Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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O golpe do Estado no Sistema S (JE290)

Por Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho*

Vi várias crises neste país, todas superadas com muito sacrifício dos setores produtivos e do povo. A atual, porém, apresenta contornos econômicos, políticos e jurídicos muito graves, permeados por equívocos e problemas como o aumento de impostos, clientelismo no Congresso Nacional e corrução.
Analistas internacionais consideram que o lado positivo é o fortalecimento de algumas instituições sérias e competentes. O Ministério Público, a Polícia e a Justiça Federal têm sido alvo de elogios e de manifestações de apoio pela persistente e apurada caça de malfeitores. 
Nesse rol de instituições idôneas incluo, sem hesitar, o Sistema S, sobre o qual posso falar, pois acompanho de perto a ação do Senai e do Sesi de São Paulo há pelo menos quatro décadas.
O Senai foi criado em 1942 para qualificar trabalhadores da indústria, em pleno período de guerra, por iniciativa e empenho de empresários idealistas e patriotas, destacando-se o líder Roberto Simonsen. Logo depois veio o Sesi, para oferecer assistência aos operários em matéria de educação, saúde, alimentação, cultura e lazer. 
Dado o êxito desse modelo, foram criadas entidades similares do comércio e serviços, da agropecuária, dos transportes, do cooperativismo e das micro e pequenas empresas. 
Caracterizam-se por certa estabilidade de receita, gestão privada e estreito relacionamento com os respectivos setores produtivos. Já houve quem definisse essa estratégia como uma cooperativa destinada a apoiar as empresas e formar e assistir os trabalhadores.
Sem dúvida, a evolução e a força da indústria paulista devem-se muito às duas entidades, que, sempre em sintonia com as tecnologias mais avançadas, buscam atender às demandas das empresas e trabalhadores, por meio de uma rede de centros e escolas e de pessoal habilitado. 
Em agosto último, testemunhei o brilhante desempenho do Senai, alcançando o primeiro lugar na WorldSkills, a “Copa do Mundo” da formação profissional, superando fortes concorrentes, como a Coreia do Sul, Alemanha, França e China. Lembro, também, que a instituição tem vasta folha de serviços ao governo brasileiro no relacionamento internacional.
É evidente que qualquer plano de retomada do crescimento econômico deve ter como um dos fundamentos a indispensável atuação de tais instituições na formação e assistência às empresas e aos trabalhadores. Trata-se, pois, de preservá-las e fortalecê-las. 
Para surpresa e perplexidade geral, num conjunto de medidas para ajustar e reequilibrar as contas da União, parlamentares e o Governo Federal apresentaram a irracional proposta de confisco de mais de 30% da receita compulsória das instituições do Sistema S. É um desatino. 
Um ato de desespero semelhante a um abraço de afogado, que ao tentar salvar-se leva ao fundo o próprio salvador.
O golpe no Sistema S é fruto da incompetência e da falta de visão do Governo Federal quanto aos reais interesses coletivos do Brasil. Os prejuízos serão irreparáveis. 
O desenvolvimento nacional será comprometido de modo muito grave. Haverá forte redução dos serviços de assistência e formação técnica e escolar, com perda de profissionais qualificados e ociosidade da capacidade instalada. 
Os maiores ônus, entretanto, serão da sociedade, empresas, trabalhadores e do País. É melancólico constatar a falta de percepção dos nossos governantes quanto à relevância estratégica de instituições de reconhecido valor econômico e social.


*Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, 76, é Presidente Emérito da FIESP e do CIESP (Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). Ex-Diretor Regional SESI-SP e do Conselho Regional do SENAI-SP. 

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