Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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PARAR, REFLETIR, AGIR (JE286)

                             Por Amadeu Garrido*

Momentos há na vida do homem e dos povos que é preciso refletir com muita concentração. E agir incontinenti. Sob pena de morte. Na batida que leva ao abismo não há diques salvadores que não sejam criados pela própria agonia. A irreflexão no plano pessoal, em geral, conduz a procedimentos mecânicos e seus desastrosos resultados. Na esfera política, uma nação pode morrer. A nação brasileira pode morrer. Morrer significa involuir até os mais baixos padrões de vida coletiva. Já atingimos muitos desses padrões, sob determinados aspectos. Por isso é preciso parar e reordenar para prosseguir.
O problema é que governo, oposição, sociedade civil, partidos e até mesmo as massas populares das ruas estão com medo. Com muito medo de nosso País perder de vez o bonde da história, dominados pela apatia dos que temem dar o rosto para bater, sem ousar analisar, discutir e propor concretamente. Crescimento zero, esgotamento dos recursos públicos, burocracia monumental e seus ministérios, corrupção que a cada dia agulha o espírito coletivo em gigantescas proporções, crônica e generalizada, equívocos administrativos, inépcia, obras inacabadas e glosadas, inflação corrosiva ameaçando às portas, federação mambembe animada pela insólita guerra fiscal do ICMS, municípios completamente endividados, crise moral, surto de credibilidade, mentiras que se somam em progressão geométrica, vaidades dos salvadores da pátria, ajuste fiscal incerto e indeterminado. Uma quadra de crise profunda e raramente vista num país que sempre viveu em crise.
Não há como negar que não teremos solução amanhã. Já chegam aos bares as previsões temporais para a saída. Nesta década, como preconiza o FMI, em dez anos, mais ou menos, otimistas e pessimistas, e pouca ou quase nenhuma meditação política sobre os rumos brasileiros. Por onde andam nossos politócologos, sociólogos, economistas, juristas, representantes augustos da “sociedade civil”? Passa-se a impressão de que, assim como muitos empresários, estamos prontos para jogar a toalha e demandar alhures a salvação pessoal.
Uma imensa e decrépita savana africana. Fugitivos por mares implacáveis. Poderemos ser náufragos e morrermos abraçados com venezuelanos, bolivianos, argentinos. Receio, fundado receio de chegarmos a esse desastre, está presente no recôndito de milhões de brasileiros. Parafraseando o jargão bancário, não somos grandes demais para quebrar.
Há dois pontos que precisam ser distinguidos. Os brasileiros não suportam mais ler as páginas policiais em que se tranformaram nossas leituras políticas. Dê-se curso às responsabilizações, não podemos deixar de estar informados de tantos fatos que nos provocam náuseas diárias, mas vamos ao ponto seguinte, animados por vontade irrefreável de superar as mazelas, com realismo e pragmatismo.
Claro que a iniciativa deve partir de um governo que, supõe-se, ainda tenha mínimos resquícios de patriotismo. Da Sra. Dilma Rousseff, que um dia sonhou com dias melhores, foi para o cárcere e hoje transfere a todos nós as mazelas de suas torturas. Não há como continuar, Sra. Dilma, a cada dia mais próxima do perfil de rainha da Inglaterra. O caminho é um só. O da altivez do General De Gaulle, por exemplo, que, na impossibilidade constada de prosseguir, renunciou e convocou eleições gerais. Não foi diminuído pela história. Ao contrário. Os interesses nacionais são muito significativos para que os subordinemos a nossos orgulhos, nossas idiossincrasias, nossos projetos de poder, nossos interesses pessoais mesquinhos. O Estado não foi criado para ser um instrumento de sobrevivência de alguns, mas para garantir a sobrevivência da sociedade como um todo.
Essa percepção está fora do alcance de hipostática sobranceria do atual governo, mas seus integrantes devem perceber, qual um celerado perseguido pela turba, que estamos presos num beco escuro e sem saída, salvo se se despojarem de seus interesses. Um ano, pelo menos, de muito trabalho e muita reflexão, sobretudo de nossos intelectuais, com intensa participação popular, no âmbito de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, que substitua a atual Carta, elaborada no momento atípico da grande transição mundial e do fim da guerra fria, riscada, remendada e desfigurada pelo poder reformador. Sem que daí sobreviesse nenhuma solução para nossos males.
Haverá campo para debate e solução de todos os temas, de todas as reformas, sempre propostas e jamais feitas, dado o conservadorismo covarde de nossos políticos, especialmente dos que se revezam no poder. Há que ousar para vencer. Há que renunciar aos interesses particulares para promover os interesses públicos, que satisfarão posteriormente os interesses privados, na roda dialética que gira, enquanto, todavia, permanecemos, qual um tribo primitiva, negando tudo, postergando tudo, ocupando as ruas, mas inconscientemente esperando a intervenção dos deuses.

*Amadeu Garrido de Paula é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho.

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