Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Joinville

Uma história da nossa cidade (Jan-Fev 2012)

Por Dilney Fermino Cunha* 
 
A colônia Dona Francisca, atual cidade de Joinville, surgiu a partir do contrato assinado em 1849 entre a Sociedade Colonizadora de Hamburgo e o príncipe e a princesa de Joinville (ele, filho do rei da França e ela, irmã do imperador D. Pedro II). Pelo contrato, os príncipes cediam 8 léguas quadradas à Sociedade, para que fossem colonizadas.  
Assim, oficialmente a história de Joinville começa com a chegada da primeira leva de imigrantes europeus e a “fundação” da cidade, em 9 de março de 1851.
 
Década de 1920 - Antigo Porto de Joinville - próximo ao Mercado Público Municipal. 
 
 
 
 
Sabe-se, no entanto, que há cerca de cinco mil anos, comunidades de caçadores e coletores já ocupavam a região, deixando vestígios (sambaquis, artefatos).  Índios xokleng ainda habitavam as cercanias quando aqui chegaram os primeiros imigrantes.  
No século XVIII, estabeleceram-se na região, famílias de origem lusa, com seus escravos negros, vindos provavelmente da capitania de São Vicente (hoje São Paulo) e da vizinha cidade de São Francisco de Sul.  
As famílias adquiriram grandes lotes de terra (sesmarias) nas regiões do Cubatão, Bucarein, Boa Vista, Itaum e aí passaram a cultivar mandioca, cana-de-açúcar, arroz, milho entre outras plantações. 
Por volta da década de 1840, uma grave crise econômica, social e política assolou a Europa. Fugindo da miséria, do desemprego, de perseguições políticas, milhares de  pessoas resolveram emigrar.  Um dos destinos era a colônia Dona Francisca, para onde vieram cerca de 17 mil pessoas entre 1850 e 1888. 
A maioria alemães, suíços, austríacos e escandinavos, protestantes, agricultores sem recursos, estimulados pela propaganda, que apresentava a região como um verdadeiro paraíso terrestre.  
A intenção da Sociedade Colonizadora, formada por banqueiros, empresários e comerciantes era, entretanto, auferir grandes lucros com a “exportação” dessa “carga humana” e estabelecer uma colônia “alemã”, vinculada aos interesses comerciais alemães.  
O governo imperial brasileiro, por sua vez, incentivava a imigração visando substituir a mão-de–obra escrava por colonos “livres”, ocupar os vazios demográficos e também “branquear” a população brasileira.
Os primeiros tempos na colônia foram extremamente difíceis para os imigrantes, que enfrentaram a natureza hostil, a mata fechada, o solo pantanoso, o clima úmido e as doenças tropicais, responsáveis por inúmeras mortes.  
Superadas as dificuldades iniciais, a situação dos colonos melhorava sensivelmente. A emancipação política chegou com a Lei Provincial Lei nº 566 de 15/3/1866 que desmembrou Joinville de São Francisco do Sul e a eleva à categoria de Vila. 
  Em 1877, Dona Francisca já contava c om cerca de 12 mil habitantes, a maioria vivendo na área rural. Neste ano, a Vila de Joinville é elevada à categoria de Cidade, pela Lei Provincial nº 842, de 3 de maio.
A indústria e o comércio, começavam a se destacar e na década de 1870, já havia quatro engenhos de erva-mate, 200 moinhos e onze olarias.  Exportava-se madeira, couro, louça, sapatos, móveis, cigarros e mate. A cidade importava ferro, artigos de porcelana e pedra, instrumentos musicais, máquinas e instrumentos agrícolas, sal, medicamentos, trigo, vinho, cerveja, carne seca e sardinha.  
Na década de 1880, surgem as primeiras indústrias têxteis e metalúrgicas. O mate transforma-se no principal produto de exportação da colônia Dona Francisca. Nesse período, Joinville já contava com inúmeras associações culturais (ginástica, tiro, canto, teatro), escola, igrejas, hospital, loja maçônica e corpo de bombeiros voluntários, entre outros.
 
Surto de crescimento
 
 
Rua do Príncipe 1901 - Desfile alusivo aos 50 anos 
 
 No início do século XX, uma série de fatos acelerou o desenvolvimento da cidade: é inaugurada a estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, que passava por Joinville, rumo a São Francisco do Sul.
A cidade recebe  energia elétrica, o primeiro automóvel, o primeiro telefone e o sistema de transporte coletivo.  Na área educacional, o professor paulista Orestes Guimarães promove a reforma no ensino público em Joinville.
Em 1926, a cidade já tinha 46 mil habitantes. Na economia, o fortalecimento do setor metal-mecânico é uma das heranças do capital acumulado durante décadas pelos imigrantes germânicos e seus descendentes.
A partir de 1938, a cidade passou a sofrer os efeitos da “Campanha de Nacionalização” promovida pelo governo Vargas.  
O uso da língua alemã foi proibida, as associações alemãs foram extintas, alemães e descendentes foram perseguidos e presos.  Essas ações intensificaram-se ainda mais com a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial, acirrando os ânimos entre a população e causando profundas seqüelas na sociedade local.
Entre as décadas de 50 e 80, Joinville viveu outro surto de crescimento. Com o fim da guerra, o Brasil deixou de receber os produtos industrializados da Europa. Isso fez com que a cidade se transformasse em pouco tempo em um dos principais pólos industriais do país. 
Esta liderança, atribuiu à cidade a denominação de “Manchester Catarinense” (referência à cidade inglesa de mesmo nome). O crescimento desordenado trouxe também problemas sociais que persistem até os dias atuais, como desemprego, miséria, criminalidade, falta de segurança pública e infraestrutura deficitária.  
     O perfil da população modificou-se radicalmente com a chegada de migrantes vindos de várias partes do país, em busca de melhores condições de vida. 
Aos descendentes dos imigrantes que colonizaram a região e que hoje são minoria, somam-se hoje pessoas das mais diferentes origens, formando uma população de cerca de 500.000 habitantes.  
Joinville vive o dilema de uma cidade que pretende preservar sua história e inserir-se na “modernidade”.
 
 
Texto e pesquisa: 
Dilney Fermino Cunha - Professor e Historiador
Autor do livro “Suíços em Joinville. O duplo desterro”, primeira obra de autor joinvilense a ser traduzida (para o alemão) e lançada no exterior. Autor do livro “História do Trabalho em Joinville – gênese”. Co-autor (com Nilson Bastian) do livro “Memória Afetiva – Joinville”. Assistente de produção, direção e roteiro do filme - documentário suíço-brasileiro “Suíços Brasileiros – uma história esquecida” (Júpiter Filmes), a ser lançado em 2012, baseado na obra Pesquisador e tradutor no livro “Harmonia – Lyra” – palco das musas, desde 1858”. Revisão histórica e prefácio da obra “Da comuna aos tempos atuais : a história do Legislativo de Joinville”. Pesquisador do livro “O século singular – participação empresarial na formação de Joinville”. 
 
 
Fontes: 
Relatórios da Sociedade Colonizadora de Hamburgo. Tradução: Helena Remina Richlin. Arquivo Histórico de Joinville.
- RODOWICZ-OSWIECIMSKY, Theodor.  Die Colonie Dona Francisca in Süd-Brasiliaen.  Hamburg: F.H. Nestler und Melle, 1853.
- FICKER, Carlos. História de Joinville. Joinville: Ipiranga, 1965. 

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