ter um pensamento mais reflexivo e dominar plenamente a leitura, é capaz de fazer uma reflexão mais profunda do texto e da realidade. O mercado editorial para essa faixa etária é bastante amplo. Um adolescente que foi estimulado durante sua vida para o exercício da leitura, que frequentou livrarias e feiras, de uma maneira positiva, não terá dificuldade em saber o que ler, não só por seus interesses, mas por já estar habituado a atividades do gênero. 

 

*Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga pela Universidade de São Paulo -USP, coautora do livro Puericultura Princípio e Práticas (Ed. Atheneu), onde aborda o tema ´A estimulação cultural da criança´, e colunista de Educação do Portal G1.

  

Please publish modules in offcanvas position.