Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Corupá

Colonizadores sonhavam com uma vida melhor

     A história de Corupá está vinculada às de Jaraguá do Sul e Joinville. As terras em que foi construída a atual cidade de Corupá pertenciam ao espólio da Companhia Hamburguesa de Colonização, contratada para ocupar as terras do Príncipe de Joinville, François de Orleans e da Princesa Francisca Carolina, filha de D. Pedro I; e do Conde d’Eu com a Princesa Imperial Dona Isabel (herdeira do trono brasileiro).

     O espólio da Hamburguesa  foi assumido, em 30 de março de 1897 pela Companhia Hanseática de Colonização, que sob a direção de Karl Fabri fundou a Colônia Hansa Humbold. No dia 7 de julho de 1897 foram entregues os primeiros títulos de propriedade aos colonizadores pioneiros. Otto Hillbrecht e Otto Hillbrecht filho (lotes 6 e 7)  e o taxidermista Wilhelm Ehrahrdt e sua esposa Dorethea (lotes 2 e 3) chegaram da Europa na mesma canoa e foram recebidos pelo agrimensor da Colônia Hansa, Eduard Krish.

     Os primeiros colonizadores, de posse dos títulos de propriedade, foram acomodados no galpão de recepção e usando facões, machadinhas e machados, iniciaram a derrubada da mata para dar início à construção da atual cidade de Corupá.

     As duas famílias, juntamente com a Companhia Colonizadora, recepcionaram a segunda leva de imigrantes, cinco meses mais tarde.

     No dia 5 de dezembro de 1897, chegavam à Hansa os novos proprietários Wilhelm Rösch, Heinrich Groth e família, Josef  Mischka e família. Cinco dias depois Emil August Rosenberg tomava posse oficialmente de seu lote. Com eles chegou também Léo Eschweiler. Vinte dias depois, no dia primeiro de janeiro de 1898, chegavam Bruno Muller e Heinrich Harm.

     Um total de 787 lotes foram vendidos a europeus na Colônia Hansa. Os lotes eram pagos a longo prazo em pequenas parcelas. O contrato entre a empresa colonizadora e o governo da província determinava que a quantidade de imigrantes sem recursos para adquirir lotes, que viajavam com as despesas pagas pelo governo brasileiro, fosse equilibrada com a de imigrantes com dinheiro suficiente para pagar seu lote e ainda oferecer trabalho remunerado aos compatriotas. Os imigrantes que não tinham recursos para saldar as dívidas ou pagar as prestações das terras, trabalhavam para a Sociedade Colonizadora ou para os compatriotas.

Antes da cidade 

     Os primeiros europeus a passarem por terras catarinenses teriam sido o alemão Hans Staden, em 1547 e o também alemão, o agricultor Johan Ferdinand, enviado pelos espanhóis com o propósito de ensinar agricultura os índios Carijós. Este segundo, na verdade, teria percorrido o célebre caminho de Peabiru, que se iniciava em Barra Velha e que ligava os Andes ao Oceano Atlântico. Os aventureiros, guiados pelos índios, estavam interessados nos tesouros Incaicos dos Altiplanos Andinos.

     À época da colonização de Jaraguá, em 1878, tropas de Emílio Carlos Jourdan, passaram por Corupá com gado adquirido no Paraná. O próprio Jordan, em 1876, atribuiu nomes a acidentes geográficos da cidade. Em 9 de maio de 1879, uma expedição chefiada pelo engenheiro alemão Albert Kröhne, partiu de São Bento do Sul com a incumbência de traçar um caminho entre São Bento do Sul e Jaraguá, estabelecendo assim, a ligação entre Curitiba e São Francisco do Sul e explorando a região.

     Em 1883, o agrimensor, topógrafo, engenheiro mecânico e caçador de bugres Antônio Ferreira Lima, proprietário de terras em Rio Negrinho foi morto pelos índios botocudos. Entretanto, as picadas abertas pelas expedições e pela Companhia Hanseática não permitiam a passagem de carroças ou carros de boi. Até mesmo animais eram raros na época da colonização de Corupá.

     Atraídos pelas ofertas alardeadas pelas companhias colonizadoras, os europeus atravessaram o atlântico em busca de uma vida digna e melhor em sua nova pátria. Mas após chegarem sentiram-se abandonados à própria sorte e como não tinham os recursos para voltar à Pátria Mãe, tomaram as providências necessárias para oferecer escola, igreja, lazer e sustento para si e para os familiares e empregados. A ajuda vinha principalmente da pátria-mãe, distante, mas presente em solidariedade.

Casa e comida difícil

     A condições de vida dos primeiros colonizadores era muito precária. As dificuldades iam desde a adaptação ao clima tropical e à cultura dos caboclos posseiros, à presença invisível dos bugres, até às dificuldades para conseguir alimentos e mantimentos, visto que precisavam ser transportados de Jaraguá de canoa, via rio Itapocu, único acesso à Hansa até 1900.

     O casal Ehrhard abriu, em 1899, a primeira casa comercial da Colônia. A casa comercial logo foi vendida para o comerciante Georg Czerniewicz, de Jaraguá. E em seguida, para o comerciante Heinrich Meyer, de Joinville. A filial era gerenciada por Leo Eschweiler. E, mais tarde, em 1907 por Otto Hillbrecht Jr., que a adquiriu e transformou em empório.

     Também em l899,  o casal Wilhelm e Maria Pieper fundou o Hotel Schraut, o primeiro de Corupá. Este hotel foi transformado, mais tarde, num hospital pela “Frauenverein”. Enquanto Pieper transferiu seu hotel para as imediações da estação ferroviária. E ainda hoje lá funciona o Hotel Krelling.

     Um dos primeiros colonizadores, em seu relatório, descreveu as dificuldades iniciais. “O que foi difícil no primeiro ano, era conseguir alimentos. Dependia-se da turma de agrimensores quando eles, de tempos em tempos, navegavam numa canoa pelo Itapocu. Tínhamos que aproveitar a oportunidade e pedir que trouxessem as mercadorias. Às vezes acontecia de a canoa virar e as mercadorias se encharcarem”.

     O historiador José Kormann, no livro Hansa Humbolt ontem, hoje Corupá , na página 57, descreve que as primeiras casas eram construídas com palmito. “Os troncos roliços do palmito eram enterrados por uma das extremidades para servirem de esteio. Para fazer paredes, os palmitos eram rachados em quatro ou seis partes, formando ripas. O interior do palmito, a parte mole,  servia de alimento. Essas ripas eram amarradas com cipó, que também eram cortados em duas partes, de ponta a ponta. Na cobertura usavam caibros e ripas de palmito. A cobertura era feita de folhas de palmeira Guaricana.  Isto o imigrante aprendeu de moradores locais, anteriores ao imigrante”. Conseguir fogo era difícil, era preciso mantê-lo acesso. Por isso o chão era de barro batido.

Uma nova pátria

     Com a chegada de novas levas de colonos, entre dezembro de 1897 a 1899, a direção da Colônia reservou uma canoa só para buscar mantimentos com canoeiros próprios. Ao mesmo tempo, a construção da estrada para transporte com carroça era intensificada. A cada nova leva de colonizadores, chegavam mais pessoas dispostas a investir e construir uma cidade confortável. A cidade finalmente começou a se formar. Alemães, poloneses, suíços e Italianos são os principais ascendentes europeus da Corupá de hoje.

     Em 1899, era fundada a primeira escola para os filhos dos imigrantes e também começava a funcionar o primeiro Turverein. Luiz Schröeder foi o número um e Otto Hillbrecht filho o número dois.  A sociedade escolar fundada em 17 de maio de 1899, atenderia às crianças das 20 famílias residentes. O professor Ernesto Globig, mais tarde nomeada intendente de Hansa, iniciou as aulas na sede da Casa do Imigrante em 1900. Em 1909, foi construído o prédio próprio, em alvenaria.

     Em 5 de novembro de 1899 era fundada a comunidade evangélica de Hansa Humbold. Os primeiros cultos eram realizados nas casas dos imigrantes. E, finalmente, no dia 16 de dezembro de 1906 foi lançada a pedra fundamental da igreja evangélica que levou alguns anos para ser construída.

      Assim, em 1902, Heinrich Meyer fundava o terceiro negócio de Hansa Humboldt. Otto Löffler, com um pequeno capital, construiu a primeira cervejaria na estrada Itapocu. Na estrada Bomplandt, assim nomeada em homenagem ao amigo do naturalista alemão Alexander Von Humboldt (homenageado com o nome da Colônia), foi instalada a primeira atafona que pertencia a Gustav Hoffmann.Luiz Schroeder abriu o primeiro açougue. Até 1906, os cultos das confissões Católica e Luterana eram realizadas no edifício da escola particular alemã.

     Em 1906, o imigrante Roberto Seidel, abre sua “arbori”e floricultura. A localização é a mesma de onde ainda hoje funciona o Orquidário Catarinense. Seu filho Alvim Seidel dedica-se, desde o ano de 1950 ao orquidário,  que além de comercializar e cultivar, desenvolve pesquisas, já tendo descoberto e registrado mundialmente, quase uma centena de novas espécies de orquídeas e bromélias em suas incursões pela mata da região.

Autonomia administrativa

     Em 1908, Hansa foi elevada à categoria de distrito de Joinville e é nomeado seu intendente, Ernst Rucker. Somente em 1910 teve início a iluminação pública à querosene .Os lampiões pendurados em postes de madeira, eram acesos ao anoitecer e apagados às 22 horas diariamente por Christian Hunold. Num salão de sua propriedade funcionou, também, a primeira escola. A primeira professora foi Júlia Fernandes.

     Neste período um primeiro susto acometeu a comunidade  de Hansa. A administração central de Joinville recomendava que toda a correspondência fosse escrita em Português e além de ser habitada praticamente só por alemães, Hansa não tinha escola em Português que possibilitasse aos imigrantes ou mesmo a seus filhos, aprenderem a Língua Nacional.

     O primeiro trem chegou em julho de 19l0, vindo de São Francisco do Sul. Com o trem chegou a esperança de um progresso mais rápido. Mas além de facilitar o transporte de toda sorte de produtos, desde alimentos a produtos para comercialização, o trem trazia e levava pessoas. A ferrovia  chegou a Rio Negrinho somente em 1913. E foi seguindo o trem que muitos moradores deixaram Hansa.

     Alguns foram trabalhar na construção da ferrovia e outros seguiram para o planalto onde era mais fácil arrumar trabalho.
Há cem anos, Hansa Humbold experimentava um crescimento surpreendente. No Distrito havia várias indústrias, serrarias, olarias, moinhos e atafonas, ferrarias, fábricas de carroças, barris, tamancos, chicotes, laços, canoas, charutos e cigarilhas, instrumentos musicais, pincéis e escovas, móveis e refrigerantes; cervejarias, selarias, funilarias, construtores (pedreiros), queijarias, alfaitarias, tecelagens e dezenas de pequenos comerciantes de produtos artesanais e alimentícios, bem como engenhos de arroz atendiam as necessidades dos habitantes e rendiam boas somas na comercialização com outras localidades.

     Aumentava consideravelmente números de sociedades e ligas formadas pelos moradores com o intuito de promover a educação, a cultura, o lazer e assistência aos habitantes.

Começar tudo de novo

     No entanto, entrecortada por rios, Hansa sofreu, em 1910, a primeira grande enchente. Sociedades promoveram concertos, teatros, quermesses e recitais com o propósito de angariar fundos para socorrer as famílias atingidas.

     Os prejuízos foram enormes. As recém-construídas pontes sobre os rios Humbold e Novo foram levadas pelas águas. Reconstruí-las exigiu, além da doação de 75% do salário do intendente, doações dos moradores.Em outubro de 1917, o Brasil declarou guerra à Alemanha e as relações entre os dois países prejudicou francamente os imigrantes em solo brasileiro. Iniciou-se o movimento nacionalista e a língua estrangeira foi gradativa, mas efusivamente proibida em solo nacional. Os imigrantes, embora tivessem sido nacionalizados no ato da colonização, eram brasileiros sem governo e alemães sem Pátria.

     Logo após a 1a. Guerra Mundial (1914-1918) o movimento de nacionalização provocou o fechamento das escolas alemãs. É fundada, então a primeira escola pública e brasileira. A vida cultural voltou a mover as sociedades de atiradores, a ginástica, a música do Jazz Elite, corais e grupos teatrais. As sociedades das senhoras, bem como a produção e comercialização dos produtos locais estavam em alta.

     Enfim, a tranqüilidade voltou a reinar e o progresso acompanhava o crescimento do distrito. Em fins de 1931, foi concluída a Escola Apostólica Seminário Sagrado Coração de Jesus.

     Entretanto, os imigrantes alemães naturalizados brasileiros, ainda sofreram com nova investida do movimento de nacionalização, em 1943, durante a 2a. Guerra Mundial. Além da mudança do nome do então Distrito Hansa Humbold para Corupá, muitos de seus moradores, que construíram com as próprias mãos e dinheiro a cidade, foram perseguidos como se fossem inimigos da nação brasileira. Alguns tiveram que mudar o próprio nome. Escolas, sociedades e igrejas foram fechadas e tudo o que fosse considerado alemão foi confiscado.

     A emancipação política de Corupá se deu pela Lei 348, de 21 de julho, de 1958. A instalação no novo município foi no dia 25 de julho de 1958.  Conforme dados do censo de1950, Corupá contava com 1592 habitantes (761 homens e 831 mulheres).

Os dias atuais

     A economia está baseada na agricultura e pecuária, explorada por minifúndios. Corupá ocupa o 94º lugar na arrecadação de ICM do Estado e 25º em qualidade de vida. A agricultura baseia-se principalmente na produção de banana, arroz, milho, mandioca, fumo e olericultura (hortaliças). Corupá é o maior produtor de bananas do Estado. Possui cerca de 68 indústrias de pequeno e médio porte, destacando-se as de vestuário, metalurgia, artefatos de madeira e móveis.

     A cidade, que já possuiu uma espécie de Spa na década de trinta, se prepara para liderar o roteiro turístico da região. As belas paisagens, a rota das cachoeiras, o clima tranqüilo de cidade interiorana e tranqüila, grutas, orquídeas, vitória régia gigante e as construções do início do século passado e os jardins cuidados com carinho e esmero pelos habitantes, são algumas das atrações turísticas de Corupá.

 

 

 

Bibliografia:
Secretaria Municipal de Educação, Apostila  de Estudos Sociais, Corupá-SC, 2003.
KORMANN, José. HANSA HUMBOLD ontem, hoje  CORUPÁ-(Baseado no arquivo de Gerhardt Herrmann), Edição do autor, Corupá-SC, 1985.
SCHNEIDER, Adolfo Bernardo. Povoamento-Imigração Colonização.Edição do Autor, Joinville-SC, 1983.
História de Santa Catarina, 1º Volume, Grafipar, 1970.

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