Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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A sábia natureza (JE301)

É compreensível a dificuldade de identificar algo positivo na inveja, não apenas por sua complexidade evolutiva, mas, sobretudo, pela inconsciência em nós mesmos da sua presença, e, naturalmente, a completa negação, uma espécie de defesa psíquica contra o mal-estar que chega com intolerante força, pois, historicamente, ela já recebeu as mais baixas considerações, além de ser alvo de críticas que se repetem qual um mantra na tentativa de afastar as forças negativas que sempre rondam o nosso santo desinteresse. 
A inveja sempre está relacionada a algo ruim, repugnante e de essência pecadora ao considerar os fartos registros existentes. Assim, corremos em uma incontida fuga, sem a entendermos com a necessária consciência. Uns lidam melhor, outros...
Caberia uma questão simples e ao mesmo tempo reveladora: Teria a natureza se equivocado ao dispor em nós a inveja, dentre tantos outros recursos? 
Desconhecemos tantos dispositivos e processos biológicos e psíquicos inerentes a nossa própria espécie, que “pecamos” pelo preconceito ao julgar somente um lado do caso, emitindo vereditos condenadores, sem qualquer chance de apelação. 
Acaso não haveria uma finalidade fundamental na inveja, além dos excessos que a caracterizam tão desfavoravelmente? E se estivermos, cada vez mais, próximos de elucidar o seu lado original e favorável, trazendo luz ao obscuro porão das incompreensões? Não vale a pena abrir a porta dourada das chances?
Estudos da Universidade de Bonn, na Alemanha, por exemplo, mostraram que as pessoas se importam não apenas com o que ganham, mas com o que ganham em relação a outrem (até já sabíamos); as comparações fazem parte da espécie humana para além da simples curiosidade, alcançando incômodos íntimos quando o outro está em posição de melhor benefício, assim compreendido por cada um. 
Também em Oxford, trabalhos realizados indicam a função de melhoria pessoal evolutiva, qual a Universidade do Texas, com o trabalho ‘A Natureza da Inveja’, detectando que ao observar além de si, o sentimento de inveja pode proporcionar a vontade de imitar alguns aspectos que levam ao sucesso alheio como vantagens que queremos para nós.
Que tal refletirmos? O ponto central talvez esteja na forma como a inveja é utilizada, pois quantas vezes já não tivemos o desejo de fazer melhor certa atividade, e então nos doeu por dentro perceber que alguém se encontrava mais adiantado (aqui exige a nossa dedicação em não negar rapidamente tais experiências no íntimo). 
Então extraímos a oportunidade de nos dedicarmos mais, bem mais, até alcançarmos os resultados que nos trouxeram não apenas a excelência, mas o reequilíbrio pelo conforto de nos percebermos capazes também.
Por outro lado, temos a opção de não fazermos nada a respeito, e permanecermos no mesmo lugar, e a cada estímulo recebido ao se deparar (ou lembrar) com o avanço alheio, somos invadidos pelo mal-estar (um agente provocativo, inquietante, a reclamar pelo nosso esforço), deixando-se dominar pela raiva, às vezes pela tristeza também, sem, contudo, ter a consciência de que apenas deixamos escapar (temporária ou permanentemente) a chance de progredir na jornada exigente que é a vida.
Não há nisso uma beleza inteligente, brilhante, na verdade, que nos impulsiona todo momento em direção ao crescimento pessoal (e em outros, decorrentemente), ainda que pouco ou nada enxerguemos a seu respeito? 
Não está correta a antiquíssima e profunda natureza em suas peripécias evolutivas cujos objetivos são sempre voltados à sobrevivência, aperfeiçoamento e transmissão das informações genéticas às descendências? Não há algo de extraordinário além das nossas percepções?
 
SOBRE O AUTOR: *Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo.
 

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