Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Garuva

Uma nova história para Garuva


    

      Pesquisa do Professor e Historiador  Gleison Vieira - Autor do livro Porto Barrancos, Berço de Garuva,  lançado em dezembro de 2007. Gleison é professor na EEB Carmen Seara Leite, em Garuva. 

    A história de Garuva teve início no ano de 1494, quando foi assinado o Tratado de Tordesilhas (linha meridiana imaginária que separava o mundo entre os impérios de Portugal e Espanha). A linha deste Tratado transpassa pelas localidades garuvenses de Barrancos, Baraharas e São João Abaixo.

     Tempos depois, em 1545, o navegador espanhol Álvar Nuñes Cabeza de Vaca e mais uma comitiva de 200 homens utilizaram, um ramal da trilha indígena do "Peabiru"-o Caminho do Monte Crista- na localidade do rio Três Barras-, para rumar em direção à Villa de Asunción, no Paraguai.

     A região das Três Barras foi percorrida também pelos jesuítas, que seguiam até às Cataratas do Iguaçu usando o caminho do Monte Crista. Esses clérigos chegaram a construir uma capela próxima a barra do rio Cavalinhos (Três Barras). Os jesuítas também deixaram muitas lendas sobre urnas com ouro enterradas nas imediações.

          


     Documentação oficial de escritura pública registra o compromisso assumido pelo então Vigário José Pinheiro, do Desterro e outros, para a construção da Estrada das Três Barras, em 1730, ou há 277 anos atrás.

     Em 1787, Francisco José de Freitas Castro (francisquense possuidor de 21 escravos) solicitou uma sesmaria (terras abandonadas)  nas Três Barras, estabelecendo o início da ocupação da área.

     Outras sesmarias foram solicitadas nos anos seguintes, ocupando diferentes áreas de terras. Em 1802, Bento Gonçalves Cordeiro solicitou terras em Três Barras. Francisco de Paulla dos Reis, em 1804,  em Rio Palmital; Valentina de Araújo pediu terras em Barrancos, em 1807; o Capitão Miguel Mello e Alvim solicitaram em Rio Urubuquara, no ano de 1822 e, no mesmo ano, Visconde de Jeromirim solicitou terras em Rio São João.

     No rio Cavalinhos (cuja foz desemboca na frente da localidade Barrancos), havia um pequeno porto, o "Porto de Cima", que se conectava a Estrada Três Barras.

     Em 1771, as vilas de Guaratuba e São Francisco estabelecem o traçado atual da divisa entre o Estado do Paraná em relação aos municípios de Garuva e Itapoá.

     Em 1840, a picada do rio Três Barras (aberta entre 1742 e 1752) foi reforçada e se tornou a "Linha da Defesa" - com o objetivo de auxiliar as vilas litorâneas contra os ataques dos índios botocudos. Esta linha começava nas Três Barras, estendendo-se até Laguna. Nesta época, o caminho do Monte Crista era o único caminho terrestre de comunicação com a Vila de Curitiba e São Francisco.

Falanstério do Palmital

     Em 1842, se fixa à margem esquerda do rio Palmital, um Falanstério (uma comunidade utópica anarco-socialista). Esse grupo de cooperativistas, composto de 42 franceses, entre os quais estavam Monsieur Arnaud, Pomatelly, Tesseyer, Jamain e suas famílias, havia se desentendido com um outro contingente francês que se estabelecera na Vila da Glória.

     O grupo do Palmital era liderado pelo tecelão, vindo da cidade de Lyon, Michel-Marie Derrion (1803-1850). Os cooperativados compraram um sítio nas antigas terras de Francisco de Paulla dos Reisterras, no Palmital. Entre 1835 e 1838, Derrion havia criado em Lyon a mais antiga cooperativa de consumo de que se tenha notícia em todo o Mundo. Derrion morreu no Rio de Janeiro em 1850, vitimado pela febre amarela.

     Nesta época, havia no Palmital uma casa de vivenda pertencente ao sítio, um estaleiro, algum arvoredo e pastagens que já  existiam. Deram preferência à construção naval ainda em pequena escala. Por falta de recursos, a experiência se findou em 1846.

     No final de 1848 e no início de 1849, houve um grande ataque de índios na vila da Fazenda Três Barras (do Coronel Cândido Joaquim Santana) e no Palmital, no sítio de Manoel Nunes da Silveira (ao qual foi acudido pelo vizinho Manoel Nunes).

Escadaria do Monte Crista

     Em 1855, a escadaria do Monte Crista era construída a mando de João Coutinho, presidente da Província de Santa Catarina. Ou seja, a famosa escadaria do Monte Crista não foi feita a pedido dos jesuítas, que haviam sido expulsos da América em 1767.

     No final da década de 1860, o Frederico Brüstlein, gerente da Colônia Dona Francisca e da Fazenda Pirabeiraba, beneficiado por leis de posse e usufruto de sesmarias não aproveitadas, arrendou as terras de São João - área em que hoje está instalado o centro da cidade de Garuva, das Três Barras, Urubuquara e da margem direita do rio Palmital.  Brüstlein repartiu esta gleba em porções menores e fez novos contratos de arrendamentos, para que os agricultores produzissem cana para revender à Fazenda Pirabeiraba.

Desenvolvimento

     Em 1870, era instalada a linha telegráfica que interligava a cidade paranaense de Morretes a Vila de São Francisco. Esta linha cortava as localidades de Três Barras, Urubuquara, São João do Palmital e Caovi.

     Na transição do século XIX para o século XX, o caminho das Três Barras e o Quiriri apresentava um bom desenvolvimento. As localidades possuíam inclusive unidade escolar. Devido à distância das Três Barras em relação a São Francisco, Joinville recebia uma subvenção dos cofres francisquenses para fazer a manutenção da Estrada Três Barras.

     Em 1920, uma companhia de engenharia composta por franceses, chamada Paix et Compagnie, de Edmond Paix, recebeu, em pagamento por serviços prestados ao Governo, do então governador Hercílio Luz, as terras devolutas da Península do Sahy e da planície do Palmital, a totalidade atual dos municípios de Garuva e Itapoá.

     À época, as terras sob domínio do Governo poderiam ser usadas como moeda para pagar serviços e a empresa contava com engenheiros dispondo de capital para investir em um projeto agroindustrial, mesmo numa região vasta como aquela.

     A Paix et Cia se dividiu em duas sucursais: a Empresa Industrial Agrícola Palmital Ltda, administradora das terras de Três Barras, Urubuquara, Caovi, Ribeirão da Onça, São João e Palmital. E a Sociedade Agrícola & Florestal do Sahy, administradora das terras dos Barrancos, Baraharas, Minas Velhas, Sol Nascente, Bom Futuro e o restante da Península do Sahy.

     A Empresa Palmital, sob a gerência do francês Alberto Fromaget, montou um porto com um trapiche na Volta Escura do Rio Palmital, local onde hoje está instalado o Recanto João Duarte.

     Em 1921, constituiu-se uma vila no Palmital que passou a ser o centro da recém fundada "Colônia Hercílio Luz". Os colonos poderiam pagar os lotes através da venda daquilo que produziam à Empresa Palmital Ltda. Ali, montaram uma fábrica onde se enlatavam palmito, camarão e abacaxi e outras atividades agroindustriais.

     A Florestal do Sahy, sob a gerência do francês Emílio Gallois, construiu uma luxuosa mansão que abrigou sede na localidade dos Barrancos, comunidade conhecida até então por "Sesmaria Portella". Além do sobrado, a Paix et Cia construiu um enorme trapiche e uma estrada de ferro de 3 km que ligava o Porto Elizabeth a uma represa no Rio Biguassú, local onde a Florestal do Sahy montou uma Serraria e usava um pequeno trem para transportar madeira.

Novas colônias e Distrito

     As vilas do Palmital e dos Barrancos prosperavam. Em 18 de dezembro de 1927 uma cerimônia ocorrida no Porto Palmital marcava a criação do Distrito do Palmital, sancionando um projeto de 1º de Outubro de 1921, que visava criar o 3º distrito de São Francisco do Sul.

     A Colônia Hercílio Luz efetivou colonos nas proximidades dos rios São João, Palmital, Urubuquara, Ribeirão da Onça e Três Barras. No Palmital, Antônio Ladislau de Araújo montou uma casa de comércio. Em 1929, começaram as obras de abertura da Estrada Interestadual Curitiba-Joinville, concluída no ano seguinte.

     No mesmo ano, José da Costa Cidral (o "Bem-Bem") inaugura, na localidade de São João (hoje Centro)  a Casa de Comércio Pohl-Cidral, que também comportava um ponto rodoviário com venda de combustível e, décadas mais tarde, até um cinema!

     A Florestal do Sahy regularizava antigos moradores do Rio Saí-guaçú (Mina Velha), na Sesmaria Nunes (Baraharas) e propiciou a vinda de colonos descendentes de italianos e poloneses para a região do Sol Nascente.

Falência

     Em 1930, a Florestal do Sahy decretou falência. O empreendimento foi leiloado e assumido pela Empresa Palmital Ltda e suas novas sócias, a perfumaria de Lyon, Société Chimique de Gerland e a empresária francesa Marguerite Cariage. O cônsul francês René Peinoit, procurador da Paix Et Cia vendeu as terras como gleba de massa falida.

     Na década de 1930, a massa falida da Florestal do Sahy, no Porto Barrancos passa à responsabilidade de três empresários: Hans Jordan instala um engenho de beneficiamento de arroz. Elias Saad (ou Elias Zattar) monta uma casa de comércio próximo ao Porto, abastecendo os moradores da região. Durval Worf assume o escritório da Paix, no casarão do porto. Em seguida Elias Saad associa-se aos negócios de beneficiamento de arroz de Jordan e a rizicultura da Paix, nos campos dos Barrancos.

     Na década de 1940, a casa de comércio Saad foi desmontada e levada de balsa até a Vila do Palmital. Alguns anos depois, Elias Saad e a professora Maria Correa Saad, instalaram-se em São João, montando um grande engenho de beneficiamento de arroz ao lado da casa do casal.

     Nos anos 50,  iniciaram-se os movimentos políticos para emancipar o 3º Distrito de São Francisco-Garuva, o que ocorre em 1963. Um dos personagens decisivos neste processo foi vereador Dórico Paese, mais tarde o primeiro prefeito eleito. Na época da emancipação, o território do Distrito de Garuva era constituído pela região da Planície do Palmital, os arredores da Serra do Carrapatinhos e pelas micro-bacias dos rios Saí-Guassu, Saí-Mirim e Figueira do Pontal. Itapoá formava o 2º Distrito.

     O primeiro prefeito de Garuva foi Olívio Nóbrega, nomeado até a realização das eleições. Em 1989, Itapoá se desmembra de Garuva.

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