Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Blogs

“Estado” islâmico (JE 285)

Autor: Amadeu Garrido* 

O mundo assiste estarrecido e impotente as macabras execuções, pelos métodos mais torpes, praticados pelo denominado “Estado Islâmico”, que, de Estado, nada tem, a menos que se use o nome em vão e se esqueça da ciência do direito, da teoria geral e da doutrina do Estado. Na verdade, não passa de um  grupo de sicários, de meliantes cruéis, sem a mínima consciência do significado da vida humana. Tanto não é um Estado que  se define dubiamente como “Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EILL)” ou “Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EILS). 

Diz-se um “califado”, o sistema da ditadura das ditaduras, pretendente da mais elevada e incontrastável inteligência da religião muçulmana e cuja ambição de domínio territorial é modesta: Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Cipre e Hetax, além de uma parte da Turquia e de seus alvos ocidentais. O que  resta?, é a pergunta que se impõe.

Os Estados Unidos, o Reino Unido, a Austrália, o Canadá, a Indonésia, a Arábia Saudita e a ONU classificam esse grupo como terrorista. E daí? O Vaticano, sob a inteligência de Francisco, inobstante fica em silêncio. Ou ficava, veremos nos próximos dias, após o massacre e a ameaça aos cristãos, que não se viam até o Império de Constantino, no século IV. 

E não se esquadrinhou a pragmática efetiva para dizimá-los completamente e permitir a continuidade da vida neste século e a sobrevivência da humanidade. Nesta semana a ONU se debruça sobre o tema. Veremos. Enquanto isso, nós, filhos e netos continuaremos a ver imagens dantescas, depois de amenizadas, em nossos televisores. Nosso governo prefere engrandecer-se internacionalmente mediante um “affair” com a Indonésia.

O mundo dito civilizado e organizado sob leis e Estados legítimos fez muito mais contra outros povos, que nem à distância mereciam o massacre de seus direitos básicos a que foram submetidos. Como um dos exemplos, falemos dos ciganos. Um povo nômade, cuja inteligência já se demonstrava por sua inclinação peripatética, método de Aristóteles de andar e colher ao ar livre as inspirações de nossos pobres cérebros. Escaparam do húmus do Egito, perambularam pelo mundo, ninguém como eles invocou com tanta propriedade o benefício da dúvida e cultivou o ceticismo. 

Derrapados na ética como se fosse a arte o engenho dos mais espertos, mas sem se aproximar por uma única e minúscula célula da crueldade cavernosa desses jihadistas, sempre na procura das saídas pacíficas para os problemas do homem, foram perseguidos implacavelmente pela Igreja e pelo Estado, sobretudo na Espanha, Romênia etc.

Conheceram as galés e muitos de seus melhores varões as superaram em mais de dez anos forçados. Esses sobreviventes retornavam a seus alegres cortiços, em que se mesclavam a fome, a imaginação, as lágrimas, as danças, o espírito e as alegrias, e eram considerados os heróicos avós, os mais sábios, os mais respeitados, não pela força, mas pela história de heroísmo que dignificava a consciência coletiva. 

Foram perseguidos em massa - homens, mulheres e crianças - por exemplo, pela dinastia espanhola dos Bourbóns, que até hoje controlam o Palácio Real, sob a reverência dos povos de Espanha. Tirados de suas miseráveis habitações, lotaram caminhões em direção a cárceres imundos e depois ao trabalho forçado que forneceria o bem viver da Corte e de seus bajuladores dos rapapés. Muitos perderam a saúde e a vida, mas jamais o espírito e seu valor fundamental, que foi parar na bandeira da revolução francesa e que até hoje deveríamos cultivar mesmo acima da igualdade: a liberdade. 

No Brasil leniente, ainda que tardia. Entre os ciganos, imediatamente, ainda que a custo material insuportável. Os ciganos são monogâmicos, fiéis, mas não dispensam seus passeios ao sabor dos ventos que são os condutores da liberdade na natureza. Se a Igreja e o Estado foram implacáveis contra pseudos inimigos, não há razão para tolerar, nos dias de hoje, agressões torpes contra a humanidade por grupos que não tem nenhuma ideia do que seja justiça e vida em sociedade. Parar de considerar e praticar a ampla defesa, com os meios moderados que lhe são inerentes, porém sem deixar pedra sobre pedra.

 

* Amadeu Garrido de Paula é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho.      

Please publish modules in offcanvas position.