Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

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Por um espaço formador de leitores (Junho/2010)

Por Maria de Fátima M. Baumgärtner*              
 
Não acredito que uma criança não goste de ler. Se alguma delas ainda fala isso, é porque não foi estimulada. É como aquela frase que já citei no meu primeiro livro: - ninguém ama aquilo que não conhece e nem dá o que não tem. Ou seja, o exemplo é tudo. 
 
Ela ainda está desenvolvendo sua capacidade de abstração, está se alfabetizando. Incorporando modelos que lhe servirão para a vida toda. A família deve ler para ela. Assim ela segue o exemplo. 
Já na escola, cabe ao professor/mediador promover a sua entrada no universo da leitura. A imaginação dela é seu passaporte para um mundo de fantasias. Partindo deste pressuposto, entende-se que ela poderá acessar esta ferramenta que a transporta até seu reduto de conhecimento prévio, que lhe fornece subsídios para se apropriar de um entendimento que corresponde à sua faixa etária. 
Assim ela poderá, ainda que através da narrativa visual, processar as informações recebidas num dado momento. 
É necessário investigar o motivo quando ela fala isso. Há mais de vinte anos desenvolvo atividades com leitura. O resultado sempre mostrou que este é o caminho certo e que é possível formar leitores. 
Certa vez, uma professora me falou que um aluno seu não gostava de ler e que jamais havia se interessado por livro nenhum. Num destes momentos de leitura, resolvi ler uma história para a turma dela. Enquanto outros ouviam, ele apenas ficava apático, isolado. Observei que ele desviava o olhar do livro que estava em minhas mãos. Era um livro lindo que falava da lenda do sol e da lua. Eu gesticulava, ria e ele não se manifestava. 
De repente, ao mostrar uma das ilustrações, percebi que ele voltou seus olhos para o livro e continuou assim até o final da história. 
Perguntei aos alunos se queriam falar algo sobre o que ouviram. Muitos participaram. Então esperei para ver se mais alguém se manifestava. Para nossa surpresa, ele levantou a mãozinha e disse: - prô, volta naquela página. Então perguntei o que tinha chamado a sua atenção. Ele me disse: - aquela figura da lua. 
Duas semanas depois ele voltou à biblioteca e agora livremente já escolhe um livro e leva para casa. Ele interessou-se por livros com temas espaciais. Foi por isso que ele gostou da história da lua, lembram? Isso me faz citar aquela velha frase: - Este garoto vive no mundo da lua... Eu mesma vivia no mundo da lua e hoje sou poeta. 
Este é o prazer da descoberta. Saber esperar o tempo certo de cada leitor principiante. O que caracteriza o seu modo de ler e escrever no futuro, reflete o seu histórico do passado. 
Se ele fosse forçado a ler, prestar atenção, e principalmente responder perguntas com frases feitas que muitas vezes são ditas aos alunos, garanto que não teria coragem de se manifestar. 
Quando a criança deixa de olhar para quem está falando, nem sempre é por desinteresse. Na verdade, ela está olhando para dentro de si mesma, para estabelecer associações com algo que já conhece, para poder interpretar o que está ouvindo. 
Nos contatos com professores, sejam eles na biblioteca onde trabalho, em conversas ou no desenvolvimento de atividades, cuido para nunca apresentar a leitura como se fosse uma obrigação, mas sim como uma grande descoberta de prazer e entretenimento. 
É preciso ter muito cuidado na escolha da obra. Não se pode exigir do leitor principiante a mesma desenvoltura de um leitor fluente. É preciso paciência e respeito pelo tempo que cada um necessita para tornar-se leitor. É essencial que o mediador da leitura, acredite que ela é o caminho para a melhoria do aprendizado dos alunos. 
Não basta apenas criar o hábito de leitura, o empenho deve ser diário, criando o desejo da leitura por prazer, ampliando a concepção de mundo e desenvolvendo o senso crítico. 
A escola pode e deve ser um espaço de leitura, mas depende como ela é oferecida à clientela. Se os professores lerem, utilizarem a biblioteca para os devidos fins, acima de tudo conduzirem a mesma com significado, é possível que ela deixe de ser apenas “um espaço de leitura” e torne-se um “”espaço formador de leitores”. Isto pode ser um sonho, sim. Mas nunca será utopia!
 
Maria de Fátima M. Baumgärtner é especialista em Psicopedagogia Clínica/Pedagoga, professora, sócia fundadora da Sociedade Escritores de Blumenau. Possui 2 livros editados, “Essência do Ser”, de poemas  e “Cais” Verso e Prosa. Participa de diversas antologias e E-books. Atualmente é mediadora de Leitura e Pesquisa na Biblioteca Princesa Isabel da E.B.M Pastor Faulhaber, em Blumenau - SC e administra o blog http://www.bibliotecaleituraepesquisa.blogspot.com/. 

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