Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Um livro que abraça (JE302)

 Um bom livro precisa ser bem escrito em cada frase. Precisa de narrativa com bom enredo, desses que agarram o leitor. Ainda melhor quando a narrativa descreve fatos reconstruídos com o rigor da História. 
Outra importante qualidade é a mensagem ficar, mesmo depois de concluída a leitura. Matheus Leitão conseguiu reunir tudo isso nas 448 páginas do livro Em nome dos pais, da editora Intrínseca. Com um impacto adicional para certos leitores, por ser a história da geração deles. Por essas razões posso dizer — como ouvi do pastor Gustavo Paiva — que “o livro do Matheus nos abraça”.
A obra narra as investigações do autor para reconstituir a saga de seu pai, Marcelo Netto, e de sua mãe, Miriam Leitão, no começo dos anos 1970, quando foram presos e torturados por serem militantes do PCdoB. O livro conta a história do próprio livro e de seus personagens, em narrativas que se interpõem formando uma obra magistral de reportagem e de reconstituição histórica. Além disso, é um relato memorialista de sua família do Brasil no período em que eles lutavam contra a ditadura e pela democracia — da mesma forma com que o autor depois lutou pela verdade histórica. São duas formas de luta, com riscos e consequências diferentes, pessoas e histórias que se entrelaçam apesar dos tempos separados. Sua investigação não apenas reconstitui e descreve o que Miriam e Marcelo passaram. Vai além: identifica e dialoga com diversos dos antigos companheiros da luta deles, localiza e entrevista agentes da ditadura que participaram da tortura, assim como o informante que levou às prisões.
Ao encontrar esse traidor, o autor vive e escreve um dos mais emocionantes capítulos da obra. Matheus, que é evangélico, dialoga com o informante e seu filho, também evangélico, participa da conversa. Diferentemente de um relato passional de natural ódio contra aquele personagem, ou da frieza de que se orgulham alguns jornalistas, Matheus passa emoção, demonstra lágrimas e mal-estar, mas não deixa de passar a ideia de um encontro, 40 anos depois, em uma favela de Vitória (ES), com esse operário, líder dos jovens estudantes que se transformou no denunciante. Ao longo da conversa, fala-se de dor, culpa, destino, inevitabilidade, livre arbítrio, traição. Fala-se também de ideias políticas, liberdade, socialismo, ilusões. Diálogos que nos fazem, por outro lado, perceber a rigidez das classes sociais no Brasil, onde o operário continuou na favela e os jovens estudantes de classe média ascenderam ainda mais na escala social, graças obviamente à chance de estudar.
Em um relato de suspense, Matheus descreve a procura do capitão do Exército que foi o principal torturador. Localizou-o, mas não conseguiu entrevistá-lo porque havia falecido anos antes. Mas falou por telefone com seus filhos. Estes se negaram a um encontro e, mesmo dizendo admirar a Miriam, manifestaram admiração incondicional pelo pai e por políticos que hoje continuam defendendo a ditadura. Essa tentativa frustrada impediu o que teria sido uma cena muito especial, mas permitiu a manutenção do clima de suspense e um final surpreendente. A cena final descrita no livro passa a imagem de quem buscou conhecer o passado e fica esperando respostas que ainda não tem.
Concluída a leitura, ficam a lembrança desse período triste de nossa história e a convicção de que precisamos conhecer todas as verdades daquela época para estarmos alertas no sentido de evitar que o Brasil volte a passar por esse cenário. Ficam ainda a admiração pelos heróis e a repulsa aos vilões, além da esperança de reconciliação entre os brasileiros, mesmo em lados tão opostos quanto torturado e torturador. E sobretudo fica uma magnífica obra que nos emociona, empolga, inspira: um manifesto lírico de amor aos pais, de compromisso com o país e com nossa democracia, de alerta aos riscos futuros de nossa História, e uma prova de competência profissional. Um belo livro, que nos abraça e emociona.
 
Cristovan Buarque é senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) 

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