Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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O poder da religião(JE291)

A religião é uma das maiores forças de coerção que existe. Ela sempre foi temida e respeitada por reis, governantes e a população em geral. A maior delas em número de seguidores, o cristianismo, tem influenciado grande parte do mundo desde que se estabeleceu como religião oficial do Império romano no quarto século de nossa Era. 
Os conceitos morais e regras de comportamento cristão se encontram impressos num livro que tem servido de bússola pelos líderes religiosos para conduzir seus rebanhos desde que foi concluído no fim do primeiro século da Era cristã.
Esse livro, como você sabe, é a Bíblia, o livro mais vendido no mundo, porém um dos menos lido. 
A Bíblia interfere ainda hoje em nossa vida, nossos relacionamentos, no modo de pensarmos e agirmos. Até aqueles que se dizem não religiosos são de uma maneira ou de outra apanhados de vez em quando repetindo opiniões e padrões de comportamento com base nos ideais do povo bíblico, embora nem o saibam. 
Um exemplo claro é a homofobia. A Bíblia condena a relação entre pessoas do mesmo sexo. Em Levítico 20,13 Javé manda matar o homem que manter relações homoeróticas. 
Mesmo entre ateus e não religiosos encontramos pessoas que têm verdadeiro ódio a gays. Talvez teriam outra postura se tivessem vivido na Grécia de Alexandre, já que naquele tempo, em certos casos, o amor entre homens era até admirado e incentivado, como no caso de soldados no campo de batalha: duplas de amantes protegeriam um ao outro com mais eficiência e coragem. 
Entre os que atiram pedras e insultam garotas que ganham a vida nas esquinas estão muitas vezes mulheres e homens que nunca leram a Bíblia, e nem se lembram do último dia em que entraram em uma igreja, o que não os impediu de receberem por osmose conceitos morais semelhantes aos de religiosos com quem conviveram desde a infância.
De fato, o código teológico de um povo é capaz de construir sólidos preconceitos e alimentar o ódio contra aqueles que se comportam fora da moral estabelecida pela religião, mesmo naqueles que alegam não ter nenhum vínculo com ela. 
Embora muitos conheçam a Bíblia apenas superficialmente e careçam de conhecimento de história das religiões, a maioria de seus leitores acredita que ela é a Palavra de Deus, e que nela encontram tudo que precisam saber sobre o modo certo de viver. 
De onde vem essa certeza? Da educação, claro. O ser humano tem a tendência em repetir os mesmo padrões estabelecidos pelos pais e o ambiente onde cresceu. Sempre foi assim. E isso também acontece com nossas crenças religiosas. 
O filósofo Bertrand Russell disse que “Com pouquíssimas exceções, a religião que um homem aceita é aquela da comunidade em que vive, o que torna óbvio que a influência do meio foi o que o levou a aceitar a referida religião”. 
De fato, poucos se dão conta que a maioria de nós se identifica como cristão, judeu, etc., não por  ter  passado anos no topo de uma montanha meditando sobre qual seria a religião verdadeira, mas porque absorveu a mesma religião daqueles com os quais convivia. 
Foi uma questão do acaso que eu e o papa Francisco nascemos em países de maioria cristã, em lares cristãos; se tivéssemos sido criados num kibutz, com fortes possibilidades seríamos judeus; estudado numa madrassa, islâmicos, e assim por diante. São poucas as pessoas que mudam de religião na fase adulta. 
As palavras ouvidas no colo da mãe têm inegavelmente poderosa influência no que acreditaremos mais tarde. Até os intelectuais, com todo o saber acadêmico, têm dificuldade de se desgarrar das pueris histórias da infância, porque elas lhes servem como amparo emocional, semelhante ao travesseiro preferido do tempo em que foram crianças.
 
 
Fernando Bastos é designer gráfico, artista plástico, escritor e estudioso auto-didata de religiões. Tem dois livros publicados:  Teofania (Design editora, 2009) e Crimes em nome de Deus (Multifoco, 2015). Participou com outros escritores dos livros “Contos Jaraguaenses”, “Jaraguá em Crônicas” e “Palimpsesto”. Escreve artigos e contos no site Recanto das Letras desde 2008.Tem artigos publicados no jornal O Correio do Povo de Jaraguá do Sul e no jornal eletrônico “Absoluto”. Blog: www.fernandobastosescritor.blogspot.com. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.: https://www.facebook.com/fernandocesar.bastos 

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