Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Campo Alegre

Clima agradável e belezas naturais atraem visitantes e alegram os moradores do Paraíso da Serra


     A fundação da cidade de Campo Alegre está ligada à colonização das terras da Princesa Dona Francisca e do Príncipe de Joinville. A abertura da Estrada Dona Francisca – a Franciscastrasse – em 1858, começou como iniciativa particular, mas logo foi transformada em obra do Governo Imperial.

     O percurso da estrada, iniciada em Joinville – sede da Colônia Dona Francisca -, e com término previsto para Curitiba foi redefinido tendo como ponto de chegada a cidade de Rio Negro e passava por terras disputadas entre as Províncias do Paraná e de Santa Catarina, exatamente na região em que foi instalada a cidade de Campo Alegre. O Paraná considerava suas as terras da divisa pelo Rio Negro, com sua nascente localizada no Quiriri. As mesmas divisas do dote de casamento da Princesa Dona Francisca, irmã de Dom Pedro II.

     No período de 1853 a 1857, engenheiros fizeram diversas explorações para encontrar a melhor e mais fácil subida da serra até Curitiba, definindo o Vale do Rio Seco como o mais apropriado local.

     Em 1858, por solicitação da Cia. Colonizadora, o governo imperial aprovou a construção da estrada, que ligaria Joinville - São Miguel - Tijucas do Sul - Curitiba. Quando a construção da estrada chegou nas terras em que foi fundada a cidade de “Froeliches Feld” ou Campo Alegre, já havia moradores residindo próximo ao Salto Branco. O nome da cidade é uma alusão às belas paisagens naturais do local.

     A Serra Dona Francisca se transformou em rota obrigatória entre Santa Catarina e Paraná. Além da localização privilegiada, Campo Alegre contava também com a fartura da erva-mate e era um ponto de pousada para as carroções e cavaleiros que seguiam de São Francisco e Joinville para o Paraná.


Prosperidade

     Entre os primeiros povoadores de Campo Alegre destacam-se Francisco dos Reis Carneiro, Amâncio Alves Correia, Joaquim Machado dos Santos, Manoel Soares, José Soares e Anastácio Prêto de Chaves.

     No dia 23 de Agosto de 1872, o governo imperial começou a medição dos lotes coloniais e construiu o primeiro rancho na localidade de São Miguel, distante apenas 5 km do centro da cidade.  Em 1876, chegavam os colonos europeus nos lotes comprados no território contestado pelo Paraná. 

     O primeiro negociante a se estabelecer em Campo Alegre foi o Coronel Bueno Franco, que em 1883, mantinha uma olaria. Em seguida, Olímpio de Oliveira e Augusto Schroeder iniciaram suas casas comerciais.

     Augusto Fertig e Antônio Moreira Ramos eram proprietários de uma padaria e Luiz Buchmann era açougueiro, no ano de 1887.  Antônio Pedro de Carvalho Lisboa era encanador e Wolfgang Ammon acolhia os viajantes no seu hotel em São Miguel, neste mesmo ano.

     No ano de 1887, o então Distrito de Campo Alegre, ligado à cidade de São Bento, contava com 12 casas comerciais, engenho de beneficiar erva-mate, sapateiros, selaria, ferraria, marceneiros e atafonas  para atender aos 331 moradores e a todo o movimento comercial do Norte do estado, bem como o Sul e interior do vizinho estado do Paraná.

     Em 1888, o povoado de Campo Alegre tornou-se distrito de São Bento, e no dia 18 de março de 1897, conquistou sua emancipação política administrativa.  E por mais 30 anos seu progresso foi contínuo. No início do Século XX, um novo grupo de imigrantes europeus, em sua maioria de origem polonesa, fixou residência em Bateias de Baixo. 

     A construção da Igreja Matriz, da Santíssima Trindade, teve início em 1887 e ficou pronta cinco anos depois, em terreno doado por Francisco Teixeira de Freitas. Os tijolos e telhas foram doados por Francisco Bueno Franco. A imagem da padroeira, importada da Alemanha, talhada em madeira, é uma das atrações do turismo religioso da cidade ainda hoje.

     Diversas melhorias foram sendo efetivadas não somente na igreja matriz, mas também nas demais, construídas pelos fiéis que sempre tiveram nos padres a figura de líder comunitário. Um exemplo é o Padre Luiz Gilg, vigário da Paróquia de Campo Alegre de 1941 a 1964.

     O vigário esteve à frente de diversas ações em benefício da comunidade. Entre os benefícios resultantes das atividades do Padre, a construção e instalação do Hospital São Luiz, inaugurado em 1960 e administrado pelas Irmãs Salvatorianas, é uma das mais significativas para o município.

     Ao mesmo tempo em que providenciava a vinda das Irmãs para administrar o Hospital, Padre Gilg trouxe o médico ortopedista Karl Duda, que por muitos anos atendeu não somente a população de Campo Alegre, mas também de toda a região e  de municípios distantes. A fama do “Dr.Duda” como era conhecido, atraiu para Campo Alegre, centenas de pessoas em busca de tratamento ortopédico.

Autonomia e desenvolvimento

     À época de instalação do município, por razões ainda desconhecidas, a moeda corrente na cidade era a apólice Coupon, com os dizeres Empréstimo Municipal de 1897 e a assinatura do então prefeito Francisco Bueno Franco, os papéis circulavam com os valores de $100 e $ 200 Coupon. 

     Em 1899,  começou a circular o jornal “Campoalegrense”. Em 1906 era inaugurada a ponte na Estrada Rio Vermelho, com grande festa. No dia 5 de março de 1907, Campo Alegre foi visitada pelo então vice-governador Abdon Baptista. O político fez questão de relembrar, em reunião na Câmara de Vereadores, que sua vida comercial iniciou-se neste município, onde era proprietário de um engenho de erva-mate.

     As festividades e cerimônias oficiais contavam, já em 1906, com animação da banda musical “Carlos Gomes”. As bandas musicais eram características da cidade que ao longo de sua história foi vendo nascer e desaparecer bandas. Entre as mais duradouras, uma que funcionou de 1938 a 1945, regida pelo maestro Max Jacoch, tinha como membros Oscar Schwarz, Carlos Hansen, Euclides Jacoch, Pedro Cubas, Waldemar Schwarz, Albano Hansen (Quino) e Sebastião Leeck. 

     No início do século passado, o voto era livre e público. Não havia obrigatoriedade de votar e o eleitor falava publicamente seu voto.  O morador era livre para se inscrever como eleitor, mas o voto público tirava dele a liberdade de escolha, tendo em vista de que ao declarar seu voto, ficava à mercê dos adversários políticos. 

     A declaração pública do voto provocava desavenças entre os munícipes. A insatisfação com o resultado de eleições municipais provocavam muitas brigas, chegando ao absurdo de, em 1919, a prefeitura municipal ser incendiada.

     Em abril de 1920, foi inaugurada a Usina Santa Isabel que passa a fornecer energia elétrica à cidade. Os veículos automotores passaram a pagar impostos municipais, a partir de 1926, entretanto, em 1922, Dinarte Cubas circulava pelas ruas da cidade com seu automóvel. 

     A chamada época áurea da erva-mate estendeu-se até meados da década de 1920 e contribuiu também para o desenvolvimento das localidades de Fragosos, Avenquinha e Ribeirão do Meio entre outras.  A cidade prosperou a olhos vistos. Em 1928, a prefeitura voltava a ter prédio próprio, mas uma grande enchente destruiu as pontes sobre os rios Postema, Tijocume e Bateias de Cima. Os investimentos na recuperação de estradas e propriedades também foram grandes.  

     Na década de 1930, a crise financeira mundial, devido a queda das exportações de erva-mate, a instalação das ferrovias ligando São Francisco do Sul ao Paraná, bem como a abertura de novas vias de comunicação terrestre entre os dois estados e a instalação de Postos Fiscais de cobrança de impostos de importação e exportação ao longo do Rio Negro, o comércio foi praticamente todo desviado de Campo Alegre.

     O vereador Paulo Schroeder sugeriu e a Câmara de Vereadores aprovou a compra de um terreno para a construção do Grupo Escolar Lebon Régis, que em 1932, foi “invadido” pelas forças revolucionárias, transformando Campo Alegre num dos centros das disputas da Revolução Constitucionalista.

     Os campoalegrenses passaram a receber atendimento médico e farmacêutico na cidade somente a partir de 1941, quando chegou à cidade o Padre Luiz Gilg. Os casos mais graves eram encaminhados ao hospital de São Bento. Somente em 1953 foi construído o Posto de Saúde, que iniciou o funcionamento no ano seguinte, com a presença do médico Mário Kormann. 

     Em 1954, sob a presidência do Padre Luiz Gilg, foi fundada a Sociedade Hospitalar Beneficente Santíssima Trindade de Campo Alegre, responsável pela construção e manutenção do Hospital, inaugurado em 1960.

     Mesmo época em que a cidade ganhava sua primeira agência bancária, o BESC. O Banco do Brasil foi inaugurada somente no dia 22 de outubro de 1982. 

     O associativismo é uma das marcas da economia de Campo Alegre. Os produtores rurais sempre tiveram sua força multiplicada. Assim, as associações, cooperativas e sindicatos classistas sempre foram um forte atrativo, pois juntos ficam mais fortes. Em 1944, foi instalada a Cooperativa de Produtores de Mate de Campo Alegre, com total de 169 sócios.

     Em 11 de junho de 1946, era fundada a Associação dos Produtores Rurais, mais tarde transformada em Sindicato dos Produtores Rurais de Campo Alegre. Já o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, fundado em 1970, aglutinou também os pequenos produtores. A primeira diretoria tomou posse em 18 de março de 1971.

     Os industriais e comerciantes de Campo Alegre fundaram a Associação Comercial e Industrial de Campo Alegre –ACIACA, em 1987, mesmo ano em que foi fundado o Rotary Clube de Campo Alegre que desde então organiza eventos e campanhas comunitárias, que mais tarde viabilizou a fundação da Fundação Educacional de Campo Alegre-FECAMPO.

 A vocação para o turismo

     Com a queda drástica do comércio, a cidade assistiu ao declínio. Parte da população partiu para outros núcleos de colonização em busca de trabalho e melhores condições de vida. Os principais destinos das famílias eram os núcleos de Ouro Verde (ou Canoinhas) e Rio Negrinho.

     A crise despertou moradores e lideranças para os benefícios de se ter um clima seco e agradável. Esta característica ajudou a cidade a descobrir outras vocações, como o turismo, a agropecuária e o beneficiamento de madeira. Já no início do século passado, diversas famílias de Joinville mantinham propriedades em Campo Alegre, onde passavam os meses de verão.

     Os passos mais concretos para a transformação da cidade em destino turístico foi a criação da Sociedade Amigos de Campo Algre-SACA, em 1962. No ano seguinte, no mês de maio realizava-se a primeira Festa do Pinhão, realizada anualmente com grande afluxo de pessoas. A SACA funcionou informalmente até setembro de 1964, quando foi instituída oficialmente, tendo na presidência Rudolfo Stutzer, seu idealizador e motivador. 

 

Bibliografia:
SCHNEIDER, Adolfo Bernardo. Povoamento-Imigração Colonização.Edição do Autor, Joinville-SC, 1983.
História de Santa Catarina, 1º Volume, Grafipar, 1970.
FICKER, Carlos. São Bento do Sul – Subsídios para a sua história, Edição do autor, Joinville-SC, 1973.

Please publish modules in offcanvas position.